quarta-feira, fevereiro 18, 2015

16, 17 e 18 na casa da mãe



Fui lá dar uma força no cuidado da mãe, que está com grande dificuldade de andar. A incontinência urinária a mil. E a confusão mental relativa a progressão da doença. Chego, caio no sono, que é uma forma muito minha de defesa. Mas dessa vez, a realidade se impôs, Péricles saiu, Elaine não veio, e me vi cuidado duas noites inteiras da mãe, naquela rotina de hospital de banhos e banheiros. O bebê desceu para alegrar. O bolo gostoso de maçã. As frutas. Como demais e tenho azia. Escape e dor. Unhas roídas. Televisão desprendendo ruídos para ludibriar o crescente silêncio interno. A certeza de que não há escape. O andador. A chuva que vem despencando boa, lá fora. E os pernilongos nos roendo as noites que são sempre quentes. Depois, de novo e de novo, o diálogo longo e desconexo com a mãe. Os plantões, as pastas, as chegadas inexistentes, a certeza (dela) de estar fora de seu lugar. Mas onde, de fato, sua casa? O arrastar do Big pela sala e corredor, replicando a doença da dona, da mãe. O cheiro de urina em tudo. A pilha de lençóis. Visitas do Marquinho da Geralda, dos pais da Lê, do Danilo do Edson. A presença do Vittorino tornando a vida mais nítida, complexa em seu contínuo ir e vir de alegria e tristeza. Tudo entre início e finitude. As preocupações crescentes da irmã vem via telefone, e tento tranquiliza-la. O apego ao facebook do celular onde mensagens políticas distraem do plano mais real, e difícil da vida. Todo rancor perdeu-se, toda mágoa, todo temor. Minha mãe se desfaz lentamente no sofá, onde descobriu refúgio, pesada, sem forças para levantar mesmo com o apoio. Todo o procrastinado das aflições de esquecimento atingindo-a de uma só vez. A crueldade da vida sob o olhar atento de Deus. A força derruída. Esquecida. Abandonada, de certo modo, por todos os filhos postiços que não dão as caras e prometem visitas. Na fala, a voz por enquanto clara, efetua o resgate contínuo da infância: a mãe, as irmãs, os amigos mortos, memórias e mais memórias de uma mente que se desintegra, perde os pontos de conexão. Por isso, percebo que ali se misturam o ontem, minutos anteriores e décadas, criando entre os vãos invenções de fatos, a fim de dar sentido a esse presente irreal. E o olhar vago, de quem não entende onde está e por quê. No meio de tudo, os filhos já exaustos, frustrados, impacientes, quase raivosos. E a certeza da queda gradual dia a dia de qualquer esperança, não restando outra cura, se não esse grande e gasto remédio chamado Amor.


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