quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Fugitiva, de Alice Munro



Finalmente consegui ler esse livro da canadense ganhadora do nobel e que escreve exclusivamente contos. Eles são longos, quase noveletas, mas não há nada de espetacular em termos de linguagem, abordagem ou temática. São sempre mulheres suas protagonistas, normalmente solitárias e que se julgam seres de exceção envolvidas em problemas essencialmente amorosos. Sua prosa tem um ritmo lento, normalmente linear (com entradas para flashbacks), o mais interessante é os vácuos/vãos, imprecisões, e as mudanças bruscas na direção que seria mais óbvia às narrativas. É habilidosa na construção psicológica de suas mulheres, falsamente passivas, mas repletas de desejo e aflição, que alcança sempre o desejado, mas ainda assim, terminam-se por frustrar diante do que fizeram da vida. Há ações bruscas e violentas que inserem mudanças nas personagens. As relações afetivas e familiares são bastante prosaicas, ela foca sempre uma classes baixa/medias que parece aspirar pouco da existência. Se não há ambições claras, o que move é o desejo de romper a estagnação da vida. Neste sentido, mulheres fracas e submissas a homens e normas, de repente descobrem coragem e ganham autonomia por meio de movimentos extremos, sempre provocando mudanças definitivas. Mas as relações com seus pares seguem ambíguas, dificultando determinar (como na vida) os limites entre submissão e domínio. A tradução é preguiçosa, dura, transliteral, então flui menos poética, mais artificial, mas como a força reside nos enredos, não se perde o interesse pelo domínio seguro que Alice Munro tem na condução do leitor. Não me surpreendeu, mas há um belo encantamento na sua forma de tecer esses contos longos, femininos, mas sem histeria melodramática.

Fugitiva é composto de oito narrativas

Fugitiva
Ocasião
Daqui a pouco
Silêncio
Paixão
Ofensas
Peças
Poderes


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