quarta-feira, fevereiro 24, 2016

MIGRAÇÕES, EXÍLIOS E REFÚGIOS: SÃO PAULO, BRASIL E OUTRAS PARAGENS



MIGRAÇÕES, EXÍLIOS E REFÚGIOS: SÃO PAULO, BRASIL E OUTRAS PARAGENS

com: Eduardo Araújo
quintas-feiras, 28 de janeiro, 4, 11 e 18 de fevereiro de 2016, das 19h30 às 21h30.

Um percurso de leitura de poemas, contos e letras de canções de autores brasileiros impactados pela experiência migrante. Estes encontros propõem realizar um percurso literário pelo sentido político, emocional e poético das migrações para São Paulo e outras metrópoles, e também analisar o sentimento do brasileiro fora de seu país e o impacto desse trânsito em sua criação. Sem descuidar do sentido estético de autores e obras investigadas, a literatura torna-se refúgio, registro e abrigo dos artistas e tratam de temas como (i)migrações, êxodos e guerras. São livros desafiadores para leitores de todas as idades, mas que podem oferecer ao público adulto uma oportunidade de conhecer obras literárias instigantes, quase sempre com projetos gráficos diferenciados, de artistas e escritores de diversas partes do mundo. O trabalho e a análise do repertório do curso podem abrir o diálogo com crianças e jovens e mesmo aprofundar questionamentos individuais sobre os temas levantados.


Inscrições na recepção da Casa das Rosas, a partir de 10/01/2016. Com certificado digital (mínimo de 75% de frequência).





Dia 18 encerraram-se o curso que ministrei na Casa das Rosas. Foi ótimo, com pessoas simpáticas, muito interessadas, ex alunos e amigas queridas, sem contar com a gentileza de todos os responsáveis na Casa das Rosas, um privilégio poder participar das atividades num espaço tão maravilhoso da Paulista. 


O que mais aprecio na TV Aberta



SEM CENSURA, da TV Brasil, sem sombra de dúvida, é o meu programa predileto na televisão aberta. Ninguém entrevista tão bem quando Leda Nagle, com humor, inteligência, respeito ao entrevistado, numa roda com gente inteligente, sofisticada, tratando atores e celebridades reais como gente comum, com as perguntas mais prosaicas alcançando o mais profundo das pessoas. Amo há décadas esta mulher, nada neste programa é superficial, tolo, e ao mesmo tempo tudo que se diz se faz tão acessível e próximo de nós, espectadores. Impressionante, como tudo as ideias são debatidas com elegância, respeito entre os entrevistados, acho uma beleza. 



Apesar da decadência da TV Cultura, sobre o controle do tucanato paulista, Metrópolis - que ano a ano foi perdendo verbas - tem o melhor elenco de apresentadores da televisão brasileira. Uma revista eletrônica incrível, que traz novidades sobre cinema, teatro, literatura, exposições, música. É imbatível. E conduzido por essa mulher lindíssima, inteligente e sagaz Adriana Couto e o maravilhoso Cunha Jr, e outros participantes sofisticados, faz tudo leve, simples, acessível, mostrando o melhor de São Paulo e do mundo.  São sobreviventes dentro do espaço da televisão, cada vez mais superficial e vulgar. 


 


Que bicho te mordeu? é, por incrível que pareça, superior a Castelo Ratinbum, é superior as minisséries adultas, por tudo: direção, atuação, cenário, conteúdo. Eu assisto e não acredito como é possível que isto tenha sido produzido num país que despreza suas crianças e só apregoa o consumo vazio. Que bicho te mordeu? episódio a episódio, com humor, destreza, inventividade, se propõe a ser um antídoto a imbecilização do espectador, desarmando e neutralizando a banalização do passamento, tratando de questões como Amor, Amizade, Morte, Narcisismo, Consumismo, Medo, Inveja. É uma obra-prima inconteste, amo Cao Hamburguer por fazê-la e a importância deste trabalho para as novas gerações. 

