quinta-feira, janeiro 22, 2015

Primeiras reflexões sobre o Melodrama

 Segundo o dicionário Houaiss: melodrama vem do provençal "mélodrame": uma 'espécie de drama falado cujas cenas comportam um acompanhamento musical; um drama teatral de tom popular em que se acumulam peripécias imprevistas. Surgido a partir do século XVIII, sua apresentação exigia sempre um acompanhamento musical, pontuando as ações. A literatura logo soube se apropriar do gênero, tendo como um de seus representantes máximos, o escritor inglês Charles Dickens (autor de Oliver Twist, romance que levou gerações às lágrimas, matriz de Harry Potter).

O melodrama está na gênese da tradição da narrativa cinematográfica fundada por D.W.Griffith que, como lido num estudo fascinante do russo Sergei Einsenstein, soube como ninguém transpôr para imagens o modo de narrar de Dickens. Dele, Griffith "emprestou" da fragmentação da ação em planos (metonímia) às ações paralelas, antecipações e "viradas da narrativa", além de todo um esquema narrativo que surgia com a ascenção de uma nova classe: a pequena burguesia. 


Sobre o melodrama, podemos dizer que é antes de mais nada uma narrativa moral. Se é uma estética fundamentalmente burguesa, nascida no teatro e/ou na ópera, ele foi posteriormente polido e simplificado para veicular em capítulos nos periódicos jornalísticos (sob o nome de "folhetim"), breve se popularizando entre os letrados de baixa instrução, incapazes de decodificar/fruir a tragédia e o drama clássico.

Uma das explicações possíveis para o sucesso do gênero, talvez resida no fato de ele não mais recorrer à nobreza e aos deuses e pôr-se aos pés de seus leitores, ávidos por uma leitura de dispersão. O melodrama foi desde sempre isto: uma narrativa de entretenimento acessível cujos heróis não se situavam nem no passado ou a léguas de distância, mas pousada no cotidiano, às vezes, alguns poucos graus acima do cidadão comum. Se por acaso voltasse a evocar reis, palácios exóticos, espaços remotos no tempo, ainda assim permitia reconhecer, como um igual, os anseios sentimentais de seus protagonistas; visto que a empatia é fundamental ao melodrama.

Exigindo identificação por parte dos leitores, o melodrama é a narrativa da família nuclear monogâmica e heterossexual. Vínculos  de parentesco consanguíneo (a garantir a hereditariedade e preservação do patrimônio), subserviência à moral cristã e patriotismo ufanista são seus pilares.

Fechado no tripé sangue/moral/nação, o melodrama presta-se à uma visão redutora de mundo, onde o maniqueísmo (bem e mal) é seu tótem, de modo que no seu universo de cartas marcadas, todas as nuances e complexidades humanas são atenuadas. O melodrama é, portanto, uma simplificação em todas as esferas - humanas, sociais, políticas, - mas seu alvo principal são as relações humanas, cuja realização plena se faz no encontro amoroso e na constituição de um novo núcleo familiar; de preferência fiel ao primeiro, seu contínuo aprimorado.

O melodrama se constrói com base dual; e é na dualidade que busca alcançar, no final, como síntese, a totalidade. O alto/o baixo, o belo/feito, o rico/o pobre, o macho e a fêmea etc etc. A constituição do mundo em polos opostos comprova, que natureza humana é igualmente dual, consequentemente, toda a ordem do mundo em seus aspectos físicos e morais se encontram em oposição. Portanto, não há espaço para a ambiguidade, o gris, o divergente, na lógica do melodrama, pois tudo se assenta no seu devido lugar, passível de assim ser definido.

