sexta-feira, julho 31, 2015

Philip K. Dick - documentário

Entrevista de Maria Bethânia em Portugual. 2015.

João e Janete


No Museu da Língua Portuguesa. 2015.

Vídeo do Museu da Língua Portuguesa

João e Janete em passeio por aqui em Sampa


Better call Saul, spin-off de Breaking bad


São dez episódios lançados pelo Netflix, com um dos personagens do Breaking Bad; aquilo que chamam spin-off. Juro que não esperava nada, por isso demorei a ver. Mas como tenho Netflix, e estava acessível, fui ver o primeiro e pronto. O tom é menor, menos épico ou histérico, mas a precisão do roteiro a mesma. A direção segue brilhante, e os atores iluminados. Acompanhar a transformação do trambiqueiro em advogado e posteriormente, sua queda após uma decepção imensa com todos os pontos de verossimilhança postos no lugar, é um elogio à inteligência do espectador. Tanto Breaking... quanto Better... merece um estudo profundo sobre construção de roteiro. Mais uma produção fantástica de Vince Gilligan e de grandes roteiristas: Peter Gould, Gennifer Hutchison, Thomas Schnauz; além do próprio Gilligan. Agora vem a segunda temporada. Espero ansiosamente.  


APESAR DA CRISE

Viralizou nas redes sociais um post no facebook em que o crítico de cinema Pablo Villaça ironiza a forma como a mídia noticia a crise econômica. Você pode ler abaixo.

APESAR DA CRISE
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Eu fico realmente impressionado ao perceber como os colunistas políticos da grande mídia sentem prazer em pintar o país em cores sombrias: tudo está sempre “terrível”, “desesperador”, “desalentador”. Nunca estivemos “tão mal” ou numa crise “tão grande”.

Em primeiro lugar, é preciso perguntar: estes colunistas não viveram os anos 90?! Mas, mesmo que não tenham vivido e realmente acreditem que “crise” é o que o Brasil enfrenta hoje, outra indagação se faz necessária: não lêem as informações que seus próprios jornais publicam, mesmo que escondidas em pequenas notas no meio dos cadernos?

Vejamos: a safra agrícola é recordista, o setor automobilístico tem imensas filas de espera por produtos, os supermercados seguem aumentando lucros, a estimativa de ganhos da Ambev para 2015 é 14,5% maior do que o de 2014, os aeroportos estão lotados e as cidades turísticas têm atraído número colossal de visitantes. Passem diante dos melhores bares e restaurantes de sua cidade no fim de semana e perceberá que seguem lotados.

Aliás, isto é sintomático: quando um país se encontra realmente em crise econômica, as primeiras indústrias que sofrem são as de entretenimento. Sempre. Famílias com o bolso vazio não gastam com supérfluos – e o entretenimento não consegue competir com a necessidade de economizar para gastos em supermercado, escola, saúde, água, luz, etc.

Portanto, é revelador notar, por exemplo, como os cinemas brasileiros estão tendo seu melhor ano desde 2011. Público recorde. “Apesar da crise”. A venda de livros aumentou 7% no primeiro semestre. “Apesar da crise”.

Uma “crise” que, no entanto, não dissuadiu a China de anunciar investimentos de mais de 60 bilhões no mercado brasileiro – porque, claro, os chineses são conhecidos por investir em maus negócios, certo? Foi isto que os tornou uma potência econômica, afinal de contas. Não?

Se banissem a expressão “apesar da crise” do jornalismo brasileiro, a mídia não teria mais o que publicar. Faça uma rápida pesquisa no Google pela expressão “apesar da crise”: quase 400 mil resultados.

“Apesar da crise, cenário de investimentos no Brasil é promissor para 2015.”

“Cinemas do país têm maior crescimento em 4 anos apesar da crise”

“Apesar da crise, organização da Flip soube driblar os contratempos: mesas estiveram sempre lotadas”

“Apesar da crise, produção de batatas atrai investimentos em Minas”

“Apesar da crise, vendas da Toyota crescem 3% no primeiro semestre”

“Apesar da crise, Riachuelo vai inaugurar mais 40 lojas em 2015″

“Apesar da crise, fabricantes de máquinas agrícolas estão otimistas para 2015″

“Apesar da crise, Rock in Rio conseguiu licenciar 643 produtos – o recorde histórico do festival.”

“Honda tem fila de espera por carros e paga hora extra para produzir mais apesar da crise,”

“16º Exposerra: Apesar da crise, hotéis estão lotados;”

“Apesar da crise, brasileiros pretendem fazer mais viagens internacionais”

“Apesar da crise, Piauí registra crescimento na abertura de empresas”

Apesar da crise. Apesar da crise. Apesar da crise.

