segunda-feira, março 30, 2015

domingo, março 29, 2015

Testando o racismo




"Nos meus estudos, como psicóloga social, um dia resolvi fazer um teste. Pedi para um colega branco usar um terno chique e fotografei, depois pedi para um colega negro usar o mesmo terno e fotografei. Fiz o mesmo com um vestido preto decotado e com comprimento acima do joelho, desta vez pedi para uma colega branca e uma negra vestirem e também fotografei. Depois, em sala de aula pedi para os alunos descreverem que tipo de profissão tinha os sujeitos das fotos e o resultado foi mais ou menos assim ( vou colocar os mais citados)

Homem branco de terno : executivo, gerente de banco, empresário, advogado.

Homem negro de terno: motorista, segurança, zelador.

Mulher branca de vestido decotado: modelo, empresaria, advogada.

Mulher negra de vestido: prostituta, diarista e manicure.

Sim, os privilégios da branquitude estão em tudo. Até no direito a ter barba por fazer e cabelo desarrumado. No branco é "estilo" no negro perigo de vida (se passar perto da policia). Escrevo isto para compartilhar os esteriotipos racistas que nossa sociedade vem construindo e alertar para o racismo diário que cada um de nós introjetamos por estarmos inseridos em uma sociedade racista. Por isto pare e pense: onde você guarda seu racismo ? Assim que achá-lo faça um esforço diário para desconstruí-lo ! Machismo e racismo são aspectos da nossa cultura, e que cada um de nós deve fazer o esforço de se auto-observar diariamente para não repeti-los ou legitimar-los." porLia Vainer Schucman

© Foto de Bernard Pierre Wolff/ Maison Européenne de la Photographie. “Couple”, 1975.

sexta-feira, março 27, 2015

Na despedida do Luks e da Lily



Na véspera de partir para Áustria, Lucas e Lily estiveram aqui em casa. Saímos de Mauá, na companhia raríssima da Nicole, que só tinha andado de trem uma única vez. Fizemos pouso aqui no apartamento, depois fomos comprar havaianas e bombons para Lily levar. A Cinha chegou, e fomos de carros, Lucas pilotando o GPS do celular, até o restaurante chinês, onde o Dom nos esperava. Foi uma noite linda, rimos, nos divertimos, comemos a valer. Então eles partiram, e não é que eu, que nunca sinto saudades, já estou?

No Rio, Bar das Quengas


Quando desisti de ficar barbado. Foto feita no Rio, pelo Luquinhas.

Uma foto que ficou a minha cara


Tirada pelo Luquinhas, no Chinês.

Da janela do apartamento


Da janela do apartamento, sem cortinas, vejo se embaralhar cômodos da minha casa com a casa do vizinho, criando esse lugar nenhum de ninguém. E lá na esquina, o mosteiro de São Bento pousa circunspecto e austero, quase esmagado pelo prédio sem significado que lhe faz sombra. 

O que ando ouvindo


Alice Caymmi, Rainha dos raios. Entrou por tabela, por causa da minissérie onde constava na trilha. Uma apresentação do Lucas Guedes. E por conta que está rolando até a alma aquele Songbook do Caymmi, que também me fez ver todas as entrevistas de Nana no youtube. Gostando da moça, mas ainda não entendendo o caminho. 

Do Espaço dos Parlapatões, trouxe essa foto.


Q, de questão?





Que tempo é esse que  nos atravessa?




.

Largo do Paissandu, sexta.



Bolo de chocolate no micro-ondas. Salmão no Paissandu. Dia ensolarado. Limpeza da casa. Cortinas lavadas. Mensagens de Airton. Whatts de Jorginho. Recados de Solange, no Instagram. Conversas no Face/Messanger com Lucas. Fotos. Televisão queimada. Unhas roidas. Intoxicação com cloro. Leitura de Alice Munro. Postagem sobre greve dos professores. Pesquisa para projeto com Ana Maria. Mensagem no face de Jocelene. Um recado que vem da Bahia. Ligação para Maristela adiando defesa de TCC. Email recebido de Irene. Cortinas lavadas. Busca de conserto da Canon. Preparação para aula. 