O melodrama, no afã de categorizar e simplificar a existência em modelos fixos e comportamentos padronizados, termina por explicitar uma ideia de natureza essencial do homem; cuja ideia radicalizada, converte-o em coadjovante de uma "lei natural".  Só há, portanto, duas possibilidades de expressão humana: masculina ou feminina. Homens e mulheres, trazem intrinsecamente (podemos dizer, em seu ser/íntimo), determinados caracteres. Ao homem cabe a condição de ser ativo, dominador, forte, confiante, provedor e condutor; à mulher cabe a condição de ser passiva, submissa, frágil, exitante, mãe amorosa e dependente. Por todos esses caracteres, o melodrama só pode resultar numa visão conservadora de mundo, além, claro, de normatizadora, já que o sujeito/indivíduo deve cumprir/corresponder a papéis pré-determinados não apenas pela sociedade, mas pela "natureza". Essa natureza intrínseca remete ao mito fundador do homem, a Adão e Eva, e, portanto, é resultado de uma determinante divina, de uma força "maior". Deus não apenas normatiza, mas está no controle também do destino do sujeito na forma de um pai celestial que tudo vê e conduz e pode manifestar-se por meio de uma "divina providência".

O melodrama - pensemos na cultura ocidental - funde uma cosmovisão cristã (mística, dependente e tutelada pelo Pai) a valores burgueses (bens materiais, terra, tradição, família, classe e nação). A pureza do mundo Natural, a Igreja e a Pátria são, portanto, pilares constitutivos da lógica melodrama, cuja realização plena (da narrativa) não apenas encena os conflitos que põe em desordem o que ante jazia estável, mas encerra na apaziguar da crise, na retomada da estabilidade inicial.

Pensemos num enredo dickiniano/griffithiano: a moça inocente seduzida, violada, abandonada grávida, rejeitada pela família (em desgraça diante de Deus por sua "queda") enfrentará sucessíveis martírios, expulsa de casa morará na rua, e terá que abdicar, pela força das circunstâncias - um mundo cheio de engodos, pessoas cruéis, gananciosas e indiferentes - ao filho. Este, criado como órfão, perdido e maltratado, purgará também carências diversas e sofrimentos mil. Espelhando a mãe, ou purgando seu "pecado", será arrastado por caminhos perigosos, levado à se corromper, mas a pureza de seu coração, o conduzirá dos braços maus para o dos bons samaritanos, que o destino/acaso revelará ser, por coincidência (Revelação e Coincidência, duas palavras tão necessárias ao melodrama, quanto Intuição; na verdade: manifestações da Divina Providência), de seu próprio sangue. Sua pureza, talento, bondade, redimirá o crime dos pais, e depois de peripécias, encontros, desencontros, viradas, o destino trará de volta aos braços amorosos da mãe e/ou do pai, num emocionado/inusitado reconhecimento (sinal de nascimento/objeto familiar), feito na última hora. O pai  (ou familiares, reconciliadores) arrependido do mal que fez dará a ele (e à mãe), acesso ao tableau familiar antes impossível: um lar seguro, financeiramente estável, afetivo e abençoado pela santa igreja/por Deus/pela sociedade.  Parece um enredo piegas e extremo, "O som do coração", de Kirsten Sheridan, de 2007, traz este mesmo esquema, assim como filmes de Will Smith ou série como The walking dead.

O sentimento, a emoção e as paixões são centrais no desenvolvimento das tramas melodramáticas, sendo o Amor romântico seu valor supremo. Escravo do Amor, a trama melodramática terá por inevitável desfecho a união dos pares e configuração familiar (marido/esposa/filhos), resultando - se em desacordo com os valores da moral/lei, da família e da pátria - em morte; mas sempre trazendo a dissolução do conflito, nem possibilidade de finais em aberto. A dualidade tende à unidade e à síntese: homem e mulher (ligados pelo amor) devem resultar em união. Mas sendo o melodrama um constructo de categoria estanques, de observância a modelos e a padrões, essa união só tem "valor" se socialmente mediada, ou seja, só é legítima via casamento (institucional, legalmente assinado; cerimoniado em igreja com testemunhos). Deve, inevitavelmente, resultar em reprodução, pois a prole/filho, na "lógica" do melodrama, é a síntese do encontro, do amor, de fazer concreto, material, existente o sentimento, resultando assim numa felicidade visível (representada por um bebê).

