sexta-feira, agosto 28, 2015

CXLIV - CARTA DE CAPITU

CXLIV - CARTA DE CAPITU

Que o homem se meça pelo que diz ou escreva, dá-se o valor da mulher pela virtude de bem calar. Mas o tempo se esvai, e em seu curso soçobram já velhas ilusões que só o ressentimento conservara em águas apodrecidas. Por isso escrevo o que deveria jazer em abismos, subterrâneos, fossas profundas, escombros de ruínas que no futuro seriam objeto de arqueologia e diversão dos moços. Contudo, Bento, se não lhe aprouver a carta, haverá sempre o recurso do fogo, a conversão em cinza e esquecimento a qual todos nós nos destinamos. Não escrevo, portanto, aos vermes, tampouco engendro filhos para dá-los ao destino dos santos. Sou a mesma, tal semente sob casca ilesa. Não me corromperam Portugais e Europas, tudo que sou é ainda Mata-Cavalos, é Glória. Já não coincide face a face comigo, o retrato da mãe de Sancha. Não o acusemos de infidelidade, visto que o quadro preserva-se, enquanto eu me perco em inconstância a ponto de já não mais, também, reconhecer-me. Tudo está na mão do artista, o efeito da tinta, e o tempo que sim, este também, muda não somente o retratado, mas gera outros olhos - e olhares - com que vê-lo. Minto? Por certo, a contragosto de intenção, no estilo haverás de saber-me menos doce, ainda que não amarga. Sossega-te, nada se reveste nas entrelinhas desta carta ao portador. Vai da minha à tua mão por um terceiro, mas sem conspurcar-se, sem correr à roda dos bondes e bater na rua do Ouvidor onde tudo se escuta e se cala. Sutilíssimo jogo esse, ter-nos-ia dito José Dias se fora vivo, embora soubéssemos fruto de má retórica. Perdoa e sigamos sem nos culparmos. Tudo se passou com o capricho da fortuna, aceitei-a, como escrito que não poderia ser outro. No último ato de Otelo, também Desdêmona sufocada sucumbe sem voz. Restasse, e o enredo seria outro. Joguetes do fado é o que somos, vozes e sons e fúrias: o que sabíamos ser, nunca o que viríamos a nos tornar. Há pouco soube que derruíste a casa para depois erigir outra, tal e qual. Acaso, abrigo de novos fantasmas, ou antigos, daqueles que vão dar ao mar? Reconstituis o folheto reerguendo cenário para fazer girar à roda, no Engenho Novo, o velho drama? Povoe tua casa de amigas, que não há liturgia ou ópera sem lírica. Muito mal fizemos em contrariar as Escrituras. Em algum canto há um negrinho que se fez padre à revelia, e de cuja história não saberemos, pois aos derrotados não estão reservadas tinta e pena. A verdade final é inatingível. E não há inocentes.
Da tua, sempre fiel amiga
Capitolina
1878





[Um conto meu, do livro Inferno Feliz.]

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