quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Felizes para sempre, série da o2 exibida pela Globo

Resolvi fazer esta postagem em duas etapas, na primeira, sem ter assistido a todos os episódios, a segunda, trata de impressões posteriores. Segue:



Parte 1

Baixei a série da Globo que acabou há algumas semanas. Sentei e assisti de quebra os 7 primeiros episódios (num total de 10). Um excelente texto, fotografia iluminada (aprenderam a filmar Brasília e usando fundamentalmente drones). Entendi agora o furor com Paolla Oliveira, que simplesmente arrasa no papel da sedutora garota de programa Danny Bond, seu melhor papel. Se lhe fosse permitido, nunca mais deveria fazer uma papel de boazinha insossa e apática, depois desta marcante femme fatale. Cenas apimentadas de sexo para tirar a brochidão moralista e religiosa deste país, as traições variadas como tema, o contexto político com a corrupção de empreiteiras (fazendo aquele pano de fundo do Brasil real) e poder político, a caricatura de um manifestante. Mas  no cômputo geral, muito boa frame a frame. Vale demais. 



Parte 2

Terminei de ver ontem. Os dois últimos episódios parecem demasiadamente acelerados. Há lacunas que não foram anunciadas e que são inseridas na trama criando soluços estranhos. Por exemplo, o terceiro filho adotado foi anunciado no meio da trama de forma solta, desleixada. Não se sabe como ele chegou à família. Em determinado momento ele simplesmente reclama de não ter sido amado devidamente e que nunca foi oficialmente adotado, pior, no enterro do pai surge a suspeita de que ele fosse um filho legítimo incorporado à família. Tal premissa não foi desenvolvida nem tangencialmente. O ódio pelo irmão mais velho foi insinuado, mas o personagem não parece ser de fato dotado da competência para elaborar um plano tão complexo para destruir esse irmão, o que causa um belo ruído de verossimilhança. 

Ao incorporar a questão das manifestações recentes no Brasil (e dos Black Blocks) na trama, há uma leitura ideológica de classe alta (do Meireles), descaracterizando a força e o sentido político que ela significa para o cenário político recente do país. Ao colocar um garoto riquinho, gratuitamente rebelde (só por que é jovenzinho), inserindo-se no movimento por ódio ao tio, está querendo fazer uma metáfora do jovem atual. Para piorar, ele namora uma moça que representa a militante "Sininho", e no final a revela oportunista, que sua ideologia é paga por determinados grupos. Ou seja, o discurso oficial dessa classe alta/média da qual a Globo e a própria O2 são porta-vozes. Pensemos na representação da periferia realizada por Meirelles em Cidade de Deus, filme que exclui a elite e investe na selvageria dos pobres favelados do Brasil, no espetáculo estiloso/publicitário da violência. 

Mas o problema maior está no desfecho da trama. Talvez a ideia de "final infeliz" seja o conceito de "trama moderna" de Meirelles, mas o que se viu foi o esvaziamento do que tinha sido construído. O desfecho é bruto, a protagonista Danny Bond vira uma mocinha sentimental que se dá mal no final, alvejada pelo vilão-psicopata - e que por assim ser, jamais agira intempestivamente (ou passionalmente) em toda a trama. Mata sua amante por ciúmes da esposa (sic!!!!!), nem se indaga por que seu irmão estava com ela no carro. Este, aliás, foge com os documentos e "se dá bem", ele que era o personagem com curva dramática mais pobre (para não dizer mal construído e interpretado) da trama. O desfecho moral nem almeja ser uma alegoria do mal caratismo generalizado no Brasil, reduz tudo a uma trama factual de novela sobre desencontros amorosos/sentimentais com algum furor para polêmica (a prostituta, as cenas lésbicas, as traições matrimoniais abundantes), valendo no final, um tanto mais pelo domínio técnico e qualidade de imagem (e interpretação, em alguns casos) com que retrata Brasília, mas no fundo, fascinado pelo poder de filmar vistas aéreas fluidas através de drones. Uma minissérie deveria aspirar a um pouco mais que isso. 

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