quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Andreas Gursky - uma aproximação

A fotografia geometrizada de Andreas Gursky, em sua impessoalidade aparente, busca mostrar em sua obsessão pela simetria, por padrões e séries, a perda do sentido da existência. 



Nelas, as pessoas parecem executar um balé do não-ser, padronizados, viram autômatos de uma vida mecânica, e são engrenagens para configuração de um sistema que categoriza, fossiliza e impossibilita o divergente. A hiper industrialização, a produção fragmentada, seriada, a uniformizar trabalhadores e produtos, termina por instituir uma cosmovisão de mundo na qual o sujeito é mera engrenagem de um sistema totalitário, burocrático, tecnicista, autocrático, sobre o qual tem pouco/ou nenhum poder. 




A engrenagem, a máquina, o mecanismo tecnológico, convertem o automóvel (como signo da velocidade e do avanço) ao papel de totem. 




Por essa razão não há retratos em Andreas Gursky, pois não há mais espaço para individualização num mundo tão pobre de singularidade. As figuras humanas parecem não só executar as diretrizes - na vida - daquilo que antes era linha de produção, mas converteram-se igualmente em mercadoria. É a prova cabal da opulência do consumo, do fetiche da mercadoria, da entronização do produto/capital como sentido último da existência.



Mesmo a natureza é flagrada em seus aspectos geometrizados, numa abstração que exclui o próprio desregramento e potencial de caos da própria natureza. 





Na verdade, a paisagem só interessa como  espaço de intervenção do homem. A domesticação da geografia/do espaço só interessa como reafirmação do domínio do homem sobre o mundo natural, mas sempre enfatizando o caráter utilitário dessa "apropriação do espaço e seus recursos":






Arquitetura é construção, corresponde às necessidades de abrigo/segurança, configura o espaço comunal e de trabalho.


A Arquitetura contemporânea é retratada continuamente em seus trabalhos, pois é sempre reveladora de como o homem se insere concretamente no mundo, bem como modos de viver. O que as fotos de Andreas Gursky mostram é como nos tornamos prisioneiros, como nos isolamos em cubículos, ou mesmo, quando em coletividade, estramos ilhados em espaços-limitados e limitadores.



Interessa a Gursky registrar também esse constructo coletivo, quando nos despersonalizamos e destituídos de nossa humanidade nos tornamos um todo não reflexivo, normalmente à serviço de uma ideologia, de um regime. 





O sujeito abdica à sua humanidade em nome de um bem-estar aparente. Como engrenagens acéfalas e crentes de compôr um todo maior (um sentido de credo/pátria/nação) tomado por verdade




E há em Andreas Gursky aquele momento em que já não somos, em que nos ausentamos do espaço, dando espaço ao produto que traduz, mais que nós mesmos nossas aspirações, desejos, ambições.







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