Da série: #Brasil-$em-indigNação



Da série: fotos para um retrato de família


Vittorino



Toda quarta, encontro marcado com esse cara.






Sisudo na foto


quinta-feira, março 26, 2015

JARDINS DOS IMPEACHMENTS QUE SE BIFURCAM

por Gregório Duvivier


1. Convocam-se novas eleições. Lula se candidata. Ganha. O governo segue corrupto e conservador, mas agora ganhou uma injeção de carisma. Metáforas futebolísticas entretêm povo e imprensa. Em 2018 Lula é reeleito e em 2022 Lula elege Dilma.
Ou 2. Convocam-se novas eleições. Lula não se candidata. Aécio ganha. O governo não dura uma semana: Anastasia, chefe da Casa Civil, está envolvido na Operação Lava Jato, assim como toda a base governista. Convocam-se novas eleições. Lula se candidata. Ganha. Ver futuro 1.
Ou 3. Dilma renuncia. Michel Temer assume. O PMDB agora governa o Brasil sem intermediários. Temer protagoniza a CPI do botox: descobre-se que o preenchimento facial diário do presidente era pago com a verba da saúde. O governo, apesar de mais corrupto do que o anterior, tem a aprovação popular. O povo depôs Dilma. Está feliz. Ao fim do mandato, Temer é eleito para a Academia Brasileira de Letras. E Lula se candidata à presidência. Ver futuro 1.
Ou 4. Dilma renuncia, Michel Temer também. O presidente do Câmara, Eduardo Cunha, é quem assume a presidência e dá um golpe evangélico: muda o nome do país para Estado Cristão Independente, nos EUA é conhecido como CrIsis. A corrupção atinge níveis estratosféricos, mas o povo não tem conhecimento porque os escândalos não passam na Record.
Ou 5: Eduardo Cunha, que tem seu nome citado em 11 de cada dez escândalos de corrupção dos últimos 20 anos, não pode tomar posse. Renan Calheiros assume. Em quatro horas de governo, Renan protagoniza nove escândalos de corrupção e é deposto com a melhor média da história: 2,25 escândalos por hora. Entra para a história como Renan, o breve.
Ou 6. O exército responde aos chamados e dá um golpe de Estado. Na hora em que Bolsonaro vai tomar posse, descobre-se que ele não sabe assinar o nome. Coronel Telhada assume em seu lugar. A Rede Globo afirma que o Brasil finalmente retomou o milagre do crescimento. A seleção canarinho ganha a Copa de 2018. Técnico: Dunga. O povo vai às ruas festejar.
Ou 7. Graças à pressão popular, todos os políticos envolvidos na Lava Jato vão parar na cadeia, assim como os corruptos do setor privado. A pressão faz o Congresso (o que sobrou dele) aprovar uma reforma que proíbe o financiamento privado de campanha. Todos os políticos agora dispõem da mesma verba e do mesmo tempo de televisão, logo os deputados mais esclarecidos vencem as eleições. O voto agora é facultativo, a maconha é legalizada, o aborto é oferecido pelo SUS e as igrejas finalmente passam a pagar impostos. O Brasil parece até primeiro mundo.
(Esse último futuro é um exercício de ficção.)
Gregório Duvivier é ator e escritor, um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.
[Publicado originalmente na Folha de SP de 23/03/2015]

terça-feira, março 24, 2015

Light Image Resizer - compactador de imagens


Light Image Resizer, o programa que estou usando agora para compactar imagens jpg e poder encaminha-las com velocidade via email ou pelo wetransfer. Compacta com velocidade, reduz a proporção e reduz bastante o tamanho do arquivo mantendo boa qualidade. 

Wetransfer - para enviar ou transferir arquivos compactados


Wetransfer, rápido, prático, não precisa cadastrar, e dá para enviar ou transferir arquivos gigantes. Apresentado para mim pelo Gabriel. 

segunda-feira, março 23, 2015

Gabriel


Da série: foto para um retrato de família.


Eu e o cara


Nina Simone: por que um velho amor não acaba nunca.