BAIXAR FILMES links

https://yts.ag/
AQUI

http://torrent-series.org/
AQUI

http://www.acasadocolecionador.com/news/outros-contatos/

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Torrents que a gente começa a não encontrar.

http://pt.btkey.org/s/Fall-On-Your-Sword

Para procurar torrent e baixar filmes

AQUI

Então eu recebi inbox uma mensagem linda de minha ex aluna Marina Teodoro




Foi bem inesperado, e eu fiquei muito feliz e comovido. A resposta não ficou tão bonita quanto a mensagem.

Querida, eu vi sua mensagem ontem. estava no celular e não dava para responder. você não sabe como essa sua mensagem me deixou feliz, realmente feliz. Feliz por sua trajetória, feliz por ter ajudado de algum modo, feliz por você ter se lembrado de mim, e por você ter parado para escrever uma mensagem tão bonita. Fiquei comovido. E olha, que eu sou um iceberg!!!! E saber que fiz a diferença e aquele tempo que fui seu professor ainda seja lembra e através de você, ajudando outras pessoas ficou muito feliz. Até orgulhoso. Grande beijo, e da próxima vez, pode vir falar comigo para te dar um abraço pessoalmente.
Beijos mil e sucesso.





Máquinas fotográficas


David Lynch, sobre a escolha de atores para o filme


"Não interessa o quão fantástico é um Ator: na escolha do elenco, é preciso selecionar alguém que combine com o papel, que seja capaz de encarnar o Personagem. Não faço testes com os Atores. Acho que isso é um tormento e inútil para mim. Além disso, eu teria que ensaiar com cada um deles, o que leva muito tempo. Por isso, gosto de conversar com os Atores e prestar atenção enquanto eles falam. Começo a imaginá-los na trama enquanto falam . Alguns param na metade do caminho. Outros vão até o fim, e aí tenho o Ator certo. 
Certa vez eu quis convidar o Dennis Hopper para um papel em "Veludo azul". Eu trabalhava com uma produtora de elenco, mas todos me diziam "Não chame o Dennis, ele está drogado, vai lhe trazer problemas". Dei ouvidos a essas pessoas e não chamei. Eu e a produtora de elenco ficamos procurando vários outros Atores, mas nenhum deles era o "Frank" para mim. Até que um dia, a agente do Dennis Hopper me procurou, e disse que ele estava bem, estava desintoxicado e sóbrio, para dar uma chance para ele. O próprio Dennis me ligou, e me disse: "Eu quero fazer o Frank. Eu sou o Frank". Aquilo me arrepiou, e desde então eu preferi escalar o elenco dentro do meu feeling e não me deixar envolver por comentários de outras pessoas sobre escalação de Atores.
Encontrar um Ator que corresponda a um papel preciso não é difícil. Frequentemente é até uma evidência. O que é mais complexo, é escolher o bom Ator. O que quero dizer com isso, é que, para um dado papel, há sem dúvida cinco ou seis Atores capazes de fazer um excelente trabalho. Mas cada um oferecerá um trabalho diferente. É como em música: você pode escolher tocar o mesmo trecho com um clarinete ou um trompete. Os dois podem lhe dar algo maravilhoso, mas o efeito a cada vez é diferente. E cabe a você decidir qual deles é o melhor para o filme. Depois, acho que o segredo para obter o melhor dos Atores é criar uma atmosfera mais confortável possível no Set. É preciso dar aos Atores tudo aquilo de que eles precisam, pois afinal de contas, é deles que vem o maior sacrifício. São eles que estão diante da câmera e tem mais a perder. E mesmo que sintam prazer ao fazê-lo, eles não deixam de ficar aterrorizados, e é por isso que eles precisam se sentir em segurança."

David Lynch, Cineasta

terça-feira, fevereiro 16, 2016

Saudades da minha mãe


Sempre.

Rabo preso na política do Brasil


O quadrinho sempre dando-nos a síntese perfeita.

