sábado, outubro 03, 2015

Língua, de Caetano Veloso

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E um profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões

Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira
Fala!

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica, latim em pó,
O que quer, o que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulista
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Cadê? Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Hollanda nos resgate
E, xeque-mate, explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisa como rã e ímã ímã ímã
Nomes de nomes, como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé, Maria da Fé
Arrigo Barnabé

Incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Se você tem uma ideia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o recôncavo, e o recôncavo, e o recôncavo
Meu medo!

A língua é minha Pátria
eu não tenho Pátria: tenho mátria
Eu quero frátria

Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana

[Será que ele está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô, você e tu lhe amo.
Qué que'u faço, nego?
Bote ligeiro
arigatô,arigatô]

Nós canto, falamos, como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem,que falem.

Caetano Veloso

[Quando encontrei esta canção num boletim da biblioteca de Santo André, chamada LINGVARIVM, nunca mais me saiu da cabeça, fiquei apaixonado, memorizei-a inteira, como um poema, sem conhecer o ritmo. Anos depois ouvi o Caetano cantá-la, com um estranhamento total, mas fascínio. Hoje, reouvi, naquele especial Chico & Caetano que está no Youtube. Elza cantando o refrão lindamente, como se fosse o enredo de escola de samba. Uma potência incrível! Coisas que fizeram minha cabeça, me mudaram, me tornaram um tanto o que sou hoje. Eu, que ando desacreditado no poder da arte, da literatura, da poesia, da canção. Salve este dia de reencontro.]

Nenhum comentário: