terça-feira, fevereiro 03, 2015

Fala final de Hannah Arendt (no filme homônimo) sobre a banalidade do mal



Quando a New Yorker me convidou para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann eu imaginei que o tribunal em si teria apenas um propósito: fazer justiça. Minha tarefa não foi fácil. O tribunal que julgava Eichmann via-se diante de um crime que inexistia nos códigos penais. E o réu era diferente de todos aqueles que antecederam o julgamento de Nuremberg. Mesmo assim, cabia ao tribunal definir Eichmann como homem sendo julgado por seus atos. Não se julgava um sistema.Não se julgava a História, nenhum "ismo".Nem mesmo o "antissemitismo". Somente a pessoa. O problema com um criminoso nazista como Eichmann, é que ele insistia em renunciar a qualquer traço pessoal. Como se não tivesse sobrado ninguém para ser punido ou perdoado. Repetidas vezes ele protestava, rebatendo as acusações da promotoria, dizendo que não tinha feito nada por iniciativa própria. Que jamais fizera algo premeditadamente, para o bem ou para o mal. Apenas cumprira ordens. Esta... desculpa típica dos nazistas torna claro que o maior mal do mundo é o mal perpetrado por ninguém. Males cometidos por homens sem qualquer motivo, sem convicção, sem razão maligna ou intenções demoníacas. Mas seres humanos que se recusam a ser pessoas. E é este fenômeno que eu chamei a "banalidade do mal".

Senhora Arendt, a senhora está evitando a parte mais importante da controvérsia. Disse que menos judeus teriam morrido se seus líderes não tivessem cooperado.

Essa questão surgiu durante o julgamento. Eu a relatei e tive que esclarecer o papel desses líderes judeus que participaram diretamente nas atividades de Eichmann.

A senhora culpa o povo judeu por sua própria destruição.



Jamais acusei o povo judeu ! Resistência era impossível. Mas talvez haja alguma coisa entre a resistência e a cooperação. E é só nesse sentido que eu digo que talvez... alguns dos líderes judeus poderiam ter agido de forma diferente. É extremamente importante fazer-se essas perguntas. Porque o papel dos líderes judeus fornece o maior exemplo mais chocante do ponto a que chegou o colapso moral causado pelos nazistas na respeitada sociedade europeia. E não só na Alemanha, mas em quase todos os países. Não apenas dentre os que perseguiam mas também entre as vítimas. Sim ? A perseguição visava aos judeus. Por que descreve os crimes de Eichmann como crimes contra a humanidade? Porque os judeus são seres humanos. De saída, os nazistas os negavam como tal. Um crime contra eles é, por definição, um crime contra a humanidade. Como todos sabem, eu sou judia. Já fui acusada de não me aceitar como judia, de defender os nazistas e desprezar meu próprio povo. Isso não é um argumento. É um assassinato de caráter! Nada do que escrevi foi em defesa de Eichmann. Tentei foi conciliar a chocante mediocridade desse homem com seus atos abomináveis. Tentar entender não é o mesmo que perdoar. Minha responsabilidade é entender. É a responsabilidade de qualquer um que ouse escrever sobre essa questão. Desde Sócrates e Platão, que geralmente se referiam ao pensar como o diálogo silencioso travado consigo mesmo. Ao recusar-se a ser uma pessoa, Eichmann abdicou totalmente da característica que mais define o homem como tal : a de ser capaz de pensar. Consequentemente, ele se tornou incapaz de fazer juízos morais. Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos homens comuns cometessem atos cruéis numa escala monumental jamais vista. É verdade. Tratei dessas questões de forma filosófica. A manifestação da do ato de pensar não é o conhecimento, mas a habilidade de distinguir o bem do mal. O belo do feio. E eu tenho a esperança de que o pensar dê força às pessoas para evitar a catástrofe nesses raros momentos, na hora da verdade.


Obrigada.


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