Carolina de Jesus em quadrinho, instigante


O poder da imagem e seu ângulo


Nenhuma imagem é inocente, e o recorte de uma imagem (ou apenas deslocada do seu contexto original) reconfigura/redefine seu significado. Já o uso que fizerem dela, está a serviço das ideologias, das políticas, dos interesses. Um recorte nesta imagem evoca tanto solidariedade (a da direita) ou violência/covardia (a da direita), central ela se mostra instigante, da mesma forma, um sujeito capturado, na mira da arma mas, ao mesmo tempo, sendo socorrido por um segundo soldado. Fora do contexto, não sabemos onde, como e quando, e portanto, nos é vetado seu pleno significado. Uma simples legenda poderia dar-lhe significado ou viola-lo, ela em si, não carrega "sua verdade". O real é inapreensível. 

Clássico no metrô


Me apaixonei por esta imagem. Presente e passado fundidos, a imaginação transposta para o real, imaginação e realidade, o divino e o prosaico. E há algo de irônico (mais que icônico) nesta imagem, tão dessacralizada nesta "montagem". Gosto disto. 

Falsear imagens me interessa


Isto é um gif, não sei se funciona no blogspot.

Breve romance de um sonho (Traumnovelle), de Arthur Schnitzler


Adoro o filme do Kubrick, De olhos bem fechados, assisti no cinema, em Santo André, quando foi lançado. E depois soube que era baseado num importante romance, bastante curto, de Arthur Schnitzler, amigo e admirado por Freud. 



Demorou séculos para ter tempo de pegar e ler, uma bobagem, já que é minúsculo, do tamanho de um conto. O filme é quase inteiramente fiel, tirando a cena de abertura na festa e seu desfecho. Mas senti pouca força nesta prosa, neste estilo. Não me apaixonei. Mas ao lê-lo ficou clara essa obsessão pela morte que persegue o protagonista a casa esquina, morte e desejo sexual, casados. 


Ainda assim, acho o filme do Kubrick infinitamente mais instigante, o que não significa que abri mão de ler outros trabalhos de Schnitzler. 

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Amy, Asif Kapadia




Assisti pela Netflix. O grande talento minado por uma crônica sensação de menina abandonada. Um pai oportunista e um marido sádico. O poder destrutivo daquilo que todos chamam amor. E o fim desvanecente de uma voz, um talento incrível. Mítica Amy. 

A garota dinamarquesa (The danish girl)



Assisti aqui em casa com os meninos: Guino, Renan e Duda. Eddie Redmayne arrasando ao lado de Alicia Vikander, a mesma de Ex Machina. Um filme cheio de angústia e belezas, sobre a primeira transexual.

Eu sou Ingrid


Ansioso para ver.

E sombra (conto de Marcelino Freire)