A crise que nós vivemos no país é a de falta de caráter do jornalismo brasileiro.

Uma coisa é dizer que o país está em situação maravilhosa, pois não está; outra é inventar um caos que não corresponde à realidade. A verdade, como de hábito, reside no meio do caminho: o país enfrenta problemas sérios, mas está longe de viver “em crise”. E certamente teria mais facilidade para evitá-la caso a mídia em peso não insistisse em semear o pânico na mente da população – o que, aí, sim, tem potencial de provocar uma crise real.

Que é, afinal, o que eles querem. Porque nos momentos de verdadeira crise econômica, os mais abastados permanecem confortáveis – no máximo cortam uma viagem extra à Europa. Já da classe média para baixo, as consequências são devastadoras, criando um quadro no qual, em desespero, a população poderá tender a acreditar que a solução será devolver ao poder aqueles mesmos que encabeçaram a verdadeira crise dos anos 90. Uma “crise” neoliberal que sufocou os miseráveis, mas enriqueceu ainda mais os poderosos.

E quando nos damos conta disso, percebemos por que os colunistas políticos insistem tanto em pintar um retrato tão sombrio do país. Porque estão escrevendo as palavras desejadas pelas corporações que os empregam.

Como eu disse, a crise é de caráter. E, infelizmente, este não é vendido nas prateleiras dos supermercados.

Pablo Villaça

Cinebiografia de James Brown



Hoje, assisti com Janete e João, cá em casa.

quinta-feira, julho 30, 2015

A agudeza das charges


Enquanto Somos Jovens (While We’re Young, 2014)





Lucas viu no cinema e me indicou. Documentarista de um só sucesso, em momento decisivo de seu casamento, encontra jovem casal. O impulso do rapaz, estudante de cinema e aspirante à documentarista, e uma convivência cada vez mais estreita faz com que repense sua vida, seu trabalho atual, e se revitalize, assim como sua relação com a esposa. Como qualquer filme de Ben Stiller, a tônica é o humor, uma boa dose de autoironia, e um olhar sobre a sociedade americana. O conflito de gerações parece num momento atual em chave inversa, com a influência dos mais jovens sobre os mais velhos. A virada, é a questão de "empenho para buscar a verdade" a ser apresentada ao espectador, que move o personagem de Ben, passado para a relação com o jovem "pupilo". Quando se descobre a manipulação (desde o princípio) do jovem aparentemente espontâneo, impulsivo, criativo e verdadeiro, o filme passa a mostrar a falta de ética da geração atual, ávida pelo sucesso, sem qualquer ética ou moral para obter o que deseja: a fama e o dinheiro. Do desencanto, o adulto infantilizado de Ben vai ser lançado para o presente, e fazer investir finalmente no sonho sublimado de ser pai, e ter uma relação mais verdadeira com a esposa. Não transcende, mas não deixa de ser bacana.




sexta-feira, julho 24, 2015

Claudia Dorei, conhecendo


Claudia Dorei deu uma entrevista no Jô Soares e uma palhinha de uma canção e adorei a voz. Expire, Respire e Malika são os títulos dos seus Cds. A entrevista foi horrorosa, pois pouco se focou no trabalho, na carreira etc. Jô, cada dia mais gagá, foi deselegante e conduziu de modo constrangedor a entrevista. Nada de novo. Mas a vantagem foi conhecer a cantora e poder ouvi-la, já que seus cds estão disponíveis na rede.

LINK AQUI.

Os 12 Estágios da Jornada do Herói

1. Mundo Comum - O mundo normal do herói antes da história começar.

2. O Chamado da Aventura - Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura.

3. Reticência do Herói ou Recusa do Chamado - O herói recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque tem medo.

4. Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural - O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura.

5. Cruzamento do Primeiro Portal - O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico.

6. Provações, aliados e inimigos ou A Barriga da Baleia - O herói enfrenta testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial.

7. Aproximação - O herói tem êxitos durante as provações

8. Provação difícil ou traumática - A maior crise da aventura, de vida ou morte.

9. Recompensa - O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa (o elixir).

10. O Caminho de Volta - O herói deve voltar para o mundo comum.

11. Ressurreição do Herói - Outro teste no qual o herói enfrenta a morte, e deve usar tudo que foi aprendido.

12. Regresso com o Elixir - O herói volta para casa com o "elixir", e o usa para ajudar todos no mundo comum.



Os Estágios de "O Herói de Mil Faces" 
  1. Partida, separação
    1. Mundo cotidiano
    2. Chamado à aventura
    3. Recusa do Chamado
    4. Ajuda Sobrenatural
    5. Travessia do Primeiro Limiar
    6. Barriga da baleia
  2. Descida, Iniciação, Penetração
    1. Estrada de Provas
    2. Encontro com a Deusa
    3. A Mulher como Tentação
    4. Sintonia com o Pai
    5. Apoteose
    6. A Grande Conquista
  3. Retorno
    1. Recusa do Retorno
    2. Vôo Mágico
    3. Resgate de Dentro
    4. Travessia do Limiar
    5. Retorno
    6. Senhor de Dois mundos
    7. Liberdade para Viver