The rewrite


Um roteirista de um só sucesso vai a uma cidade pequena ensinar uma turma da universidade. E é isso. Sessão da tarde. Não significa nada, mas curti.

Lucas e Lily, agora de passagem por São Paulo









Então Lucas veio com Lily para São Paulo, para que ela conhecesse a família buscapé. Houve  o batizado da Carolina (ele e Nicole como padrinhos), encontro com amigos, passeios na casa dos irmãos, do pai, da avó, da tia Edna, à antiga escola, e até na casa do tio Du, com direito à descer até a Liberdade para jantas com Cinha e Dom no Hong He. E breve, muito mais rápido do que o desejado, partiram de volta para Áustria deixando todos já com aquela boa saudade. 


E foi hors-concours, todos amaram a Lily.

sexta-feira, março 20, 2015

De olho


Respondendo atravessado no FACEBOOK sobre NacionaZismo



Verde e amarelo são cores. Nacionalismo é coisa de otário. Nacionalismo gera xenofobia, rancores insensatos, como se morar na rua de cima te diferenciasse como ser de quem mora na rua de baixo. Outra coisa de otário. Fronteiras, divisões, rancores, norte sul, Nordeste (preto-índio) X sudeste (elite-branca/imigrante europeia). Zona Leste x Jardins. Em maior escala, nacionalismos acéfalos criaram ditadores. Massa de manobra otária a seguir Hitler, Mussolini, a Múmia de Lenin, Getúlios etc. Vermelho é uma cor linda, adoro. Cor de sangue, de alimento, de energia. Nem cor, nem patriotada pau-de-selfie, cantando hino nacional com olhos embargados (Saudoso do Castelo Branco? Como pode!). Cair nesse joguinho tolo de "defender o pau-brasil" é um atestado datado (ai ufanismo cristão casa-grande senzala). Mais Machado de Assis e menos José de Alencar, por favor!!!

O Brasil: palavra símbolo para um território amplo repleto de potencial. Mas o que há são as pessoas ocupando esses trópicos explorados, e nelas está o maior capital. E dentre essas, a maioria é composta de gente boa, honesta, trabalhadora (olha o clichê) mas com pouco acesso à saúde, à educação e à segurança. Belo tripé. Além disso, desigualdade histérica, pouca/nenhuma mobilidade. Pior: estão submetidas a condições precárias, não só porque há corrupção (essa bandeira fácil de se bradar, num discursinho vazio que não leva a nada, já que ninguém brada "reforma política!" e faz movimento para acabar com lobby e financiamento de campanhas); mas assim estão por que há uma elite sempiterna no poder (barões paulistas, banqueiros, empresários inescrupulosos, multinacionais, famílias midiáticas, 400tões, etc) que seguem mantendo privilégios, manobrando mídias, fazendo o terrorismo da crise e ameaçando a já tão depauperada experiência democrática que temos. Enchem a boca para falar de meritocracia, eles que sempre tiveram a vida "estofada" de privilégios. O que espanta é gente que sabe que o Brasil SEMPRE esteve em crise (não me lembro deste país fora de CRISE econômica, institucional ou qualquer coisa que fosse, um dia sequer ao longo dos meus 40 e tantos anos!), ficar histérica e bater a cabeça sebesta, no chão, por conta do período atual. Para quem viveu remarcação diária de preços, lista de congelamento no mercado, a privataria dos anos FHC, seu discurso econômico e sua política voltada tão somente para os bancos (ano em que todos os professores, literalmente, se foderam no Estado), as indefinições eternas do governo Lula, a quebra dos EUA arrastando todo mundo, vai realmente chamar a tal "crise da Petrobrás", de FIM DO MUNDO. Só um idiota absoluto que esqueceu dos consórcios para comprar VHS, da péssima merenda, de ter que dar a alma para comprar livros e material escolar antes nunca fornecido aos alunos pobres (na minha casa 6 adotivos!!!! estando só um só empregado), de ter estudado a vida toda em escola pública e ter que ralar o dia inteiro no trampo para PAGAR a faculdade (não baby, nao havia PROUNI), vai cair neste TERRORISMO de fim do mundo que a Globo noticia com pirotecnia e melodrama (no estilo morte de Airton Sena e Mamonas Assassinas). Pior é não ter discernimento, capacidade de fazer uma leitura da História, mais "realidade diária", mais vivência/experiência pessoal para mensurar alienação/manipulação via pensamento crítico, e sair numa sanha intestina, numa histeria coletiva (como um rato de laboratório adestrado por Skinner), num nacionalismo de botique da FIFA, gritando que é o fim do mundo, que o Brasil vai acabar e virar VERMELHO COMUNISTA (é tão ridículo isso) e que o PT e a Dilma são representante de Satã/Fidel Castro na terra. Imagino o Brecht revirando no túmulo.