E sombra

Quem vê Kyoto assim, os olhos miúdos, não julgaria que o amor viesse um dia. Para ele, logo ele, um passarinho.
Kyoto, um rapaz sem alegria. Monge, servil. Como um coração que não bebe. Kyoto não bate, Kyoto não bate bem. Kyoto é doido, Kyoto é pedra, Kyoto não esbugalha os olhos. Só tem emulsão. Corte programado, os outros dizem.
Kyoto trabalha em laboratório fotográfico no centro de São Paulo. Photo Hiroshima.
Kyoto vive com a mãe num tronco de apartamento. O pai saiu para trabalhar no Japão. O Japão é longe e Kyoto também.
Tokyo
Hipnótico
O trabalho é imperador. A imagem de Kyoto não tem poder. E tem. Feito deus asiático.
Polaroid Polacolor
Entende tudo sobre goma arábica, transferência de pigmentos. Kyoto cospe fotografias. Para ele, morrer na profissão seria zen. Na concentração. Na disciplina.
Experiente em heliografia. Platinum e Palladium. Kyoto é funcionário exemplar. No horário, no rendimento. Nem se incomoda que seja pequeno o salário. O dia seja pequeno, a noite caia. Caiam as cópias na gaveta, automáticas.
Chegar em casa. Trancado, suado. Pensar que o pai se perdeu. Que o pai não respeitou a dor ancestral. Virou rolamento.
Kyoto revelando a vida dos outros, toda hora. Fotografia em uma hora. Promoção de álbum. Ganhe um filme de 24.
Kyoto não imaginaria a imagem de Soraya.
Soraya.
O amor tem suas químicas. E fantasmas.
Kyoto viu as fotos de Soraya no laboratório. A primeira foto que Kyoto viu de Soraya o coração disparou do disparador. Amarelou.
Dizer xis não é ser feliz.
O sorriso de Soraya é que é um raio. O coração uma cor. No dia em que Soraya se abriu, objetiva. Mulher madura à primeira vista. Close fechado.
Seus seios, cílios de alumínio. Termográficos
Soraya chegou com o pacote de final de semana. Era feriado. Ela entregou para o atendente um filme de 36. Olhar 43.
Kyoto ficou branco. Não piscou. Mudou a posição do sol, de repente. A força da luz afeta a profundidade da sombra. Kyoto tem um coração doente, alaranjado. Interiores com iluminação de tungstênio.
Anêmico
A mãe de Kyoto enche Kyoto de sucos de arrozvv. Filho, quando você era pequeno era gordo. Ela mostra como Kyoto era bonito aos 2, 4, 7 anos. Pára o tempo. O tempo ficou sendo a hora em que os olhos de Kyoto bateram nos olhos de Soraya.
Kyoto começou a acompanhar a vida de Soraya, congelar seus movimentos. Quando ela vai à praia. Quando faz aniversário. Quando beija a boca do otário do namorado.
Quando viaja.
Kyoto viajou com Soraya. Todo japonês viaja. Foi a Santiago. Rumo a Nova Friburgo. Ao céu de Boiçucanga. Andaram de trem fantasma na Disneylândia. Paris, Cidade Luz. São Paulo é um país apagado.
Photo Hiroshima tem o melhor preço do mercado, o melhor colorido, o melhor atendimento. O melhor é pensar e disfarçar. Guardou segredo para si. Não revelar. Escolher Soraya no esquecimento. Ninguém procura ninguém no esquecimento.
A vida dos outros continua. Kyoto corre para copiar. O churrasco de mais um cliente. A festa de formatura, a viagem a Nova York, o parque de domingo.
O Crepúsculo.
A mãe de Kyoto espera no começo da noite. Tem a cara das plantas que cultiva. Inativas. Anos para nascer uma pétala. Anos para uma flor florar.
É preciso sol.
Mas cuidado: evite clarão. Mas cuidado: não vai abandonar a mãe para se entregar a outro sentimento. Mas cuidado: sentimento não tem cabimento. Sentimento é quadro a quadro. A gente coloca o sentimento pousado e clica. Emoldura na parede o pôr-do-sol. A felicidade é só um flash. Depois, ficamos cegos. Cuidado: abraços não são laços eternos.
Soraya na boca do namorado. Kyoto olha de novo o namorado. Bonito, diferente de Kyoto. Kyoto não tem graça. Kyoto e sua mãe não tem graça. Sua mãe naquela língua de formiga minguada, magra. Mãe que só diz “sim”. O ensinamento do “sim”. A cabeça afundada para o chão. Soraya merece um homem melhor. Mesmo que seja otário. Homem safado, sarado e sedutor.
O namorado certo é o namorado errado.
Quem é Kyoto?
Molha o olho miúdo. Abre a sua dor no espelho. Kyoto é feio. Repete: Que graça tem Kyoto? Que raça tem Kyoto? Kyoto queria ser um negro. Ter uma mãe negra. Queria jogar futebol. Uma teleobjetiva para escancarar o segundo gol.
Este amor.
O que ele tem? É amor?
Roubou uma, roubou duas, dez. Quinze fotografias de Soraya. Colocou na gaveta, para olhar.
Olhar como uma meditação. Olhar como um abismo é olhado. Um voo iluminado. O que é isso? Nunca viu Soraya de muito perto. Nem sabe se a carne existe.
Eclipse.
Já estão dizendo que Kyoto perdeu o juízo. Deprimido, esquisito. Demorando com os pedidos. Por que não joga raciocínio neste feitiço? Cadê o raciocínio?
Kyoto cada vez mais escuro. Vontade de matar a mãe. De fugir ao Monte Fuji, atrás do pai.
Um passarinho Kyoto.
A vida é um suicídio.
Devagarinho.