Outra fonte: AQUI.

quinta-feira, julho 23, 2015

Kafka esteve por aqui


timidamente...

no Revide.

A face de Mário de Andrade


Paranormal, capítulo 3 (Insidious 3)


O esvaziamento completo de tudo aquilo que havia de interessante no primeiro, já diluído no segundo, e agora enterrado como irrelevante neste número 3. Nenhuma cena realmente digna, numa trama tola e esquecível, que já chega ao ridículo de rir de si mesma. 


Samba, de Eric Toledano e Olivier Nakache


Samba é o nome do protagonista do filme homônimo, interpretado por Omar Sy. Ele é um imigrante ilegal do Senegal que vive há 10 anos na França e desde então tem se mantido no novo país, com a ajuda de um tio, à custa de bicos. Alice (Charlotte Gainsbourg) por sua vez é uma executiva experiente que tem sofrido com estafa e acessos de cólera devido ao seu trabalho estressante. Seus caminhos se cruzam quando Samba é preso pela imigração e ela, num serviço de voluntária, tenta ajudá-lo a agilizar a documentação para permanecer no pais. Enquanto ele faz o possível para conseguir os documentos e arrumar um emprego digno, ela tenta recolocar a saúde e a vida pessoal no trilho, e conquistá-lo.

O grande problema de Samba é vagar, a um só tempo, entre o puro entretenimento (chegado à comédia romântica) e o filme "sério", de denúncia realista das dificuldades dos imigrantes, Europa/França contemporânea. O envolvimento entre Samba e Alice, por isso mesmo, parece nunca engrenar. Para complicar, uma trama paralela é construída: preso, Samba torna-se amigo de um outro imigrante, promete ajudá-lo a encontrar sua "noiva" perdida em Paris, mas acaba tendo um curto envolvimento com ela. Esta ação inusitada, destoa do modo de "ser" de Samba, e parece estar ali por dois motivos: 1) tirá-lo da posição de personagem meramente passivo (que apenas reage ao que lhe é infligido) 2) servir ao desfecho mirabolante que garantirá a permanência de Samba em Paris. O final feliz torna-se fundamental num filme comercial, e por isso mesmo, parece ainda mais deslocado num filme cujo problema social sobrepõe-se às ações do protagonista. A ameaça de expulsão é um fato contra a qual não há como lutar, está para além das possibilidades reais de Samba-indivíduo, sem poder sobre aquilo que está atrelado às instâncias governamentais. Uma solução é o casamento com Alice, mas isso não se cogita, pois aí sim, massacraria com sua "funcionalidade" a força legitimadora do amor. O resultado é um estranho realismo-romantizado que só poderia encerrar num desfecho estranho, ambíguo, lacunar, amoral, sem conciliação, com solução provisória, nada catártico, pouco satisfatório ao espectador. 

Não vou dizer que o diretor Eric Toledano (em colaboração com Olivier Nakache) quis fazer um novo Intocáveis (protagonizado pelo mesmo Sy), mas almejava o mesmo sucesso (que não veio). A fórmula do primeiro, que julgaram poder rearticular, consistia em equilibrar drama e humor, preservando numa filmagem clássica, convencional, americana, o tema sério, o tom leve e abordagem conciliatória. O fundamental era juntar num mesmo enredo "afeto" e "problema sociopolítico". O problema é que, diferente de Intocáveis, não conseguiram, em nenhum momento, o equilíbrio entre os dois pontos. A questão de amizade entre dois homens (de idades diferentes), socialmente distintos (o europeu rico e culto/o africano pobre e bronco), mas unidos pela exceção (o paraplégico/o marginalizado), parece ser elementos mais fáceis para conseguir a adesão empática do espectador do que o "amor romântico inter-racial" entre um imigrante ferrado e uma executiva estafada e histérica.