 Não, não caio no joguinho fácil televisivo, nas palavras vazias de ordem, por que meu MUNDO é o MUNDO REAL. Estou vivendo o dia a dia dessas mudanças, vejo a ascensão da minha família, dos meus alunos de cursinho nesses dez últimos anos, tenho olhos para essa geração bem nutrida, com seus tablets, seu funk ostentação, seu sertanejo de mau gosto, sua alienação. Muitos acham que toda mudança se fez por mérito próprio ou à base da bíblia, como se programas de inclusão não fossem resultados de POLÍTICAS. É que nunca cai na ilusão do acesso ao cartão de crédito como entrada na classe média, como cidadania. Aliás, não tenho uma cegueira ideológica que me impeça de ver/ler a realidade e as mudanças positivas (muito mais que negativas para as classes pobres) do "Brasil varonil" nas últimas décadas. De como era triste e eterno o drama dos pobres-miseráveis secando de fome e sede no nordeste sendo narrados pela Fátima na Globo com olhos embargados por toda essa "gente boa nacionalista, branca, conservadora (ou pior, pobre e alienada), para quem Bolsa Família é assistencialismo gratuito. Talvez seja, mas muito provavelmente para quem não passa fome, e acha que o nordeste só existe para servir de tema para se escrever o VIDAS SECAS. Mas fico por aqui, porque amanhã vou para o meu cursinho cumprir uma função mais digna do que mimimi PATRIOTADA UFANISTA : fazer a minha militância prática, que é ajudar a levar a perifa-preta-mulher-gay-nordestina-pobre chegar às USPs, às Federais, às Fatecs e às particulares do PROUNI e FIES. Se a educação salva, e este é realmente caminho, creio que uns precisam voltar, urgentemente, a estudar.

Introdução à ira


Overture la vie en close


em latim
“porta”se diz “janua”
e “janela” se diz “fenestra”

a palavra “fenestra”
não veio para o português
mas veio o diminutivo de “janua”,
“januela”, “portinha”,
que deu nossa “janela”
“fenestra” veio
mas não como esse ponto da casa
que olha o mundo lá fora,
de “fenestra”, veio “fresta”,
o que é coisa bem diversa

já em inglês
“janela” se diz “window”
porque por ela entra
o vento (“wind”) frio do norte
a menos que a fechemos
como quem abre
o grande dicionário etimológico
dos espaços interiores.


Paulo Leminski

Da série: fotos para um retrato de família.


Sérgio, Leilaine e Vittorino, no Jardim Zaíra. 2014.

CALENAS

para mãe Edna

Acordou e estava sem os dedos dos pés. Não gritou. Tinha trinta anos e não era mais uma menina. Foi prática: teria dificuldades para manter-se em pé?

Em pé, com as mãos apoiadas na parede, deu pela falta do marido que cochilara, tinha certeza, noite passada ao seu lado. Teria sido ele? Mas os lençóis estavam limpos, nenhum respingo de sangue na seda luminosa. Palpando as paredes, alcançou a cozinha onde os ladrilhos encerados representavam maior obstáculo. Os chinelos não se encaixavam na planta nua dos pés e o calcanhar, mais vulnerável que o de Aquiles, bambeava sem precisão.

