terça-feira, fevereiro 10, 2015

Os caminhos do desejo, de Flavio Di Giorgi

(...) Há um grupo, ao norte do Japão, que vê catorze cores no arco‑íris. Nós vemos sete, mais modestamente. Há um grupo da África que vê quatro só, e aliás não são bem quatro, porque a primeira e a última são o mesmo sipswuka, que é o fulvo; o citena é o grupo dos azuis; cissena, o grupo dos alaranjados; e, finalmente, sipswuka outra vez, no finzinho do arco‑íris. A gente acha pouco, só quatro, mas se a gente desce para a Zâmbia, aí a redução é maior, para o pessoal da Zâmbia o arco‑íris se divide em duas partes, do começo ao meio do arco‑íris é hui, o bloco ciânico, azul; e do meio para o fim é ziza, o bloco xântico. Isto nos assusta muito, por que só duas cores para o arco‑íris? Porque foi assim que eles repartiram o real. Cada cultura reparte o real à sua singular maneira e, se você quer saber qual foi a motivação secundária disto, você pode investigar que na Zâmbia, por exemplo, eles têm todos um conhecimento fantástico de botânica, fundamental para sua sobrevivência. Eles são nômades, então eles vão para muitas regiões novas, a todo instante conhecem todas as plantas. A primeira vista, eles logo dizem: "Essas aqui são nutritivas, estas podem ser medicinais, essas daqui só serão nutritivas depois de tal desenvolvimento”. E assim por diante. Eles têm um grande conhecimento de botânica, e quem estudou botânica ocidental, essa gente que como nós acha que arco‑íris tem sete cores, sabe que as cores decisivas em botânica são duas; as propriedades das plantas são conforme a sua cor: as plantas ciânicas têm tais propriedades, as plantas xânticas têm tais outras. Então essa é a importância do ciânico oposto ao xântico. Isto ficou na cabeça do pessoal da Zâmbia, e levou‑os, motivou‑os a assim distribuir os objetos do arco‑íris.(...)

DI GIORGI, F. Os Caminhos do Desejo. In:
     NOVAES, A. (org.) O Desejo; São Paulo:
     Cia das Letras, 1990.p.125-126

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