quinta-feira, agosto 20, 2015

Cativeiro

A história daquela cruz fincada lá no terreiro
Só Pai João que conhece seu passado verdadeiro
Ela é uma triste lembrança do tempo do cativeiro
Com os olhos rasos de lágrimas de amargura e desengano
Cansado de carregar o peso de tantos anos
Olhando para aquela cruz, Pai João conta chorando:

Onde essa cruz tá fincada também está meu coração
Há muitos anos passado, no tempo da escravidão
Eu vi o meu pai morrer, implorando salvação
Cortado pela chibata do ingrato senhor patrão.

Minha mãe já bem velhinha de mágoa também morreu
Pra carregar essa cruz no mundo fiquei só eu
Depois de tanto trabalho que muito tinha sofrido
Para outro fazendeiro como um animal fui vendido.

Já cavouquei terra dura trabalhei sem reclamar
A cicatriz no meu corpo até hoje tem sinal
Num dia 13 de maio que veio a libertação
Viva a princesa Isabel que acabou com a escravidão.

Só restou do cativeiro essa cruz que ali se vê
Onde o povo faz novena faz promessa pra chover
Sem saber que ali meu pai morreu de tanto sofrer
E neste mesmo lugá eu também quero morrer.

José Fortuna

[Passei toda a infância ouvindo minha mãe declamar esse poema, finalmente achei na internet, em breve posto a leitura linda que ela faz].

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