segunda-feira, janeiro 18, 2016

Então minha tia Diloza morreu - 17/01/2016

Minha tia Diloza morreu. Era irmã de meu pai. Nunca foi uma mulher bonita. Era grande, pesada, silenciosa, a soma de uma delicadeza (até no falar) com uma praticidade incrível. Religiosa, ficou solteira até muito tarde, sempre cuidando dos pais, até que um dia encontrou um viúvo baixinho, o Zé, com três filhas pequenas, com o qual se casou para desgosto dos meus avós, que a queriam para si. Nunca, nenhuma reclamação. Cuidou deste marido numa longa e complicada doença,  depois cuidou da mãe Lalina, até a senilidade, depois do pai, tão silencioso quanto ela, com coração fraco. Gostava muito da minha tia, mas não lembro de uma conversa que seja. Falávamos trivialidades, quase sempre sobre os outros, meus avós. Minha irmã era sempre a mais próxima, como é mais próxima ainda hoje de todos os irmãos e primos do meu pai. Ia tentar achar uma foto da tia, mas creio que não acharei. Ela passou assim pela vida, meio coadjuvante, tomando de empréstimo a vida dos demais, sempre cheia de cuidados, ternura, silêncio: um silêncio pesado e triste. Achava-a triste, sempre cercada de velhos e doentes, até que ela finalmente se tornou velha e doente, já com pais mortos, com dois irmãos mortos, sem quem cuidar. Ela parecia desconfortável com a vida, com o viver. Nenhum desejo, nenhuma ambição, nenhuma queixa para a dor de existir. Tinha a Igreja, uma fé que parecia bastar-lhe. Estranho pensar agora que eu amava minha tia Diloza, que era tão visível, tão sem mistério, e tão absolutamente abnegada. Sua humildade extrema, sua total bondade me desconsertava. Passou mal, foi ao hospital, ficou uma noite internada, os rins iriam parar, exigiriam diálise. Ela nunca quereria dar trabalho a ninguém. Morreu de madrugada, não houve telefones noturno. De manhã minha mãe me ligou, tinha dado banho no cão, secava-o na toalha. Marcamos, fui a feira, lavei a louça, atrasei-me, peguei um táxi em Mauá para vê-la. Fui ao seu enterro, perdi seu velório em que uma sobrinha (minha prima Luciana) contou minha irmã, fez uma linda oração. Encontrei os tios envelhecidos, primos alguns que nem me lembro, modificados todos. Com exceção das lágrima da minha tia, foi um enterro sem comoção, quase prosaico, com parentes próximos, dois ou três amigos seus. Morreu num sábado de madrugada, o enterro foi no domingo, 17.01.2016. Como se para não atrapalhar compromissos, a semana de ninguém, a vida entregue aos demais, até o fim. Descanse em paz. 

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