De posse de uma cadeira com rodinhas, deslizou até o telefone. Chegou a tirá-lo do gancho e digitar os três primeiros algarismos. O marido certamente estaria em reunião (sempre que ligava o marido estava em reunião) e não poderia atendê-la. Se atendesse, resmungaria:

  Me ligou só por causa dos dedos dos pés?! Não vê que alguém tem que sustentar a casa e não pode ser interrompido por uma besteira dessas?!

Colocou o telefone de volta no gancho e novamente o tirou. No estado em que se encontrava, não poderia atendê-lo ao terceiro toque; o que achava inadmissível. Era fiel aos seus hábitos. Oh, rútilo grito, a ruidosa mente a soar!

Indecisa sobre o que fazer, engatinhou do tapete falsamente persa até a poltrona; esticou a mão e, de controle absoluto dos sentidos, atenta à previsão do tempo com pequenas pancadas de chuva, ligou a tevê. A modelo anunciou um produto novo para unhas e o horóscopo mandou que se desligasse das coisas materiais. De que matéria seriam constituídos seus dedos para desaparecerem assim?

Cogitou logo a primeira e absurda hipótese: a do rapto. Fosse, cometera um enorme erro com o fone fora do gancho. A chance de seqüestro breve afastou-se, posto que era de classe média e tais coisas só aconteciam aos mais favorecidos. Contudo pôde ver-se nas possíveis entrevistas. A foto fornecida para identificação dos dedos exposta ao país. Receberia milhões de cartas de pessoas que nunca vira, solidárias com a sua perda. Haveria também profusões de falsas pistas, mas com o resgate, viria a ser popular; quiçá estrelasse um comercial de esmaltes cintilantes.

No entanto, ser uma mulher sem dedos não estava dentro da sua rotina. O imprevisível sempre lhe causara um desconforto insuportável. Não tivera filhos para não se deparar a cada dia com o novo. Como se haver se não há crianças? E agora era uma mulher sem dedos. Como denominar-se? Nem maneta, nem perneta: dedeta? De repente, sentiu como se os dedos ausentes se pusessem a doer. Mas e o marido?! Como dizer ao marido que algo faltava àquela união? Ao saber, ele manifestaria sua decepção com seu cinismo habitual, depois, tomaria o banho e dormiria sem dificuldade antes de terminar o noticiário. Ela abriria uma lata de leite condensado e se flagelaria com uma colher de sobremesa. O pior viria com o decorrer das semanas: logo o marido procuraria fora o que não encontrava no próprio lar. No começo seriam mulheres comuns, sem pedigrees. Evoluiria com o tempo para companhias que tivessem enormes pés. Melhor: dedos enormes! Passaria a ser um homem fascinado por dedos. Presentearia suas amantes com bases para fortalecer as unhas e contrataria um designer para confeccionar jóias exclusivas para os pés; um escultor, para imortalizá-los em mármore. E ela cada dia cobraria a atenção para dele ouvir, sibilar como chicote, que tinha se casado com uma mulher completa: dez dedos nos pés, dez nas mãos.

Saiu pela casa vasculhado gavetas, lançando a largo peças de roupa de toda espécie, talheres espalhados no piso, revistas escalavradas nos cantos, espaguete esparramado no chão para, no final saber, inútil a busca, foram-se para nunca mais. E recobrando o domínio, tornou habilidosa a recolocar tudo no devido lugar, a recompor o sacrossanto lar milímetro a milímetro, lançando a água de lavadeira a todo canto, passando eucalipto, lustrando a prata até que o lar fosse novamente mais doce que o próprio doce, que fosse perfeito sobre a imutável sensação da ausência.

O marido a despertou às dez com um beijo quente, pediu desculpas por não ter se despedido a tempo. A viagem de negócio fora combinada às pressas e era imprescindível para sua promoção. Ela compreendeu e esbugalhando os olhos disse que estava cansada.

Enquanto ele se preparava para entrar no chuveiro, ela ergueu o lençol e mirou os pés. Lá estavam eles, os dois: nenhum dedo.