O enredo de Samba gira em torno de pistas falsas, a começar pelo título, que é o nome do protagonista, e não se trata de fato do gênero musical/artístico/cultural brasileiro. Aliás, em vez de efetuar uma recusa a esta "ambiguidade", o que os criadores fazem é aprofundá-la, impregnando a trilha com "sambas" de Gilberto Gil e Jorge Ben, e indo além, inserindo no filme um "brasileiro" cheio de molejo, sedução e gracinhas, Wilson, interpretado por Tahar Rahim. A inserção deste elemento brasileiro é mais uma pista falsa, mas ele fundamental, pois garantirá um alívio cômico a um filme que vai afundando numa realidade massacrante a qual Samba parece destinado. 

Samba é um filme que, de fato, se constrói arregimentando "pistas falsas" que ora se revelam ou não ao espectador, feito o desfecho que tira de novo o nome deste Samba sem qualquer jogo de cintura, de fato, para lidar com o complexo mundo de entrecruzamento de fronteiras. 



Tomorrowland - Terra do amanhã


A mensagem de otimismo contra o catrastrofismo dos tempos atuais, sobre aquecimento global, nova era glacial, acirramento dos conflitos políticos etc, é o que o filme apresenta como diferencial. Outro, são as imagens de um futuro exuberante, principalmente por conta das megacidades. A trama é bobinha: menina acha um bótom que ao ser tocado permite imediatamente se transportar para um futuro ideal, distante do futuro desértico criado pela intervenção do homem. Ela, claro, tem um dom especial que é o de possibilitar a existência do futuro ideal. Será auxiliada por dois personagens um cientista - Cloney - que fora um garoto no passado cheio de esperança e inventividade; o outro, é uma robozinha que consegue entender que há uma conspiração em curso para que o "bom" futuro se realize. É entretenimento, mas pela beleza e pela noção de que "a propagação de um discurso de desgraças e violência sem ter jeito de combater, constrói exatamente, no futuro, o destino que não se deseja ter". A imprensa também não é culpada por recrudescer, propagar e tornar algo "natural" (ou banal) a violência, gerando desconfiança, pânico e desesperança na sociedade. Basta uma zapeada na televisão brasileira para perceber que por atrair (a ajudar a aumentar ibop), o culto a violência é exercido diariamente na mídia, consolidando em todos nós a noção de perene estado de crise, a injustiça e o descrédito no ser humano e nas instituições e coletividades.

terça-feira, julho 21, 2015

Agora mesmo Lucas voa sobre o Atlântico rumo à Áustria


Tenha uma boa viagem.

Por quem rosna o Brasil

Diante da ruína da autoimagem no espelho, o país parece preferir máscaras autoritárias a enfrentar a brutalidade da sua nudez


O que é o Brasil, agora que não pode contar nem com os clichês? Como uma pessoa, que no território de turbulências que é uma vida vai construindo sentidos e ilusões sobre si mesma, um país também se sustenta a partir de imaginários sobre uma identidade nacional. Por aqui acreditamos por gerações que éramos o país do futebol e do samba, e que os brasileiros eram um povo cordial. Clichês, assim como imaginários, não são verdades, mas construções. Impõem-se como resultado de conflitos, hegemonias e apagamentos. E parece que estes, que por tanto tempo alimentaram essa ideia dos brasileiros sobre si mesmos e sobre o Brasil, desmancharam-se. O Brasil hoje é uma criatura que não se reconhece no espelho de sua imagem simbólica.

Essa pode ser uma das explicações possíveis para compreender o esgarçamento das relações, a expressão sem pudor dos tantos ódios e, em especial, o atalho preferido tanto dos fracos quanto dos oportunistas: o autoritarismo. Esvaziado de ilusões e de formas, aquele que precisa construir um rosto tem medo. Em vez de disputar democraticamente, o que dá trabalho e envolve perdas, prefere o caminho preguiçoso da adesão. E adere àquele que grita, saliva, vocifera, confundindo oportunismo com força, berro com verdade.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), relacionado na delação premiada da Operação Lava Jato ao recebimento de 5 milhões de dólares em propina, teria dito a aliados: “Vou explodir o governo”. Tanto ele quanto o apresentador de programa de TV que brada que tem de botar “menor” na cadeia, quando não no paredão, assim como o pastor que brada que homossexualidade é doença são partes do mesmo fenômeno. São muitos brados, mas nenhum deles retumba a não ser como flatulência.

Num momento de esfacelamento da imagem, o que vendem os falsos líderes, estes que, sem autoridade, só podem contar com o autoritarismo? Como os camelôs que aparecem com os guarda-chuvas tão logo cai o primeiro pingo de chuva, eles oferecem, aos gritos, máscaras ordinárias para encobrir o rosto perturbador. Máscaras que não servem a um projeto coletivo, mas ao projeto pessoal, de poder e de enriquecimento, de cada um dos vendilhões. Para quem tem medo, porém, qualquer máscara é melhor do que uma face nua. E hoje, no Brasil, somos todos reis bastante nus, dispostos a linchar o primeiro que nos der a notícia.