Como fica claro, o melodrama tende à alegoria, a tornar concreto todos dilemas abstratos e resoluções, por meio de figuras, imagens, objetos. Melodrama trabalha com clichês, esteriótipos: o bom é belo, o disforme é mal, um uniforme, uma farda, andrajos, o externo sintetiza os aspectos fundamentais do sujeito/personagem. Esta confiança na aparência é usada também na trama para construção de enganos e revelações fundamentais em seu desenvolvimento.

O choque entre aparência e o autêntico, a capacidade do mal em simular bondade e ludibriar os personagens puros (àas vezes também, o leitor/espectador) só reforça o horror ao que transgride, ao que falta com a verdade. A autenticidade é o valor máximo do melodrama, a sinceridade, a pureza, a integridade, a crença na existência de uma só "verdade" imutável e perene. O melodrama aspira a permanência, a estabilidade, o eterno. A felicidade (sem dolo ou dano) é ao que se predestina o homem bom, e lhe cabe de direito, para isso conspirando todas as forças terrenas (a moral/a ética/a lei/a justiça) e celestiais (a virtude/a fé/a providência divina) para fazer-se cumprir. O melodrama sustenta-se, portanto, numa estrutura flexível, mas de desfecho fechado; já que nele a existência humana é um embate tenso entre o indivíduo e o mundo, mas que tende a um maniqueísmo totalizador: ou felicidade ou aniquilamento/desilusão plena.


A potência do melodrama está no fato de trazer uma visão apaziguadora do caos do mundo natural e das relações sociais, também por que, no universo do melodrama, o mal sempre receberá punição e o bem será gratificado no final, num tutelamento de forças cósmicas que supre deficiências reais como desigualdade, carência, injustiça e crime. O melodrama termina por reduzir, fundamentalmente, todo conflito a questões meramente íntimas e emocionais (a coletividade não existe no melodrama, ou se ela figura em qualquer obra, acha-se materializada na figura de um "herói", que até pode encarnar anseios e paixões da dita coletividade, mas seu destino é particular, não podendo servir de exemplo/expelho para uma prática socialmente transformadora).

O melodrama, na verdade, doutrina o leitor/espectador, colocando-o numa passividade acrítica, já que a "virada" acontecerá de toda maneira. Portanto, ele não é de fato,  senhor de seu próprio destino. Embora sinta o reflexo de suas "ações negativas" (aquelas contrárias a moralidade intrínseca do melodrama), - e o martele a culpa, - somente a capacidade de suportar desgraças (sua provação), garantirá sua vitória.

É fundamental entender que o melodrama não aspira a uma transformação, mas a um apaziguamento de tensões, já que visa à manutenção de regras instituídas, testadas, conservadoras. Por isso mesmo, é e será sempre um gênero burguês, pois a transgressão da "norma/lei" ameaça valores. O melodrama renega mudanças, aferra-se à tradição, pois o vivido e experimentado não pode ser renegado pelos jovens, pois impulsionar desordem, instabilidade e gerar incerteza comprometeria a manutenção do mundo burguês. O melodrama quer emocionar, foca no sentir, nunca no pensar crítico, transformador. Tanto domesticou o gosto geral do público mundial, que narrativas fora de sua fórmula enfrentam enorme resistência das plateias, acostumadas a esquemas e, muitas vezes, dependentes destes, para o envolvimento com a trama apresentada.

O melodrama não apenas é o gênero que reproduz valores de uma sociedade crente demais no poder ordenador de forças supremas, mas se converteu (pensemos em todo cinema americano e telenovela brasileira), num instrumento de propagação e manutenção de valores ideológicos conservadores. Por representar uma visão esquemática, polarizada e não reflexiva da sociedade e do mundo, o melodrama contribuiu para um empobrecimento do pensamento crítico dentro de nossa sociedade fundamentada no capital e no consumo. O melodrama presente nas narrativas veiculadas nos mais diversos suportes, tanto apascenta quanto normatiza nossas crenças, determinando nossas relações cotidianas, catequizando até nossas emoções num quadro ideal/esquemático de expressão amorosa, familiar, humanas, hoje tido como naturais, mas naturalizados. O melodrama nos domesticou não apenas no gosto por determindos filmes, também no modo de pensar, e pior, no de sentir. 






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