sexta-feira, janeiro 16, 2015

Birdman, de Alejandro Inarritu



Assisti ontem, aqui no conforto do meu lar, a esse filme estupendo.

BIRDMAN trata de um ex astro de cinema, notabilizado por um super herói que lhe garantiu fama e dinheiro, mas que agora, decadente, dirige e adapta para o palco uma obra de Raymond Carver. Quer compor na Brodway uma obra densa e dramática que lhe permita dar/encontrar/traduzir o sentido de sua vida como homem e ator/artista. Em meio a isso, contrata um ator/astro talentoso (mas instável) - Edward Norton - que quer lhe roubar cena. Neste ínterim, tem um caso com uma das atrizes da peça que diz estar grávida; lida com uma filha em reabilitação por drogas (Emma Stone) que o assessora, mas que não acredita em seu trabalho; recebe a visita da ex-esposa a quem ainda ama; lida continuamente com a insegurança da atriz-protagonista, e tenta bancar com a ajuda de um produtor/amigo dedicadíssimo o orçamento da peça. Com tudo isso rolando, vai ter surtos homéricos em que explodindo em paranoia destroi o camarim, já que ouve a voz de seu personagem-super-herói Birdman a questiona-lo, inflar e derruir seu ego durante toda a produção. 



Tenho preguiça do diretor Alejandro Iñárritu, pois ele até então estava sempre emulando seu filme de maior sucesso - Amores Perros, ou seja, fazendo uso continuo da mesma levada e procedimentos. Então a surpresa de vê-lo dirigir de maneira totalmente diferente, agora menos preocupado com questões político-sociais, ou um "pseudo humanismo transcendente" que sempre parecia aspirar, em meio à violência desencadeado por personagens melancólicos. Em Birdman, sua câmera falseia um contínuo plano sequencia. Nada daquela câmera frenética na mão. A câmera flutua como o olhar por cima das costas do protagonista e demais atores. Uma câmera pássara. A trilha é de uma bateria de jazz que ora ou outra se materializa na figura de um músico real tocando em becos, ruas, numa contínua quebra de "quarta parede teatral". 



O filme é cheio de nuances surrealistas, adentrando as angústias e paranoias de Keaton, e flertando com o gênero fantástico dos filmes de herois. Mesmo o dom de mover objetos e os voos rasantes entre prédios estão lá para revelar a interioridade louca, os impulsos violentos e a predisposição suicida (obsessiva, desde o tema da peça) que compõe a psicologia do autodestrutivo ator/Keaton. O filme Birdman então se converte num híbrido complexo, colagem/paródia crítica do star system americano. Emma Stone no seu melhor papel (e já tinha arrasado no Woody Allen), explosiva, cínica, doce, trágica. E o Keaton é brilhante em cada frame, numa complexidade que nunca imaginei que pudesse realizar. Edward Norton brincando de desconstruir/reconstruir sua persona de Clube da Luta, mais um dos duplos de Birdman.

Um filme que faz uma crítica ao cinema de heróis, paradoxalmente/ou cinicamente com todos os astros/atores que estrelam estes filmes. Tudo o que faz de Birdman uma melancólica reflexão sobre o ator e o palco, sobre a função da arte num mundo onde o entretenimento impera e esvazia tudo que pode ser denso/complexo. Também desanca o papel da crítica cega, burra, descomprometida ou meramente virulenta/destrutiva. Além disso, olha muito atentamente a febre da internet, das redes sociais, dos virais, dos paparazzi, da obsessão pela fofocas e a decadência das estrelas. Falei de uma inspiração inteligente ao  8 1/2 e à La Dolce Vita? 

Inesperadamente, um filme grande.


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