Ainda demoraremos a saber o quanto nos custou a perda tanto dos clichês quanto dos imaginários, mas não a lamento. Se os clichês nos sustentaram, também nos assombraram com suas simplificações ou mesmo falsificações. A ideia do brasileiro como um povo cordial nunca resistiu à realidade histórica de uma nação fundada na eliminação do outro, os indígenas e depois os negros, lógica que persiste até hoje. Me refiro não ao “homem cordial”, no sentido dado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em seu seminal Raízes do Brasil, mas no sentido que adquiriu no senso comum, o do povo afetuoso, informal e hospitaleiro que encantava os visitantes estrangeiros que por aqui aportavam. O Brasil que, diante da desigualdade brutal, supostamente respondia com uma alegria irredutível, ainda que bastasse prestar atenção na letra dos sambas para perceber que a nossa era uma alegria triste. Ou uma tristeza que ria de si mesma.

O futebol continua a falar de nós em profundezas, basta escutar a largura do silêncio das bolas dos alemães estourando na nossa rede nos 7X1 da Copa das Copas, assim como o discurso sem lastro, a não ser na corrupção, dos dirigentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Mas, se já não somos o país do futebol, de que futebol somos o país?

Tampouco lamento o fato de que “mulata” finalmente começa a ser reconhecido como um termo racista e não mais como um “produto de exportação”. E lamento menos ainda que a suposta existência de uma “democracia racial” no Brasil só seja defendida ainda por gente sem nenhum senso. Os linchamentos dos corpos nas ruas do país e o strip-tease das almas nas redes sociais desmancharam a derradeira ilusão da imagem que importávamos para nosso espelho. Quando tudo o mais faltava, ainda restavam os clichês para grudar em nosso rosto. Acabou. Com tanto silicone nos peitos, nem o país da bunda somos mais.

Quando os clichês, depois de tanto girar em falso, tornam-se obsoletos, ainda se pode contar com o consumo de todas as outras mercadorias. Mas, quando o esfacelamento dos imaginários se soma ao esfacelamento das condições materiais da vida, o discurso autoritário e a adesão a ele tornam-se um atalho sedutor. É nisso que muitos apostam neste momento de esquina do Brasil.

É também isso que explica tanto um Eduardo Cunha na Câmara quanto pastores evangélicos que pregam o ódio para milhões de fiéis e apresentadores de TV que estimulam a violência enquanto fingem denunciá-la. Estes personagens paradigmáticos do Brasil atual formam as três faces de uma mesma mediocridade barulhenta e perigosa, que se expressa por bravatas diante das câmeras. Numa crise que é também de identidade, forjam realidades que possam servir ao seu projeto de poder e de enriquecimento para abastecer a manada. Esta, por sua vez, prefere qualquer falsificação ao vazio.

Para estes personagens tão em evidência, quanto mais medo, melhor. Inventar inimigos para a população culpar tem se mostrado um grande negócio nesse momento do país. Se as pessoas sentem-se acuadas por uma violência de causas complexas, por que não dar a elas um culpado fácil de odiar, como “menores” violentos, os pretos e pobres de sempre, e, assim, abrir espaço para a construção de presídios ou unidades de internação? Se os “empreendimentos” comprovadamente não representam redução de criminalidade, certamente rendem muito dinheiro para aqueles que vão construí-los e também para aqueles que vão fazer a engrenagem se mover para lugar nenhum. Depois, o passo seguinte pode ser aumentar a pressão sobre o debate da privatização do sistema prisional, que para ser lucrativo precisa do crescimento do número já apavorante de encarcerados.

Se há tantos que se sentem humilhados e diminuídos por uma vida de gado, porque não convencê-los de que são melhores que os outros pelo menos em algum quesito? Que tal dizer a eles que são superiores porque têm a família “certa”, aquela “formada por um homem e por uma mulher”? E então dar a esses fiéis seguidores pelo menos um motivo para pagar o dízimo alegremente, distraídos por um instante da degradação do seu cotidiano? Fabricar “cidadãos de bem” numa tábua de discriminações e preconceitos tem se mostrado uma fórmula de sucesso no mercado da fé.

A invenção de inimigos dá lucro e mantém tudo como está, porque, para os profetas do ódio, o Brasil está ótimo e rendendo dinheiro como nunca. Ou que emprego teriam estes apresentadores, se não tiverem mais corpos mortos para ofertar no altar da TV? Ou que lucro teria um certo tipo de “religioso” que criou seu próprio mandamento – “odeie o próximo para enriquecer o pastor”? Ou que voto teria um deputado da estirpe de Eduardo Cunha se os eleitores exigissem um projeto de fato, para o país e não para os seus pares? Para estes, que estimulam o ódio e comercializam o medo, o Brasil nunca esteve tão bem. E é preciso que continue exatamente assim.

