terça-feira, janeiro 26, 2016

Poema sujo, de Ferreira Gullar


Poema sujo

(trecho inicial)

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta
(...)

[Li aos dezessete e explodiu a minha cabeça. Uma força, uma fúria, que ninguém pode ver no poeta Ferreira Gullar velho, conservador e reacionário até as tripas. Mas o poema cristaliza, petrifica, conserva um tempo e consagra um desejo de explodir convenções, todas - familiares - morais - políticas - sociais e da forma literária. "O poema sujo", um dos mais belos libelos pela liberdade. Assim, para além do homem, o poeta, o poema se faz vivente, corajoso e existente, à revelia do que aquele, enquanto homem, veio a se tornar.]

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