Mais tarde, na cama, beijavam-se. Ele quis puxar a coberta, mas ela pediu que dessa vez fizessem amor com a luz apagada. Quando terminaram, ela acendeu o abajur; ele voltou-se pro lado e adormeceu. Então ela se pôs de pé havia treinado todo o dia, de modo a quase ter controle dos passos. Embora o domínio não fosse ainda perfeito, acreditava que o equilíbrio maior viria com o tempo. Abriu uma gaveta e apanhou o facão. Se o marido tivesse bebido do vinho que deixara sobre a mesa certamente a dor lhe seria menor. Ligou o interruptor iluminando o quarto. Precisava de mais luz para concluir a operação: o mal pela raiz.

Sentou-se à beira da cama e correu a mão apalpando as pernas do homem até a planta dos pés. Ele dormia inocente como um passarinho e não sofreria muito. Não mais que ela. Ergueu o lençol e a faca. Surpreendeu-se então com o fato de não haver dedos, nenhum. Desperto pela luz e o toque, ele se ergueu olhando-a, riu para ela. Ela retribuiu o sorriso.

Pela manhã desceu. Enquanto esteve no elevador com a sacola de feira na mão, ouviu a senhora do 284 reclamar que andara sumindo coisas de seu apartamento. A ascensorista não lhe deu ouvidos. A porta se abriu sem ruído. Suavemente com seu sapatinho fechado, ela saiu com um muito obrigada.

Na cidade, os prédios se estabeleciam como troncos antiquíssimos, sequóias seculares fincadas no solo, de profundas raízes, de troncos querendo chegar ao céu, como as antigas catedrais. Torres de Babel cada vez mais altas. Era difícil duvidar que não pudessem, de uma hora para outra, atingir o céu como uma flecha.

Ela apertou a sacola contra o peito e seguiu; o olhar pendendo das orbitas, pousando nos muitos pés mutilados, talvez por isso imprecisos sobre a vida. Ela mesma, que era uma mulher exata, muito pouco sujeita a filosofia, achou que algo lentamente se perdia, que algo estranhamente se rompera.

Procurou novamente mirar os próprios pés e viu que haviam desaparecido.

Ergueu a cabeça e seguiu em frente, menos altiva, é certo consciente de que o mundo é inteiro feito de mudanças, e de que agora, mais do que nunca, era preciso adaptar-se a elas.






[13/06/95 - Quinta feira 2:30 – noite]. [Revisto em Janeiro e 10/04/98]

terça-feira, março 17, 2015

A rua da infância no Googlemaps, Streetview


Dos paradoxos: Um conto pós-moderno


- Toda verdade é relativa.
- Tem certeza?
- Absoluta.



[Tirado do Facebook da Laura]

Lily e Lucas no Rio.


Então estive circulando no Rio de Janeiro, com Lily e Lucas. Dias felizes de março.





Fernanda e Natália, na novela da TV Reaça


Você está cercado de ignorantes, saia desse livro com as mãos para cima.


Charge do Laerte, sintetizando o real.

A elite branca vai as ruas com sorrisos de indignação


Polícia brancos e negros


Há um acordo implícito entre a polícia e classe-média e elites: estas aceitam a violência, desde que circunscrita à periferia, aos negros e aos pobres. Não há "balas perdidas" em bairros nobres. Por isso esse amor de celerados entre eles.