Se o governo Lula, na história recente do país, fundou-se sobre um pacto de conciliações, para compreendê-lo é necessário também decodificá-lo como um conciliador de imaginários. Lula, o líder carismático, foi muito eficiente ao ser ao mesmo tempo o novo – “o operário que chegou ao poder” num país historicamente governado pelas elites – e o velho –, o governante “que cuida do povo como um pai”. A centralização na imagem do líder esvazia de força e de significados o coletivo. Do mesmo modo, a relação entre pais e filhos alçada à política atrasa a formação do cidadão autônomo, que fiscaliza o governo e concede ao governante, pelo voto, um poder temporário.

Mas a ideia mais sedutora do governo Lula, em especial no segundo mandato, era a possibilidade de incluir no mundo do consumo milhões de brasileiros e reduzir a miséria de outros milhões sem tocar no privilégio dos mais ricos. Este era um encantamento poderoso, que funcionou enquanto o Brasil cresceu, mas que, qualquer que fosse o desempenho da economia, só poderia funcionar por um tempo limitado num país com acertos históricos para fazer e uma desigualdade abissal. Enquanto o encanto não se quebrou, muitos acreditaram que o eterno país do futuro finalmente tinha chegado ao futuro. O Brasil, que valoriza tanto o olhar estrangeiro (do estrangeiro dos países ricos, bem entendido), leu-se como notícia boa lá fora. A Copa do Mundo aqui foi sonhada para ser a apoteose-síntese deste Brasil: enfim, o encontro entre identidade e destino.

Não foi. E não foi muito antes dos 7X1. Essa frágil construção simbólica, que desempenhou um papel muito maior do que pode parecer na autoimagem do Brasil e nas relações cotidianas da população na história recente, exibiu vários sinais de que se quebrava aqui e ali, vazando por muitos lados. Sua ruína se tornou explícita nas manifestações de junho de 2013, protestos identificados com a rebelião e com a esquerda, apesar da multiplicidade contraditória das bandeiras. Quem acha que 2013 foi apenas um soluço, não entendeu o impacto profundo sobre o país. A partir dali todos os imaginários sobre o Brasil perderam a validade. Assim como os clichês. E a imagem no espelho se revelou demasiado nua. E bastante crua.

O Brasil do futuro não chegará ao presente sem fazer seu acerto com o passado. Entre tantas realidades simultâneas, este é o país que lincha pessoas; que maltrata imigrantes africanos, haitianos e bolivianos; que assassina parte da juventude negra sem que a maioria se importe; que massacra povos indígenas para liberar suas terras, preferindo mantê-los como gravuras num livro de história a conviver com eles; em que as pessoas rosnam umas para as outras nas ruas, nos balcões das padarias, nas repartições públicas; em que os discursos de ódio se impõem nas redes sociais sobre todos os outros; em que proclamar a própria ignorância é motivo de orgulho na internet; em que a ausência de “catástrofes naturais”, sempre vista como uma espécie de “bênção divina” para um povo eleito, já deixou de ser um fato há muito; em que as paisagens “paradisíacas” são borradas pelo inferno da contaminação ambiental e a Amazônia, “pulmão do mundo”, vai virando soja, gado e favela – quando não hidrelétricas como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio.

Este é também o país em que aqueles que bradam contra a corrupção dos escalões mais altos cometem cotidianamente seus pequenos atos de corrupção sempre que têm oportunidade. A ideia de que o Congresso democraticamente eleito, formado por um número considerável de oportunistas e corruptos, não corresponde ao conjunto da população brasileira é talvez a maior de todas as ilusões. É duro admitir, mas Eduardo Cunha é nosso.

Neste Brasil, a presidente Dilma Rousseff (PT), acuada por ameaças de impeachment mesmo quando (ainda) não há elementos para isso, é um personagem trágico. Vendida por Lula e pelos marqueteiros na primeira eleição, a de 2010, como “mãe dos pobres”, ela nunca foi capaz de vestir com desenvoltura esse figurino populista, até por sinceridade. Quando tenta invocar simbologias em seus discursos, torna-se motivo de piada. O slogan de seu segundo mandato – “Brasil, Pátria Educadora” – não encontra nenhum lastro na realidade, virando mais uma denúncia do colapso da educação pública do que o movimento para recuperá-la. Parece que os marqueteiros tampouco entendem o Brasil deste momento e seguem acreditando que basta criar imagens para que elas se tornem imaginários. O próprio Lula parece ter perdido sua famosa intuição sobre o Brasil e sobre os brasileiros. Em suas manifestações, Lula soa perdido, intérprete confuso de um Brasil que já não existe.

