sexta-feira, março 20, 2015

CALENAS

para mãe Edna

Acordou e estava sem os dedos dos pés. Não gritou. Tinha trinta anos e não era mais uma menina. Foi prática: teria dificuldades para manter-se em pé?

Em pé, com as mãos apoiadas na parede, deu pela falta do marido que cochilara, tinha certeza, noite passada ao seu lado. Teria sido ele? Mas os lençóis estavam limpos, nenhum respingo de sangue na seda luminosa. Palpando as paredes, alcançou a cozinha onde os ladrilhos encerados representavam maior obstáculo. Os chinelos não se encaixavam na planta nua dos pés e o calcanhar, mais vulnerável que o de Aquiles, bambeava sem precisão.

De posse de uma cadeira com rodinhas, deslizou até o telefone. Chegou a tirá-lo do gancho e digitar os três primeiros algarismos. O marido certamente estaria em reunião (sempre que ligava o marido estava em reunião) e não poderia atendê-la. Se atendesse, resmungaria:

  Me ligou só por causa dos dedos dos pés?! Não vê que alguém tem que sustentar a casa e não pode ser interrompido por uma besteira dessas?!

Colocou o telefone de volta no gancho e novamente o tirou. No estado em que se encontrava, não poderia atendê-lo ao terceiro toque; o que achava inadmissível. Era fiel aos seus hábitos. Oh, rútilo grito, a ruidosa mente a soar!

Indecisa sobre o que fazer, engatinhou do tapete falsamente persa até a poltrona; esticou a mão e, de controle absoluto dos sentidos, atenta à previsão do tempo com pequenas pancadas de chuva, ligou a tevê. A modelo anunciou um produto novo para unhas e o horóscopo mandou que se desligasse das coisas materiais. De que matéria seriam constituídos seus dedos para desaparecerem assim?

Cogitou logo a primeira e absurda hipótese: a do rapto. Fosse, cometera um enorme erro com o fone fora do gancho. A chance de seqüestro breve afastou-se, posto que era de classe média e tais coisas só aconteciam aos mais favorecidos. Contudo pôde ver-se nas possíveis entrevistas. A foto fornecida para identificação dos dedos exposta ao país. Receberia milhões de cartas de pessoas que nunca vira, solidárias com a sua perda. Haveria também profusões de falsas pistas, mas com o resgate, viria a ser popular; quiçá estrelasse um comercial de esmaltes cintilantes.

No entanto, ser uma mulher sem dedos não estava dentro da sua rotina. O imprevisível sempre lhe causara um desconforto insuportável. Não tivera filhos para não se deparar a cada dia com o novo. Como se haver se não há crianças? E agora era uma mulher sem dedos. Como denominar-se? Nem maneta, nem perneta: dedeta? De repente, sentiu como se os dedos ausentes se pusessem a doer. Mas e o marido?! Como dizer ao marido que algo faltava àquela união? Ao saber, ele manifestaria sua decepção com seu cinismo habitual, depois, tomaria o banho e dormiria sem dificuldade antes de terminar o noticiário. Ela abriria uma lata de leite condensado e se flagelaria com uma colher de sobremesa. O pior viria com o decorrer das semanas: logo o marido procuraria fora o que não encontrava no próprio lar. No começo seriam mulheres comuns, sem pedigrees. Evoluiria com o tempo para companhias que tivessem enormes pés. Melhor: dedos enormes! Passaria a ser um homem fascinado por dedos. Presentearia suas amantes com bases para fortalecer as unhas e contrataria um designer para confeccionar jóias exclusivas para os pés; um escultor, para imortalizá-los em mármore. E ela cada dia cobraria a atenção para dele ouvir, sibilar como chicote, que tinha se casado com uma mulher completa: dez dedos nos pés, dez nas mãos.

Saiu pela casa vasculhado gavetas, lançando a largo peças de roupa de toda espécie, talheres espalhados no piso, revistas escalavradas nos cantos, espaguete esparramado no chão para, no final saber, inútil a busca, foram-se para nunca mais. E recobrando o domínio, tornou habilidosa a recolocar tudo no devido lugar, a recompor o sacrossanto lar milímetro a milímetro, lançando a água de lavadeira a todo canto, passando eucalipto, lustrando a prata até que o lar fosse novamente mais doce que o próprio doce, que fosse perfeito sobre a imutável sensação da ausência.

O marido a despertou às dez com um beijo quente, pediu desculpas por não ter se despedido a tempo. A viagem de negócio fora combinada às pressas e era imprescindível para sua promoção. Ela compreendeu e esbugalhando os olhos disse que estava cansada.

Enquanto ele se preparava para entrar no chuveiro, ela ergueu o lençol e mirou os pés. Lá estavam eles, os dois: nenhum dedo.

Mais tarde, na cama, beijavam-se. Ele quis puxar a coberta, mas ela pediu que dessa vez fizessem amor com a luz apagada. Quando terminaram, ela acendeu o abajur; ele voltou-se pro lado e adormeceu. Então ela se pôs de pé havia treinado todo o dia, de modo a quase ter controle dos passos. Embora o domínio não fosse ainda perfeito, acreditava que o equilíbrio maior viria com o tempo. Abriu uma gaveta e apanhou o facão. Se o marido tivesse bebido do vinho que deixara sobre a mesa certamente a dor lhe seria menor. Ligou o interruptor iluminando o quarto. Precisava de mais luz para concluir a operação: o mal pela raiz.

Sentou-se à beira da cama e correu a mão apalpando as pernas do homem até a planta dos pés. Ele dormia inocente como um passarinho e não sofreria muito. Não mais que ela. Ergueu o lençol e a faca. Surpreendeu-se então com o fato de não haver dedos, nenhum. Desperto pela luz e o toque, ele se ergueu olhando-a, riu para ela. Ela retribuiu o sorriso.

Pela manhã desceu. Enquanto esteve no elevador com a sacola de feira na mão, ouviu a senhora do 284 reclamar que andara sumindo coisas de seu apartamento. A ascensorista não lhe deu ouvidos. A porta se abriu sem ruído. Suavemente com seu sapatinho fechado, ela saiu com um muito obrigada.

Na cidade, os prédios se estabeleciam como troncos antiquíssimos, sequóias seculares fincadas no solo, de profundas raízes, de troncos querendo chegar ao céu, como as antigas catedrais. Torres de Babel cada vez mais altas. Era difícil duvidar que não pudessem, de uma hora para outra, atingir o céu como uma flecha.

Ela apertou a sacola contra o peito e seguiu; o olhar pendendo das orbitas, pousando nos muitos pés mutilados, talvez por isso imprecisos sobre a vida. Ela mesma, que era uma mulher exata, muito pouco sujeita a filosofia, achou que algo lentamente se perdia, que algo estranhamente se rompera.

Procurou novamente mirar os próprios pés e viu que haviam desaparecido.

Ergueu a cabeça e seguiu em frente, menos altiva, é certo consciente de que o mundo é inteiro feito de mudanças, e de que agora, mais do que nunca, era preciso adaptar-se a elas.






[13/06/95 - Quinta feira 2:30 – noite]. [Revisto em Janeiro e 10/04/98]

Nenhum comentário: