sábado, agosto 30, 2014

Selfie sobre selvies



Na sala, hoje, fazendo com os alunos da Paulista uma redação que tematizava a egolatria das fotos selfies e sua publicação da internet, não resisti à contradição de fazer uma do momento e postar no Facebook. Ficou ótima, e em breve posto no Revide o texto. 

terça-feira, agosto 26, 2014

A ausência das fadas



Então as fadas sumiram, assim, como num passe de mágica. Desapareceram no ar. Sem sino, sem varinha de condão, nem um rastro de pó. Eram uma vez. Foram. Foram-se dali.

Em todo reino, sentiram a grande falta. Sem fadas, uma abóbora era só uma abóbora e toda roca, uma ameaça de sono e sangue. Tristes de fato ficaram as moças, já de si tão infelizes, na escassez de príncipes, sem a esperança de um destino de bailes, casamentos; sem ao menos o consolo de anões.

Então o rei mandou buscar seus sete filhos. Que viessem logo, que o caso era urgente. Chegaram num galope, altivos e belos. Eram robustos aqueles moços e fizeram as moças tremer. Mas não estavam ali para festa. Demandados, partiram velozes em seus corcéis para os quatro cantos do mundo. Tudo, para nada. Com seus falcões suspensos no braço, com suas espadas de cortar feras e abrir caminhos, perderam-se entre espinhos, foram devorados por lobos, incinerados por dragões. Muitos tombaram das torres mais altas, presos aos cabelos quebradiços das donzelas, ou de enormes pés de feijão. Uns foram aprisionados, morreram congelados. Outros, viraram sapos, ficaram cegos, doentes, feito duendes. Nenhuma fada os salvou.

Quando soube da noticia, caiu em pranto o reino, uma tristeza de dar dó. Sem filhos e fadas, tudo desencantara-se. Mas o rei, que tinha sido valente, não se deixou abater. Convocou os conselheiros, que vieram. Contudo, estavam mudados, confusos de gagás, os olhos esbugalhados, tortos sorrisos sem dentes, tartamudos e meio surdos. Pareciam nada escutar. Tão Tantãs, que não demoraram a vestir losangos, guizos, puseram bobos até mesmo os bobos.


Mas ninguém riu. O reino não riu. O rei mais que só, ilhado na nota de rodapé.

Alheias a tudo, só umas poucas moças acamadas. Dormiam já seu sono sem fim, sem sonho ou fadas. Eram reais os dias monotonamente cinzentos. Se ao menos houvesse um cavalo, decapitado que fosse, cuja cabeça falante indicasse, com tristeza, o paradeiro das fadas. Não havia, só esses a pastar e ruminar indiferentemente, o pasto comido. Não havia beijos de final feliz.

Mas o rei, que gostava das alturas, subiu na torre mais alta, pois tudo é pequeno quando se pode bem ver. Que faziam falta, as fadas, não havia dúvida. Sem elas, nenhum desejo a mudar este reino. Por certo que se escondiam. Mas por que do sumiço? Presas na torre, raptadas, botadas para dormir? Onde estariam? Nunca contara com isso. Mesmo quando invisíveis, sabia fingirem-se ausentes, mas sempre vigilantes do destinos das moças, dos príncipes, dos reis, muito de olho nos finais felizes. O rei chegou a dizer psiu, bater palmas, queria acreditar que estavam ali. Não estavam. Que inimigos fatais poderiam ter dado cabo das fadas? Então o rei se lembrou da bruxa, sua velha, má, e terrível, inimiga.

Partiu ao cair da tarde, o reino afundando em sombras. Todos dormiam. O cavalo batendo os cascos nas pedras do chão, onde os miolos de pão brilhavam à luz da lua indicando o caminho. Apeou do cavalo. Devagar, feito lenhador diante do lobo. A casa era de doce. A bruxa estava a cozinhar, pensou. Bateu três vezes. “Quem é?”, perguntou. “Sou eu, João.”, respondeu o rei, lembrando-se. “Entre”. Entrou. Ele tinha perdido o medo da escuridão.

A porta rangeu quando o rei entrou. A velha estava de costas, no fogão. Estava cozinhando feijão. Você aceita? “Estou sem fome”, ele disse. Ela virou, assustando-o: as orelhas pontudas, o longo e peludo focinho. “Desculpe, disse, tirando a pele do lobo e vestindo um capuz vermelho. “Não é melhor assim? Não pareço, uma menina? e riu. João também. Ou o rei, como quiserem chamar. E se olharam.

Ela achou-o envelhecido, ele também, velhíssima, e linda. “O tempo fez muito bem a você”, disse. E voltaram a ficar calados, mudos, um silêncio de morte. Um corvo crocitou nas sombras.

“Mostre-me sua mão”, ela pediu, para quebrar o gelo. Ele estendeu-a, mas com receio. A dela era fria e branca, como a neve. Ela se concentrou no dedo indicador. “Está gordinho, finalmente.”

Assustado, ele puxou a mão. El riu alto, maléfica ou encantada, sabe-se la.

A casa era pequena, escura. O olho esperto dele descobriu um gato preto (ou pardo), na sombras, sem miar. Na fruteira, maçãs vermelhas, lustrosas; rabanetes murchos. Escorando a porta, uma vassora gasta e no caldeirão, um vazio infinito, de cobre. Ela vivia só, andava com dificuldade, ninguém mais a vinha visitar, pedir desejos. Por certo mal enxergava. O espelho atrás, coberto por um trapo. João teve pena dela.