Marcelino Freire. BaléRalé. Atelie Editorial. São Paulo. 2003.

A outra forma (um conto de Guimarães Rosa)

A outra forma


Dez da noite; tarde, para o lugar, na noite comum, de céu despoento e lua nova. Quieta, a igreja, sua frontaria de cem palmos, fechada. Mesmo o adro com o cruzeiro e coqueiros vago de qualquer viva sombra. Dentro, a matriz se pausava, às escuras. Mas, havia lá alguém. No coro, e sem luz, quase sem ousar movimentos, como se se emboscasse, preparado. O homem media seus pensamentos. Temia; ainda. Teria ânimo para defrontas, até à eventualidade extrema, os mistérios do pavor, que a tanto se propunha?
Do alto, dominava o interior do templo, âmbito de treva. Outromodo, porém, que a escuridão não se adensasse, ou a ela seus olhos se tinham afeito, a pouco e pouco. Pequena e vermelha, a lâmpada do Santíssimo alumiava em volta do altar-mor; e, pelos vitrais e óculos, incerta claridade entrava, um tanto se fundia. Via-se a mesa sua alva toalha, os castiçais, as flores e vasos, no nicho o vulto da Santa, os emolduramentos, o Cristo em cruz, o tabernáculo; destacado, o púlpito, de pedra branquiça; e distinguiam-se os bancos da frente, na nave. “Seja minha presença a simples ação, nada imagino... ele se repetia.
Todavia, assim, a igreja dava engano de repleta. Dos que vinham, diuturnos, por resignada angústia ou aflita esperança, pairava muito ali alguma realidade, quase corpórea, que nem o persistir dos cheiros de cera e incenso. Esperar-se-ia, a qualquer espaço, um sussurro ou tosse, partidos de recanto. E na matriz, antiga, jaziam mortos, sob lápides pisadas, com os titubeios; mementos de gastas e não mais sentidas recordações... Comendador Urbano Affonso Aramenha de Rojões Parente, benfeitor, venerado dos seus... na paz do Senhor... Padre Euzébio da Matta... DÍDIA DORALENA ALMADA SALGOSO... Aqui dorme (Outro tempo os vira, outro os levara). O padre não queria a lanterna, consultar as horas. Supunha devesse longo durar, sua vigília.
Prevenia-se de erguida mente, para qualquer alerta espantoso. Melhor, meditasse; segundo o preceito: na postura mais cômoda. Não havia ali, porém, sequer um confortável assento. Só bancos e cadeiras simples além de estantes e o harmônio. De joelhos, então, persignou-se; trouxera, com o hissope, a caldeirinha de água benta. Não revestira estola. Senhor, o combate não é meu...” não era um exorcismo. Sabia-se de alma e corpo expostos a riscos graves. Sempre abertas, em toda a parte, as portas do inferior o mal, inaprofundável e os poderes do abismo, subidores. “... O inimigo tudo estragou no teu santuário...” recitava: o salmo setenta-e-quatro. Deus estreita sua grandeza, deixando-nos o dom terrível de dilatá-la, em espesso mundo, no deserto da matéria. Uma igreja fácil incendiava-se; não poupava o raio as cruzes e as relíquias; os vasos sagrados podiam profanar-se, destruírem-se as alfaias, conspurcadas, e ser envenenado o vinho da consagração. ... A timore inimici eripe animam mean...” Premia. Sua coragem tinha de consistir num ato imperativo.
Torva abominação, com efeito, conturbava os fiéis, desordem enigmática, o absurdo passo para pensar e caso de pasma ameaçava a matriz, por um século tranqüila. De dois meses, na lua nova, a toalha do altar amanhecera estraçalhada, afrontosamente. Seria de atribuir-se a ninguém; a sacrílega turpitude. A igreja conservara-se trancada, sem sinal de efração, nenhum possível traço humano, o mínimo vestígio de um ímpio criminoso. Meio em relutância, tinha-se de cogitar nas nequícias das potências-do-ar, espíritos maléficos; ou, quando não um fenômeno arcano, transnatural, do lado-de-lá, dos mortos, que, com a permissão de Deus, raro retornam. Porque, na lua nova seguinte, a rica toalha mudada, mantel de linho puríssimo, aparecera estroçada, outra vez. E, os que moravam próximo, ouviram que, desde a meia-noite, e adiante na madrugada, tantos cães uivassem; quando alguém avistou disse-se à porta da igreja, ignóbil vulto animal; o de uma porca, enorme.