Os protagonistas das manifestações de 2015 gritam também para manter seus privilégios
Agora que já não contamos com os velhos clichês e imaginários, a crueza de nossa imagem no espelho nos assusta. Diante dela e de uma presidente com a autoridade corroída, cresce a sedução dos autoritarismos. Nada mais fácil do que culpar o outro quando não gostamos do que vemos em nós. Em vez de encarar o próprio rosto, cobre-se a imagem perturbadora com alvos a serem destruídos. Aqueles que encontram nesta adesão aos discursos autoritários uma possibilidade de ascensão, esquecem-se da lição mais básica, a de que não há controle quando se aposta no pior. Só há chance se enfrentarmos conflitos e contradições com a cara que temos. É com esses Brasis que precisamos nos haver. É essa imagem múltipla que temos de encarar no espelho se quisermos construir uma outra, menos brutal.

O que o governo Lula adiou, ao escolher a conciliação em vez da ruptura com os setores conservadores, está na mesa. Há várias forças se movendo para encontrar uma nova acomodação, que evite o enfrentamento das contradições e das desigualdades. É pelas bandeiras da reacomodação que as ruas foram ocupadas em 2015 pelo que alguns têm chamado de “nova direita”. Esta, se adere à novidade da organização pelas redes sociais e aparentemente se coloca fora dos esquemas tradicionais da política e dos partidos, talvez seja menos “nova” do que possa parecer nas questões de fundo.

A próxima manifestação, marcada para 16 de agosto, é acompanhada com atenção pelos políticos e partidos tradicionais que conspiram pelo impeachment da presidente eleita. Os manifestantes de 2015 gritam contra a corrupção, mas basta escutá-los com atenção para compreender que gritam para deixar tudo como está. E, se possível, voltar inclusive atrás, já que uma parte significativa parece ter se sentido lesada por políticas como a das cotas raciais e outros tímidos avanços na direção da reparação e da equidade. A redução da maioridade penal, assim como outros projetos conservadores em curso, são também exemplos de uma resposta autoritária – e inócua – para o esgarçamento crescente das relações sociais e para a violência.

Há muito barulho sendo produzido hoje, como o próprio discurso de Eduardo Cunha em cadeia nacional (17/7), para desviar o foco do grande nó a ser desatado: não haverá justiça social e igualdade no Brasil sem tocar nos privilégios. Muita gente bacana ainda segue acreditando no conto de fadas de que é possível alcançar a paz sem perder nada. Não é. Quem quiser de fato reduzir a violência e a corrupção que atravessa o Brasil e os brasileiros vai ter de pensar sobre o quanto está disposto a perder para estar com o outro. É este o ponto de interrogação no espelho. É por isso que o som ameaçador dos dentes sendo afiados cresce. E cresce também onde menos se espera.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

O homem formiga


Ontem, no trânsito das férias em que não viajei, aproveito o tempo para ser integralmente tio. Peguei o Gabriel que dormiu aqui em casa, e fomos a Mauá encontrar o Pedro para assistir, conforme o prometido, a Homem-formiga.


Compramos batatas, coca, uma caixa de bombons e ficamos firmes na fila por 30 minutos para ver este filme que junta super herói e comédia. Foi divertido. E Pedrão adorou. Depois fomos comer hamburguer e voltamos de ônibus para o Zaíra.



Leilaine me ofereceu um ótimo jantar, Sérgio estava monossilábico, como de praxe. E o bebê Vittorino estava elétrico e fofo. Dormi no antigo quarto da mão. Pek foi para Bahia. Então casa da infância é meio como uma casa dos mortos, com direito a fantasma e toda sorte de súcubos de infelicidade. Big estava só e tristinho, e me fez companhia dormindo ao ao pé da cama. 

Quanto ao filme: entretenimento. 

Tirado da "Tabacaria" de Pessoa

Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. 


Fernando Pessoa

domingo, julho 19, 2015

Lúcia

Lúcia chegou, quando do inverno o tredo
Vento agitava o coqueiral vetusto.
Vinha ofegante, e pálida de susto,
E trêmula de medo...

Ah! quanto beijo e quanto riso ledo
Deu-me o seu lábio, rúbido e venusto!
Quanto divino sentimento augusto,
Quanto infantil segredo!

Lúcia partiu... E aquele riso doce
Lúcia levou! A casa transformou-se
Num sepulcral degredo.

