quinta-feira, abril 23, 2015

17 de abril, depois...


Ando me sentindo bonitinho com meus quarenta e tantos. Não é pouco para quem há anos reclama dos quilos que serão sempre a mais. Os planos novos são os velhos. As contradições são o que me definem. Essa cara em desacordo com a voz, em desacordo com o sexo, em desacordo com a fúria, em desacordo com a ação. Cada dia menos do pai, menos da mãe, algo indistinto, desatento, moroso e cheio de desapego às convenções. Um amor crescente (se é possível) pelos sobrinhos, quase como se fossem extensão de mim e minimizassem meu fracasso. Mais livres, mais inteligentes, doces, afiados, e bonitos. Gente talhada para ir ao mundo sem medo..

Ouço o Songbook/Cancioneiro do Dorival até não aguentar. É que ando sentimental. Me comovi quase às lágrimas com Nana Caymmi cantando/recitando Pessoa, no ônibus do Rio. A interpretação de Jussara Silveira para Ludo Real, tem coisa mais bonita? Passear em Santa Teresa com a irmã, deitar no sofá e falar sobre decepções amorosas com Jô, ganhar um bolo de aniversário num Samba da Lapa, da Jan. Ir visitar o João da Janete para um almoço delicioso no Meyer. Beber cerveja sem embebedar. Vadiar no Rio para afogar a eterna tristeza, e receber sempre mais do que busquei. Sem dor, sem culpa. Então, aniversariado, num banco solitário que dá para uma janela onde a paisagem escapa ao olhar, descobri que não dependo de um amor oficial para estar feliz e em paz comigo. 

Não direi (nunca digo) mentiras de fidelidade e amor eterno. Mas isso não é garantia de nada, as traições seguem antológicas e profundas, um rol de decepção a nos conduzir à descrença. Fazendo aquele balanço de somas e subtrações, andei gostando de gente demais e demasiadamente nos últimos anos. E agora o espanto: neste querer bem a uma porrada de gente, nem uma centelha de arrependimento. Recebi as mais belas mensagens clichês de aniversário, padronizadas e sinceras, rápidas e delicadas, sacanas e de compaixão. Paradoxais, como o destinado..Deitado no quarto da Jô (contradições! ironias!), também a última veio traduzir o fim banal e sem sentido de toda história de amor. 

Queria dizer que é um ciclo que se fecha, mas o acaso é meu amigo, e sempre me livra do tédio existencial. O que compreendi, ao despertar nesta manhã de um sonho seguido motivado pela febre da gripe, foi que a idade do lobo chegou ao fim. A aflição virou essa coisa calma, sofá e televisão. Gosto de ler, enviar mensagens, fazer fotos e conversar demoradamente. Sigo cantando mal pela casa. Dançando sem ritmo canções que vem do computador. O fantasma que partira retornou impiedoso e fiel, queimou a tevê de novo, e de novo (três vezes), só deixou o estabilizador intacto para mostrar que não está de brincadeira. Não luto mais com o cara, que não quer minha casa invadida, minha paz violada. Decidi investir nesse barato de fotografar, estudando muito, Novos filmes, escrevendo um tanto mais, um serial solitário contumaz. Parece saber que agora o que eu estou mesmo a fim é da liberdade de gripar, de engordar, de ter azia e mau humor, de dormir tarde, muito, e trabalhar pouco. Trouxe uma comigo-ninguém-pode para fazer-lhe companhia e baixar a bola. Ganhei incensos de citronela para espantar mosquitos e as forças nefastas. E, por fim, fiz as pazes comigo. Estamos bem, reconciliados, eu comigo mesmo, divergindo quanto a barba, planejando a viagem a Portugal e a Áustria, e treinando o inglês para não passar vergonha nunca mais. E o resto é uma canção. 



Um comentário:

Bubu Couto disse...

Parabéns meu rei, uma chuva de luzes coloridas =)