De novo, no novilúnio, agora, prerrogara-se ele de vir e ficar, por uma vez, sozinho ali, sob rigor de segredo. Depois de grande meditar, rezado assunto; não podia falsear aos deveres de seu ministério. Nem pelos perigos reais da empresa, suas abnormas. Aplicava-se mediante jejuns e válidos dias de oração. O encoberto o rondaria as garras de tentação e possessão e orçava os embates do reino oculto, para onde vão as almas. Desde que proviria o autor do ultraje, de que enganos e antros porque nefas causas? Sendo meia-noite. O padre moveu a cabeça. Nada notava. Mudo mais que inaudíveis morcegos, de asas calafrias, e o silêncio, em seus alvéolos. Todas as noites não rojam uma igual profundeza.
Capacitava-se à prova, tinha o coração puro Sempre lhe fôra dado afastar, sob o amparo da Virgem, as insídias do orgulho e os enlevos da carne que atraem para o cavo chão da tara e da larva. Num afio de exame, repesava os momentos de sua vida; e, mais, aqueles dias ultimos, de preparação estrênua. Consciência em paz. Porque, então lhe voltava, quase obstinada, a figura de uma mulher? Moça, magra, esquálida, de olhos verde-pardos longinquamente.
Desconhecida, a mulher aparecera na semana anterior, de manhã, parada, absorta, quase à porta de casa. Olhara-o, não mais, como se a implorar algo que lhe viesse muito devido. E ele força disto fosse se esquivara, sem a querer fitar, fugira de suas feições. Onde, o mal? No relance, supreendera-se de que talvez a soubesse demasiadamente formosa; a beleza desordenada do semblante dera-lhe, a ele, espécie instintiva de tristeza. Próprio para assustar-se, pensou: tinham chegado ao lugar mulheres de má-vida, podia ser uma dessas, outra vez se benzeu; empunhava o rosário e o crucifixo. Tirando-a, na memória, descobria que se assemelhava a outras, que, desde bem moças, tinham o por nele despertar uma admiração mais aguda, e tomar de sentimento, atração de interesse; ela recolhia em seu aspecto de criatura, algumas meias-parecenças. “... Fixaste, tu, todos os limites da terra... esmagaste as cabeças de Leviatã...” só silêncio. Sem ver, sem achar, sem deparar tempo seqüente.
Torporava com que, certo se esquecera, um tanto, entredormido, cessado de vigiar. Dedilhava o rosário. Tinha de alcançar de esperar de magna alma; sem mais defesa. Aguardava-o. O que? Só, sustoso, vulnerável, sabia, no especulativo, quão efetivo e real o mal se exerce, e o bem se perverte, exorbitados, nas fronteiras do mundo transcendente, como à praia de muitos oceanos... Se ante seus olhos sobreviesse AQUILO mirável o maligno ou o medonho não o iria arrostar as aspersões de água benta nem adjura-lo com as formulas execratórias do Ritual; tão sinistro e obnóxio o lance: que muito mais sabem de nós, que nós mesmos, os entes assombrosos. Sob minutos, no entre-respirar, sentia-se corpo e cansado. ... Os olhos o pardo o verde os olhos... Sofrendo; a mulher, aquela triste moça? Devia rezar por ela. Domino, exauai ” O...
