terça-feira, fevereiro 03, 2015

The babadook, de Jennifer Kent.


Demorei bastante a me convencer a assistir. Talvez por causa do desenho do cartaz. Mas estão uma ponta de crítica positiva e me animei. Desde o primeiro enquadramento, não há dúvida que estamos muito longe de um terror banal. Mas frame a frame descobrimos tratar-se realmente de uma obra prima. A diretora Jennifer Kent tem uma direção autoral, abusa de enquadramentos entranhos, movimentos imprevistos, sons inusitados e TODOS, absolutamente precisos na condução desta história de horror real/psicológico/simbólico/mítico/surrealista. The Babadook é uma espécie de conto de horror infantil levado às ultimas consequências, no qual todos os papéis se invertem: o inocente é ameaçador e perverso, a mãe protetora é a vítima perfeita, mas é igualmente demoníaca. Lembra demais Repulsa ao sexo, do Roman Polanski, fundido com Mama. Porém a direção estranha e fluida, evita o obvio sem abdicar ao suspense e a surpresa impactante. Mas faz tudo numa chave proxima do cinema mais experimental, usando recursos fílmicos. Além disso, conta com as inacreditáveis interpretações tanto do garoto quanto da mãe. Os efeitos estão lá, são bons, estranhos e e inspirados nos filmes dos anos 20/30 - com citações visuais deste primeiro cinema, expressionista em p&b. Tudo o que torna The Babadook um corpo estranho dentro de um gênero que parece já ter explorado todos os recursos.  


Do enredo de The Babadook. Um garoto constrói obsessivamente armas para combater um monstro que só ele vê. Órfão de pai, morto num acidente no dia de seu nascimento, ele é uma criança estranha, perturbadora, histérica e agressiva. Seu comportamento o afasta da escola, o isola sem amigos, e gera ódio/desprezo até da tia. Fingindo ama-lo, a mãe suporta abnegada sua progressão esquizofrênica, a ponto de ela também ir lentamente enlouquecendo. O que não é difícil. Traumatizada pela morte prematura do marido, ela abandonou a carreira de escritória para sobreviver como cuidadora de velhos num asilo. Estressadíssima, dominada pela insônia, sexualmente carente (a cena do vibrador mereceria um prêmio, só pela ousadia), ela vai se tornando a cada dia menos paciente e cruel com o garoto. É quando chega às suas mãos um livro de crianças que trata de uma criatura The babadook, que bate a noite e se manifesta, crescendo e devorando a pessoa conforme seu terror. É ele o inimigo que o menino diz combater sem que a mãe acredite, até que finalmente, seguindo passo a passo do livro, o demônio babadook vai penetrar a casa e devastar a já fragilizada e infeliz mãe do garoto. Apavorante.



Detalhe. The babadook tem um dos finais mais corajosos do cinema atual. 

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