terça-feira, janeiro 27, 2015

O pacto, de Roger Donaldson


Passando na televisão, parei para assistir por acaso O pacto, com Nicolas Cage. O ator está tão queimado com filmes ruins, que é um exercício de paciência parar para ver qualquer filme dele. Mas tem Guy Pearce, que costuma ser bacana. E de cara, saquei que a MATRIZ do filme, não só era um filme do Alfred Hitchcock - PACTO SINISTRO - como toda a estrutura se compunha de uma série de referências do diretor. Isso não redime o filme de ser fraco (não exatamente ruim), mas prejudicado pela direção convencional, preguiçosa, sem empenho de conceder força imagética a um roteiro esmerado (pelo menos até os 20 minutos finais). 

O tema do inocente acusado de um crime que não cometeu, metido numa conspiração, e que tem que sair da posição passiva para provar a inocência, solucionar o mistério/crime e salvar a loura, tudo isso está lá. O que se acrescenta à isso para "modernizar" aquilo que era chave de grande parte do cinema hitchcockiano,  é a substituição da trama espionagem/conspiração, pela paranoia persecutória norte-americana, a "teoria da conspiração" envolvendo moralidade e loucura.

Se em Pacto Sinistro, um maluco propunha trocar um assassinato por outro com um homem que encontrou num trem, em O pacto isso acontece em larga escala. Ao ter a esposa violentada eespancada até à beira da morte, um professor de colegial (Nicolas) recebe a visita de um misterioso sujeito de terno (Guy) que propõe a troca de favor. Ele mandará matar o estuprador e Nicolas, no futuro, executará uma tarefa. O professor topa e logo é envolvido numa teia gigante em que todo mundo está mancomunado numa rede de justiceiros que dão cabo de criminosos, naquilo que a Lei/Estado parece não ter dado conta, por ser lenta, burocrática ou "permissiva". Contra o sistema, não demora ao vilão (líder de uma célula justiceira), pirar e matar todos que julgar indignos de viver ou ameaçar sua "organização" (como um jornalista investigativo que Cage terá que matar, achando que é um pedófilo). 

O resto é toda aquela peripécia vazia. Muita perseguição de carros, correria no meio do trânsito, saltos, revelação de falsos aliados/amigos. O pior é o modo como chupam a ideia de espetacularidade de Hitchcock (penso naquelas cenas memoráveis no Monte Ruchmore, na sala de ópera, de O homem que sabia demais). Em O pacto, botam uma cena importante num grande estádio lotado para não explora-la de jeito algum. Ou seja, o que Hitchcock filmava genialmente, compondo frame a frame uma obra de arte, se torna algo banal, meramente ilustrativo. Isto por que a "monumentalidade" do cinema atual quer valorizar o tamanho da tela. Tudo é cenário sem significação (o shopping final também, onde há o tiroteio confuso, tolo). O diretor Roger Donaldson (como qualquer diretor americano mediano, tecnicamente eficiente e vazio) opta sempre pela fluidez narrativa. Isso é resultado de uma plateia boçalizada, cada vez menos compenetrada e propensa a sutilezas, que "busca num filme" tão somente a noção de entretenimento vazio. Hitchcock filmava para o mesmo público mediano, entretanto nunca se dobrou a imbecilizá-lo, ou melhor, jamais abdicou à inventividade, à criação, a fazer avançar a arte cinematográfica, o que notabiliza um Autor/Criador.

Como resultado, O pacto termina um filme esquecível, em que a mocinha dá tiros, tudo se resolve na base do assassinato. Até o deus ex machina mais rudimentar se manifesta no final. Tudo o que torna o filme uma aula de "esquizofrenia" já que a solução da trama se faz naquilo que ela critica, pois no desfecho os vilões são brutalmente exterminados, sem julgamento/cadeia/punição baseada em lei. Aliás, a Justiça toma forma de um "chefe de polícia" que se revela um dos pactários, e que promete ocultar provas contra o mocinho, e absolvê-lo numa história inventada a ser veiculada pela mídia. 

Ou seja, o desfecho é um elogio ao crime desenfreado, atos vazios de vingança emocional (a mulherzinha loura é quem mata o vilão salvando o marido), encobrimento da verdade e reafirmação da paranoia generalizada (também a imprensa faz parte do pacto). O pacto de Cage resulta num crime contra Hitchcock e contra toda noção de civilização, e em menor grau, da própria Arte do Cinema. 



[Para provar que um filme tolo pode render uma boa reflexão.]

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