... ronco e estrondo um retumbo! da negridão, de onde os mortos enterrados... Deus, meu, que eu não enlouqueça!... O vulto... a coisa... a PORCA. O... onho, grunho, o brusco peso o volume a PORCA PRETA hispidava-se, saltava de um lanço o gradil, escalava os degraus do altar-mor... Deus que aprisionais os mais perigosos espíritos, em capas cada vez mais densas de matéria!... Sobre medo e repugnância, enxergava-a: maligna e monstra, ia a estrafegar a toalha, rosnando, no estardalho.
Não! sua voz, dele, atroara e tremera. A cuja-coisa voltou-se bicha toda uma fusca massa e cabeça, chispara para o coro os châmeos olhos e encurvos dentes e a goela. Rugia. O Padre gemeu: Senhor ergue-me acima do estupefaziamento do mal-assombro, como a Daniel que na caverna não via os leões, senão só Tua presença, inefável...
Em pé, e com arrepio. Sentisse, em tão apertado horror, rodas da morte. Caíra-lhe o rosário. Traçava com o dedo o sinal-da-cruz, no punho da sotaina. De tropelão, a Porca descia, vindo para a escada do coro ao longo da nave.
Seu trupo, o desembesto, estrondava nos escalões de velha madeira. Sobrepôr-se no transir! Deus meu... ele quis e quis. Sem fazer um pé atrás, sem afastar os olhos, em vertiginosa imobilidade. Se não fosse o Inimigo, com seus embustes, mas pobre alma sem altura, que apenas por uma benção de caridade? ele se lembrava. Surgia-lhe por diante, ao perto, massiva, brutesca em pez e fauces a Porca. Deus... que prestais Vossa substância de amor, para os seres serem... ele se lembrou. A Moça o fitava.
Seus olhos, nela acabados de sair de algum nevoeiro. Toda, enfim, transformada com a aparência corporal por um estranhifício. O rosto: alvo não lívido. Os olhos: o longe o verde o gris. Aquela. Já era figura. E estava vestida dum negro veludo; pudesse ainda ser também cerdoso buri/el de penitente, perdida. Olhava-o submissamente suplicava? Era tão bela. Ele a contemplou, com respondência: cheio de Deus e amorosidade. Iam-se-lhe os olhos. Iam-se-lhe. A ela, para ela. Tudo ele a pedia... Seria vão, aquele atraimento, desses prestígios da goécia, o que induz enganos, o maravilhoso hediondo, se vero e almo? Outro medo o agarrara, continha-o. Se fictícios os olhos o esgazeio: objécticos tornados de matéria mineral, da luz de um simulamento, videnciado, um para-trás de espelho... Tão sempre. Tão simples. Tão belos. Dela. Deu uma beleza preternatural, de outra sorte, outra lei, outra semelhança! outro mundo. Se há o Amor, há o Mal? ele arrancou de si. E se a eternidade fosse uma escolha? Soube: se a aceitasse, desceria primeiro com ela, unidos, para onde, mais que dois grãos no íntimo da mesma pedra, mais que pela mera superfície do destino. Mas tornou atrás. Seu medo constringia-o quase num final de soluço.
A Moça, a mulher, de novo a sumir-se, tresmudar-se já estendida imóvel no chão se lhe representava. Ele não atinava com que a teria coberto um pano, um tapete, o fôrro do demônio. Para não a ver desaparecer. Livrara os olhos. Não temer, não sofrer. Nem olharia no relógio, nem acenderia a lanterna. E ia esperar, ali, até ser dia claro, de costas para tudo, trevas. Pelo vidral, avistava raras estrelas. Ouvia, que os cães uivassem.
Acabou de tremer; esfriavam-se-lhe as unhas. Ajoelhado, inexercitado, levava a Deus sua invalência. Via, vazio, o púlpito, branco de pedra, da grande, oculta igreja. Só podia rezar, pelos mortos na nave sepultados, num dormir infreme. Só pelo silêncio dos mortes, às pompas da poeira. Só pó.
Porém, nele, enormes coisas separavam-se, no chão de sua alma, na dor, no nunca mais, não no trem da memória. Profunda, funda, sua tristeza.

João Guimarães Rosa.
[transcrição efetuada em 10/10/2002; com base nos originais do arquivo d autor; IEB-USP]


Carnaval 2016