Se o vento agita o coqueiral vetusto,
Inda a recordo: pálida de susto
E trêmula de medo...

Artur de Sales

Galileu Galilei, no TUCA


O que temos para hoje:


Montei uma verdadeira caravana de amigos para ir hoje assistir Galileu Galilei no TUCA, espero que seja inesquecível. 


Une nouvelle amie, de François Ozon


Que François Ozon é um autêntico "auteur", no sentido de "diretor cinematográfico com uma marca absolutamente pessoal/autoral" como os grandes autores da novelle vague, não há dúvida. Poucos ainda podem ostentar esse título, como Almodóvar, Woody Allen, Wong War-Wai. Na França de hoje, praticamente só dá ele, com obras inventivas, provocativas, geniais. Une nouvelle amie é, indubitavelmente, sua obra-prima. A interpretação iluminada de Romain Duris e Anais Demoustier mostram que sim, é possível ainda fazer arte no cinema, pôr em pauta questões da modernidade e iluminá-las com arte. Entreter, encantar, perturbar. O filme termina e a gente o leva conosco. Mil referências mas sem fazer disso uma colagem. O impacto claro em Ozon do cinema de Almodóvar, de Buñuel (que já está inserido no outro), de Hitchcock. Uma tensão premente, uma habilidade de condução à serviço da trama, de conter em cada frame o significado exato. o impacto visual, a interpretação, os diálogos, o roteiro enxuto onde tudo é imprevisível. Um show de cinema, para continuar assistindo continuamente. Um drama conduzido como um suspense, mas que no fundo é um ensaio brilhante sobre a questão do "gênero" e da "sexualidade humana". Um filme sobre a obsessão de uma mulher, em que o exterior é também materialização de seus conflitos internos. Brilhante.




[Assisti ontem, com Mauro, no Itaú da Augusta. Antes passamos no sebo ali perto, depois comemos naquele restaurante ótimo em frente ao Athenas. A sessão foi as 21h, descemos de lá até em casa, em altos papos, paramos ali naquele bar cool chamado "Igrejinha" e ainda deu tempo de passar pela Praça Roosevelt para ver se encontrávamos o Du.]

sábado, julho 18, 2015

Autorretrato de Rembrandt


A força no rosto de Rembrandt.

Cabeça de Cristo, de Rembrandt


Rembrandt Van Rijn (1606-1669)

[Rembrandt usou como modelo o jovem judeu sefardita que tinha então chegado a Amsterdam após ter sido expulso da Espanha]

Krum, com Renata Sorrah (preciso ver)




Maria Bethânia







Você é pequena, 
mas fita os Andes.






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Jussara Silveira, enchendo de música minha vida









A dama do cassino

Eu prometi e cumpri mil carinhos
E muito respeito
Amor perfeito nos momentos bons
E nos momentos maus
Mas essa dama danada nunca encontra
Nada a seu jeito
Ela só busca as espadas, os ouros
As copas e os paus

Eu planejei sete luas de mel
Caravanas e tropas
Museus, paisagens, perfumes, vestidos
Receitas e roupas
Mas essa dona maldita sequer
Acredita em Europas
Ela só sonha com ouros, com paus
Com Espadas, com copas

Diz-se que quem é feliz no amor
No jogo é infeliz
E de quem faz do amor
Um jogo o que é que se diz
Ela é a rainha
Como poderei pensar que ela é minha?

Eu escrevi canções pra caminhões
De guitarras e couros
Que se tornaram estouros em mais
De muitos carnavais
Mas pra essa Diva jamais
O sambódromo, o autódromo e os touros
Ela só fica pensando em paus
Em copas, espadas e ouros

Eu já fiquei como Erasmo
Sentado à margem das estradas
À espera de uma palavra da boca
Um gesto das mãos
Mas essa deusa só diz nãos e
Nuncas e necas e nadas
Ela só pensa em oureos, em paus
Em copas e espadas

Diz-se que quem é feliz no amor
No jogo é infeliz
E de quem faz do amor
Um jogo o que é que se diz
Eu não sei jogar
Ela é a rainha
Como poderei pensar que ela é minha?


Jussara Silveira, uma cantora que eu amo e cito tão pouco. Hoje cantando, pela casa, com ela.

Um coração cheio de amor





Hoje. Inexplicavelmente, um dia com o coração cheio de amor,
daqueles que fazem a gente cantar pela casa em voz alta.




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sexta-feira, julho 17, 2015

quinta-feira, julho 16, 2015

Insult to injury, doo irmãos Chapman








The Brothers Chapman, apropriam-se de Goya para recuperar o escândalo, seu poder subversivo.