segunda-feira, setembro 28, 2015

ANATOMIA DO CONTO

ANATOMIA DO CONTO é um blogue literário de reflexão crítica e conteúdo informativo sobre a narrativa curta de viés ficcional, convencionalmente, definida por conto. Trata-se de uma publicação em meio eletrônico, sem fins lucrativos e aberto à contribuição para disponibilização de biografias, bibliografias, entrevistas, ensaios, resenhas, orelhas, notas e fragmentos sobre autores e obras. Seu objetivo é difundir informação e fomentar a discussão sobre literatura em língua portuguesa e disponibilizar a pesquisadores, críticos, professores, estudantes e público geral, textos, imagens, vídeos, áudio e outras formas relacionadas ao relato breve.

Seu objeto de estudo é a produção literária contemporânea de caráter individual (autores e obras) ou coletivas (antologias, coletâneas), bem como aspectos não contemplados normalmente pelos estudos literários, produção gráfica (formatos, diagramação), o papel dos editores e do mercado editorial, a difusão de obras e sua recepção junto ao público.

Visando a uma ampliação da discussão crítica sobre a gênese, evolução e atualidade de um gênero muitas vezes preterido nos estudos literários, Anatomia do conto foi concebido pelo crítico e pesquisador Eduardo de Araújo Teixeira  no Programa Avançado de Cultura Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PACC-UFRJ), com o apoio da CAPES/FAPERJ, dentro do projeto “Narrativas de transgressão - A representação da periferia em Fernando Bonassi, Ferréz, Marçal Aquino e Marcelino Freire”.

As áreas de conhecimento que norteiam ANATOMIA DO CONTO são Teoria e Crítica Literária, Estudos Comparados, Literatura Comparada, Estudos Culturais e Jornalismo Cultural.

BIOGRAFIA

Eduardo de Araújo Teixeira possui graduação em Letras pelo Centro Universitário Fundação Santo André (1997) e doutorado em Letras (Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa) pela USP (2006). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, Portuguesa e Africana, atuando principalmente nos seguintes temas: estudos comparados de literaturas; análise e crítica (estudos sobre o conto); relações entre literatura, cinema, música e cultura popular. Formado pela Escola Livre de Cinema de Santo André em Cinema e Roteiro, é documentarista e atua também na área de Cinema/Vídeo em criação de roteiro; direção e crítica cinematográfica. Editor dos blogues Revide e Escritos Pós-utópicos, colabora, igualmente, como ensaísta em diversas revistas eletrônicas sobre Arte (SoulArt) e Teatro (Questão de Crítica). É professor voluntário da ONG Instituto Henfil, onde leciona Literatura, Redação e Interpretação textual desde 2000. Ministrou curso de pós-graduação em Estudos Linguísticos e Literários no Centro Universitário Fundação Santo André, nas disciplinas por ele formuladas: “Pós-utópicos: a nova literatura brasileira (sobre produção contemporânea), Literatura e Mito, Literatura e outras artes (conexões e intersecções). Ministra workshops sobre literatura africana (CUFSA) e Mário de Andrade (Casa das Rosas). Foi um dos vencedor do Prêmio Rumos/Itaú Cultural (2007) com o tema “Marcelino Freire: entre o rap e o repente”. Atualmente é pesquisador na pós-graduação em Estudos Culturais do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PACC-UFRJ), sob supervisão de Heloísa Buarque de Hollanda. É editor do blogue Anatomia do Conto.


domingo, setembro 20, 2015

Desconstruindo Harry, de Woddy Allen


Daquelas comédias cabeçudas de Woody Allen. Assisti no cinema, há anos, e zapeado a Netflix encontrei, parei e revi. Não me passara na cabeça a conexão entre este filme e o 8 1/2 de Felini, de algum modo rebaixado, para as obsessões de Allen. De conexões, o bloqueio criativo do escritor, sua tensa relação com as mulheres (namorada, esposa, amante, prostituta, mãe, irmã etc) a mistura entre sonho e realidade. Mas em Allen, o exame via desconstrução do sujeito, bastante revelado em suas pequenas obsessões e delírios. A traição com a cunhada, a discípula sexy, a irmã judia hiper religiosa, seu sarcasmo e ironia, seu romantismo disfarçado de cinismo. Há essas micronarrativas-skets, como o ator fora de foco, a descida no inferno, e o amigo prestes a morrer. Tudo delicioso, e com aqueles inserts inteligentes de auter-egos e personagens-recriados interagindo com o protagonista/autor. Mágico. 

Gosto demasiadamente de autorretratos estranhos


Como se fora no sol. Numa escultura em exposição no Museu de Belas Artes do Rio.

Miranda July, É claro que você sabe do que estou falando


Soube que Miranda July escreveu um livro de contos. Foi publicado pela editora Agir. Como gosto demais desta cineastra, atriz, artista plástica, escritora, performer, vou atrás. Breve, digo. 

quinta-feira, setembro 17, 2015

Os quatro sentidos de um texto

Os quatro sentidos de um texto
Convívio, II, 1

Dante Alighieri



Os escritos podem ser entendidos e devem ser expostos principalmente em quatro sentidos. A um chama-se literal, [e este é o que não ultrapassa a letra da narrativa ficcional, como por exemplo as fábulas dos poetas. Ao outro chama-se alegórico,] e este é o que se esconde sob o manto dessas fábulas, e é uma verdade escondida sob uma bela mentira: como por exemplo quando Ovídio diz que Orfeu com sua cítara amansava as feras, e comovia as árvores e as pedras; o que significa que o homem sábio com o instrumento de sua voz amansa e humilha os corações cruéis, e comove à sua vontade aos que não têm vida de ciência e de arte; e aqueles que não têm vida racional nenhuma são quase como as pedras. (...) Na verdade os teólogos tomam esse sentido de maneira diversa dos poetas; mas como minha intenção é seguir aqui a maneira dos poetas, tomo o sentido alegórico conforme é utilizado pelos poetas.