Sobre Brasil e Manifestações de Fora Dilma!, por Pablo Villaça

Há uma dissonância de uma boa parte daqueles que foram às ruas nesse domingo e que podemos identificar nestes espaços pelos avatares que exibem apenas "Fora Dilma! E leve o PT junto!" e mensagens afins. Trata-se de uma direita raivosa, irracional, que responde a qualquer tentativa de argumentação com gritos e ofensas.
Em um de meus últimos posts aqui, por exemplo, apontei o óbvio: que as manifestações trouxeram indivíduos predominantemente brancos (e é sintomático que aqueles que tentaram provar o contrário usaram invariavelmente as mesmas duas ou três fotos). Assim, era razoável supor que as classes economicamente mais favorecidas dominaram o protesto - outra hipótese amplamente confirmada até mesmo por veículos da mídia que claramente torcem contra o governo.
A resposta imediata de muitos foi a mesma que praticamente todos os meus posts políticos geram (e até mesmo aqueles sobre Cinema, já que estes reacionários hidrofóbicos não perdem a oportunidade de xingar mesmo quando o tema discutido é outro): "Lixo humano!", "Seu merda!", "Canalha!", "Imbecil!", "MORRA, VERME!" e outras tantas variações sobre o mesmo tema.
Aqui e ali apareciam alguns tentando argumentar, mas eram poucos.
E aí vem a questão: esta proporção é a mesma encontrada nos perfis dos manifestantes? Honestamente, não sei dizer - mas espero que não. Ir para as ruas protestar contra a corrupção, por melhores condições de vida e mesmo contra o governo é algo que faz parte da democracia e, assim, seria desalentador constatar que a maioria queria apenas gritar "Impeachment!", "Fora Dilma!" e por aí afora.
O que me traz de volta à dissonância que mencionei no início: vira e mexe, alguém me acusa de pregar que somente a esquerda é virtuosa e que a direita só pensa em si mesma. O curioso é que estas mesmas pessoas não hesitam em entrar aqui para me acusar de "bandido", "cúmplice de ladrões", "safado" ou de "mamar nas tetas do governo", sendo aparentemente incapazes de acreditar que - vejam só que espanto! - também sou contra a corrupção. (E não, NUNCA recebi um centavo de qualquer partido, direta ou indiretamente, para defender o que quer que seja.)
Surge, então, o espanto: "COMO você pode defender este governo se não apóia a corrupção? Você é cego para os defeitos do governo???".
E a irônica verdade é que tenho MUITAS críticas a ele. Talvez mais do que os que foram à Paulista neste domingo, pois minhas críticas têm a ver com o fato de que Dilma deu várias indicações de que seu segundo mandato seria mais à esquerda do que o primeiro e, na realidade, migrou para a direita (e é por isso que não entendo por que os eleitores de Aécio estão achando ruim; ela chegou a nomear um ministro da Fazenda que estaria perfeitamente confortável numa gestão Aécio, além de adotar doutrinas econômicas que obviamente fariam parte da administração tucana). Assim, tenho razões de sobra para protestar contra Dilma.
NO ENTANTO (e isso é fundamental), não tenho motivo algum para pedir seu impeachment. Ela não foi acusada de crime algum - e muito menos com qualquer evidência. Não se tira um presidente simplesmente porque não gostamos de sua gestão. Dilma foi eleita com mais de 54 milhões de votos e, portanto, é muita presunção acreditar que o um milhão de pessoas que foram às ruas têm o poder de derrubá-la no grito (particularmente se considerarmos que a maioria daqueles que protestaram provavelmente votou em Aécio). Além disso, resumir a corrupção à Dilma ou ao PT é algo absolutamente irracional, já que convenientemente ignora a privataria tucana, a lista de Furnas, o trensalão de São Paulo, o aeroporto de Cláudio e - o mais óbvio - o fato de que os partidos que dominam a lista da Lava-Jato são o PP e o PMDB (e é inacreditável ler cartazes pedindo a EDUARDO CUNHA, listado por Janot, que "salve o Brasil" ao "tirar Dilma" do poder, já que ele e Calheiros, que entrariam diretamente na lista de sucessão, estão sendo investigados).
(Aqui faço parênteses obrigatórios para esclarecer o óbvio, mas que sempre é martelado nos comentários: eu não estou "justificando" atos de corrupção envolvendo o PT ao listar outros cometidos pelo PSDB, PMDB, PP, etc. Estou simplesmente apontando a hipocrisia daqueles que limitam a revolta a um partido como se todos os demais fossem puros e angelicais que apenas não conseguem salvar o Brasil por serem impedidos pelo maligno PT.)
