segunda-feira, janeiro 11, 2016

A pele de Vênus (La Vénus à la fourrure), de Roman Polanski (2013)



A pele de Vênus (La Vénus à la fourrure), de Roman Polanski é um filme de 2013 e que lhe deu o César de melhor diretor. Tinha baixado há um século, até que há três dias meu sobrinho Lucas me convenceu a assisti-lo. 


Dois atores em cena, um único espaço, a matriz é um texto teatral (“A Vênus das Peles”, do norte-americano David Ives, corroteirista do filme com Polanski), mas não pense num "teatro filmado", Polanki vai sempre além, como já havia feito com "A morte e a donzela" e "O deus da carnificina", mas nunca antes com tanta potência. O enredo é simples.




Thomas está num teatro em Paris testando atrizes para sua estreia como diretor. O texto adaptado por ele é A pele de Vênus, escrito por Leopold von Sacher-Masoch, de 1870. De Masoch originou-se o termo masoquismo, pois na peça, a submissão do homem diante de uma dominatrix surge pela primeira vez explicitamente como "fetiche sexual". Thomas, vivido Mathieu Amalric (caracterizado fisicamente como um clone do próprio Polanski) encerra um longo dia de testes de atrizes num decadente teatro parisiense. Reclama ao telefone sobre o nível baixo das atrizes avaliadas, sem firmeza, sutileza e talento para viver sua protagonista, quando surge a porta, molhada pela chuva e atrasadíssima, Vanda (Emmanuelle Seigner), implorando para ser testada para o papel. Embora ele a ache vulgar, rude e estúpida e fazer de tudo para dispensá-la, termina por ceder a sua insistência, pois ela parece irredutível em sua vontade de interpretar a protagonista Vanda, "coincidentemente" sua homônima. 



Após tirar da bolsa um figurino que diz ter comprado num brechó (sob a roupa, ela exibe espartilho negro, cinta liga e indumentária sado-masoquista), mostrar que decorou toda a peça (embora Thomas não entenda como conseguiu cópia de sua versão) e, sem que ele encontre seu nome na lista das candidatas ao teste, convencer Thomas a ler/interpretar as falas de Séverin (autor-protagonista da peça), Vanda inicia sua atuação pedindo as devidas indicações do "diretor". Ela bajula-o a todo tempo, elogiando sua versão, suas referências, seu modo de dirigir, mas pouco antes de iniciar o teste, já está conduzindo a cena, tanto que modifica a luz do teatro para ser mais adequado "ao clima" da cena, criticando o cenário disposto para o teste, que é o de uma peça grega, com direito a símbolo fálico, cujas falas ela evoca en passant



Ao iniciar a leitura, sua energia incontrolável e despudorada, cede lugar a uma Vanda refinada, instigante, sutil, fazendo de uma echarpe a tal pele de Vênus. A partir daí, Thomas é seduzido e dominado pela atriz Vanda, a ponto de se perder as linhas entre o texto da peça e o embate diretor/atriz, homem/mulher, dominador/dominada. 



Mas não é apenas isso, um clima entre o fantástico e terrível se instaura no palco, em que as cenas são brilhantemente enquadradas, ora como se eles encenassem para uma platéia, ora como se o palco se desfizesse num não-lugar. A partir de então, o texto a ser encenado é questionado por Vanda, que o entende como submissão da mulher aos desejos do homem, classificando-a como uma peça pornográfica. Thomas defende a obra e ambos chegam a brigar, enquanto Vanda insinua ser o masoquismo do diretor (sempre atendendo o telefone e falando com sua noiva rica, submisso, prometendo chegar logo e levar o que ela exige) sua motivação para montagem.


Se na peça Séverin é o masoquista que se torna escravo sexual da Vênus Vanda, em cena Vanda o instiga a viver plenamente seu papel, vestir a pele, entregar-se aos seus impulsos, num processo de sedução continuamente ativado e reativado na "entrada e saída dos personagens" na leitura das falas.  Se para Hegel (na dialética do Senhor e do Escravo), um não existe sem o outro, é o que acontecerá em cena. Para que o papel de diretor possa existir, é necessária uma atriz. Para que a dominadora possa existir, é necessário o subjugado. Na dança dos papéis, os gêneros socialmente orientados (masculino e feminino) revelam-se limitados e imprecisos. Até a troca e reversão de papéis, - e pensemos no teatro onde todos desfilam máscaras/peles (visíveis ou não), - em que as noções de masculino e feminino se embaralham por completo e não se permitem enquadrar. Por isso Vanda e Thomas entram e saem de personagens – alguns deles impostos pela construção social – o que os aproxima e repele simultaneamente. E os medos do personagem masculino, com o tempo, se transformam naqueles de homens infantilizados diante de grandes mulheres.


Ao longo da trama, Vanda dominará Séverin até convertê-lo em seu escravo, a ponto deste oferecer-lhe - na peça - um contrato a ser assinado (talvez uma piscadinha ao sucesso do sadomasô soft "50 tons de cinza"). No final, depois de um turbilhão de sedução, luta entre os sexo, taras expostas, Thomas é preso (literalmente) e vê surgir diante de si, a gloriosa - e assustadora - deusa Vênus/Afrodite, desnuda apenas com uma pele, que dança furiosamente como uma bacante e pronuncia-lhe o texto grego, mostrando-se vingativa e humilhando-o, pois desceu à Terra por vingança pois, sendo a encarnação do feminino, jamais se permitiria dominar. Obra de gênio, numa interpretação desconcertante e olímpica de Emmanuelle Seigner.



O homem dominado pela mulher não é algo novo na obra de Roman Polanski, a mesma Seigner já havia feito o mesmo no genial Lua de fel, também uma evocação do teatro e da tragédia grega, com encenações, violência, sexo e desfecho trágico/desconcertante. Embora aparentemente simples, dois atores, um palco, 1h33 minutos de duração, A pele de Vênus/Vênus de vison talvez seja o melhor filme do diretor em muitos anos, seja pelo refinamento da direção, da luz, a direção excepcional dos atores sem nunca deixar o ritmo cair. 


O jogo de cena entre a arte e a encenação dos atores (do texto encenado/ do diretor/atriz), o jogo entre dado real e filme: Almaric como alter ego do diretor em cena a esposa deste, para discutir as relações de desejo amoroso; o jogo entre presente (peça contemporânea e país) e passado (a figuração da deusa que desce ao mundo dos mortais); o jogo entre tom realista e onírico/fantástico, sua discussão sobre as relações de desejo homem/mulher e sobre o próprio sentido da arte, tudo isto revela a grandeza desta obra-prima do cinema. 


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