O terceiro sentido chama-se moral, e é aquele que os leitores devem procurar descobrir nos escritos para sua utilidade e dos seus descendentes: como por exemplo pode-se aprender no Evangelho, quando Cristo saiu para o monte a fim de transfigurar-se, que dos doze apóstolos levou consigo apenas três; disto pode-se entender moralmente que nas coisas secretíssimas devemos ter pouca companhia.

O quarto sentido chama-se anagógico, quer dizer supra-sentido; e este ocorre quando se expõe espiritualmente um escrito, o qual, pelas coisas significadas, significa as sublimes coisas da glória eterna, como pode-se ver naquele canto do Profeta que diz que, na saída do povo de Israel do Egito, a Judéia é feita santa e livre. Se é manifesto que isto é verdadeiro segundo a letra, não é menos verdadeiro o que disto se entende espiritualmente, ou seja, que na saída da alma do pecado esta torna-se santa e livre em sua potestade. E, ao demonstrar isto, sempre o literal deve estar à frente, como aquele em cujo sentido os outros estão incluídos, e sem o qual seria impossível e irracional entendê-los, principalmente o alegórico. É impossível porque em toda coisa em que há dentro e fora é impossível chegar ao que está dentro sem primeiro passar pelo fora; portanto, como acontece que na escritura [o sentido literal] esteja sempre do lado de fora, é impossível chegar ao outro, principalmente ao alegórico, sem primeiro passar pelo literal. Ademais é impossível porque em toda coisa, natural e artificial, é impossível chegar à forma sem primeiro estar disposto o sujeito em que a forma deve estar: assim é impossível realizar-se a forma do ouro se a matéria, isto é, o seu sujeito, não estiver primeiro assimilada e preparada; e a forma da arca realizar-se caso sua matéria, que é a madeira, não estiver primeiro disposta e preparada. Conclui-se disto que, sendo o sentido literal sempre sujeito e matéria dos outros, principalmente do alegórico, é impossível chegar ao conhecimento dos outros sem o seu conhecimento. Ademais é impossível porque em qualquer coisa, natural e artificial, é impossível proceder se não se estabelece primeiro o fundamento, como em uma casa ou como no estudo: portanto, dado que o demonstrar é edificação de ciência, e a demonstração literal é o fundamento das outras, principalmente da alegórica, é impossível chegar às outras sem primeiro passar por ela.

Ademais, ainda que fosse possível, seria irracional, quer dizer, fora da ordem, e portanto proceder-se-ia com muita fadiga e com muitos erros. Daí que, se como diz o Filósofo no primeiro livro da Física a natureza quer que o nosso conhecimento se faça ordenadamente, indo daquilo que conhecemos melhor para aquilo que não conhecemos tão bem: digo que a natureza quer na medida em que essa via de conhecer é em nós naturalmente inata. E se os outros sentidos são menos compreendidos que o literal - como de fato é manifesto - seria irracional proceder à sua demonstração se o literal não fosse demonstrado.


In "Convivio", II, 1. Tradução de Roberto Mallet.

(Você pode encontrar esse texto na internet em italiano e em inglês.  A Biblioteca Eletrônica Cervantes também disponibilizou uma tradução em espanhol mas, não sei por que cargas d'água, retirou-a.)

quarta-feira, setembro 16, 2015

A rainha da noite, de A flauta mágica, de Mozart

Mademoiselle Chambon, de Stéphane Brizé (2009)


O pedreiro Jean é casado com Anne-Marie e ambos levam uma vida tranquila com o filho Jeremy. Jean é um sujeito forte, bom pai, bom marido, filho dedicado também no cuidado de seu pai idoso. Ao levar seu filho à escola, conhece a senhorita Chambon, a nova professora do filho. Ela o convida para dar uma palestra para os alunos sobre sua profissão; na sequência, pede-lhe que renove uma janela do seu apartamento. Nesta ocasião, ela toca violino a pedido de Jean, e o mundo de ambos desaba. O filme se converte numa história de amor impossível, não pela diferença de nível, mas por questões éticas um tanto incontornáveis. Delicado, apaixonante, melancólico, triste, triste, triste. Um filme magnífico. 

Frase ouvida no viaduto de dois caras conversando








Cara, a mina não gozava nem fodendo!











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terça-feira, setembro 15, 2015

Il racconto dei racconti



Em três reinos vizinhos, fábulas obscuras se entrelaçam. Uma rainha não consegue engravidar e para isso precisa comer o coração de um dragão. O feiticeiro avisa: todo nascimento exige morte. Um rei promíscuo se apaixona pela voz de uma mulher, sem saber que ela é idosa. Outro rei se encanta por uma pulga e a toma por mascote. Enquanto a pulga cresce, a princesa sonha com um casamento, sem imaginar o horror que está por vir. Baseada em um livro de contos de fada do século 17, de Giambattista Basile, trata-se de uma fantasia violenta e trágica, mas também dinâmica e vibrante.