Aliás, como falei no twitter, esse movimento golpista que vem surgindo é algo extremamente prejudicial à democracia como um todo - até mesmo por impedir que pessoas como eu, insatisfeitas com os rumos do governo, possam se manifestar criticamente, já que estamos na desconfortável (mas constitucionalmente correta) posição de sermos obrigados a defendê-lo contra golpismo.
Não que eu não tenha outros motivos para defender o governo Dilma, pois tenho - mesmo com todas as críticas que tenho a fazer, como a doutrina econômica adotada, um ministério que traz Kátia Abreu e Kassab, as concessões à bancada evangélica, o afastamento dos movimentos sociais e por aí afora.
Eu defendo este governo também por causa dos projetos sociais que desenvolveu e vem desenvolvendo.
Defendo este governo por ainda ter um viés de esquerda.
Defendo este governo pelo fato de o salário mínimo ter o maior poder de compra dos últimos 50 anos (fonte: http://exame.abril.com.br/…/salario-minimo-tem-maior-poder-…).
Defendo este governo por ter tirado 42 milhões de pessoas da miséria.
Defendo este governo por ter tirado o Brasil do mapa da fome da ONU (fonte:http://www.mds.gov.br/…/brasil-sai-do-mapa-da-fome-das-naco…).
Defendo este governo porque a inflação anual no governo Dilma ainda é MUITO menor, na média, do que a inflação nos períodos FHC e mesmo Lula (6,14 x 9,71 e 6,43).
Defendo este governo porque, apesar da imprensa pintar a Petrobrás como um desastre, ela acabou de se tornar a maior empresa petrolífera de capital aberto DO MUNDO (fonte:http://br.reuters.com/article/topNews/idBRKBN0KH23L20150108).
Defendo este governo porque, apesar de a imprensa pintar a Petrobrás como um desastre, ela acaba de bater recordes de produção (fonte:http://br.reuters.com/ar…/businessNews/idBRKBN0L72FH20150203).
Defendo este governo porque, apesar de a imprensa pintar a Petrobrás como um desastre, a produção de petróleo cresceu 20,3% em janeiro em comparação ao ano anterior (fonte: http://oglobo.globo.com/…/producao-de-petroleo-no-brasil-cr…).
Defendo este governo porque pela primeira vez a corrupção está sendo investigada em vez de varrida para debaixo do tapete - tanto que o país MELHOROU de posição no ranking internacional da corrupção (fonte:http://www.bbc.co.uk/…/141202_ranking_transparencia_interna…).
Defendo este governo porque o acesso de estudantes pobres à universidade pública cresceu 400% entre 2004 e 2013 (fonte IBGE: http://www.brasil.gov.br/…/acesso-de-estudantes-pobres-a-un…).
E defendo este governo, enfim, porque foi eleito democraticamente com 54 milhões de votos e não cresci numa família que carrega no corpo as marcas da tortura na ditadura apenas para ver, em 2015, um movimento direitista tentando derrubá-lo por interesses econômicos.
Porque há, sim, interesses econômicos por trás das manifestações. Não é à toa que a Globo passou semanas divulgando o protesto de ontem e decidiu tratá-lo como uma espécie de Carnaval, prometendo cobertura contínua nos dias que o antecederam e ignorando os cartazes mais racionais (como aqueles que pediam reforma política) e valorizando apenas o viés golpista dos que gritavam "Fora Dilma".
A mesma mídia cujos barões estão listados com contas no HSBC suíço, mas que, claro, esconde a questão do público.
Protestar contra os rumos da economia, contra a inflação, contra a corrupção e mesmo contra o governo é algo natural e democrático. O problema começa quando os que gritam se tornam irracionais e passam a acreditar que os volumes de seus berros lhes conferem o direito de determinar quem pode ou não governar o país.
E não creio que eu seja um "bandido", "safado", "lixo humano" ou "canalha" por apontar isso

O velho Brasil

PT está morto. Eh um cadáver insepulto. As hienas se apossaram dos restos e roem os ossos. Os lobos não só estão de olho, mas num conchavo ferino para retomar de vez o poder. Mostram os dentes e rosnam atiçando a matilha domesticada pela tevê. Cada vez mais mais convencida, a galinhada toda crê q o galinheiro ficará sobre melhor administração nas garras das raposas de sempre. Pedem puleiro, pau de arara e cerca. A bancada BBB - boi, biblia, bala - sorri. Estou me preparando pra viver num mundo animal.