“Pegue. Prove este mingal”, disse, estendendo-lhe um pratinho.
“Está muito frio”, comentou, mal pondo na boca.
“E este outro?”, o prato era maior.
“Quente demais”, quase me queima a língua.
“Veja este, se não está melhor.”
E ele pousou a colher no fundo, e parou olhando para ela, antes de levar à boca.
“Não é a primeira vez que lhe mato a fome.”
Ele assentiu e comeu, as colheres cheias.
“Estava uma delícia, obrigado. É tarde”
“Não tenha pressa. Venha, deite-se na cama”.
Ele deitou. Ela cobriu-lhe os pés, para que não entrasse friagem. O corpo mole, sentiu que encolhia naquela altura.
O colchão largo, o cobertor pesado, de urso. Ele não tinha cachinhos dourados. O que viera fazer a essas horas da noite tão longe? Não lembrava. Ou... Apertou os olhos, reconhecendo-a. Estava bem diferente de quando o deixara perder-se solitário na grande floresta do mundo, onde tudo era obscuro, amargo, lupino. Onde não havia fadas. Então lembrou. Era isso que viera perguntar a ela, a grande gansa, a guardadora, a maior de todas.
“As fadas...” - sussurrou – Sabe onde estão as fadas, mãe?
“Sim, sei onde estão. Quer que lhe conte?”
“Por favor, disse o rei, disse João, ou disseram ambos, já metidos na névoa do sono.”
“Ela arrastou-se até o fundo da casa e o trouxe consigo. Era grande, largo, finas lâminas brancas de papel.”
Um minuto, disse, abrindo-o, a voz antiquíssima, de avó e de mãe.

Ela então disse “era uma vez”. E houve fadas.  


segunda-feira, agosto 25, 2014

Celular alheio



Vi isso ontem, e quase não acreditei no que vi. Ainda mais os comentários do Porta dos Fundos. Às vezes uma piada não é uma piada.

Resenha de Isabela Boscov para o filme Star Trek - Além da Escuridão



J.J.Abrams começou retomando o otimismo do seriado original de 1966, e pouco a pouco o vai substituindo por algo mais próximo do mundo em que seus espectadores vivem hoje. Vale dizer, um mundo em que branco e preto se fundem num sem-número de tonalidades de cinza - em que não há propriamente vilões, e sim ameaças, e no qual não mais se sabe de onde elas vão surgir. Por último, e mais importante, J.J. compreende que as ameaças de dominação mundial (ou supragaláctica, no caso de Star Trek) dos velhos vilões não mais fazem sentido. Hoje não há impérios querendo dominar, mas loucos buscando destruir. Tudo é pessoal; tudo nasce do ressentimento, do rancor, do sentimento de que injustiças foram cometidas e devem ser vingadas. Escolher um adversário para a tripulação da Enterprise, hoje, é portanto uma tarefa que requer fineza. No primeiro filme, Eric Bana, cegado pelo luto, movia literalmente céus e terras para punir Spock por uma perda familiar. Em Além da Escuridão, estes três conceitos - adversário, família e perda - ganham novo caráter, e máxima potência, na escolha de uma figura espectacular: Benedict Cumberbatch (...) John Harrison, o agente rebelde da Federação que bombardeia a sede da Tropa Estelar e massacra vários de seus colegas, dá sinais de que está cumprindo uma agenda terrorista cuidadosamente estabelecida: ataca alvos simbólicos do poder da Federação e então foge para uma sona periférica do império Klingon. Conta não apenas com a inevitável retaliação, mas com o fato de que qualquer invasão federativa nesse espaço será considerada pelos klingons um ato de guerra. Em fúria com a morte no atentado de seu mentor, o almirante Pine, o capitão Kirk se oferece para a missão ao almirante Marcus. Marcus quer guerra; Kirk quer vingança; e Spock quer dissuadi-lo de executar o inimigo sem julgamento, já que há algo fora de esquadro neste cenário:  uma sugestão difusa de que a tripulação da Enterprise ignora alguns dos elementos que estão em jogo e nao passa de um peão no tabuleiro. 


[Fragmento de uma crítica de Isabela Boscov, para o filme Além da Escuridão, de J. J. Abrams. Provando que há muito mais a se "ler" num filme de aparente entretenimento, e de que uma boa resenha pode ser sim, um exercício de inteligência. ]

domingo, agosto 24, 2014

Godzilla 2014, uma bobagem


Consegue ser pior do que qualquer outra versão. Juliete Binoche entra no filme para morrer nos primeiros cinco minutos, Bryan Cranston morre vários minutos depois. Estão lá para conferir alguma dignidade há algo que não tem. Godzilla vira o monstro-herói do filme sem pé nem cabeça. Fique longe.


No Rong He, na Liberdade com Márcia e Dom.















Veronica Stigger num comment


Catch Me If You Can (abertura)



Uma das mais lindas aberturas que já vi. Criação de Daygas kuntzel e Florença inspirados, obviamente, em Saul Bass.

sábado, agosto 23, 2014

Campo e contracampo




Eu, Márcia e Dom na Liberdade, sexta feira. Jantar no Rong He.

Predestination



Por que adoro filmes de ficção científica.

Relatos selvagens, de Damián Szifron

Impressão 80mm-200mm





E essa verticalidade concreta de São Paulo, com suas janelas que nos molestam com seu retângulo que promete (e não cumpre) o espetáculo do horizonte.

sexta-feira, agosto 22, 2014

ANHANGABAÚ

Sentados num banco da América folhuda
o cowboy e a menina
Mas um sujeito de meias brancas
Passa depressa
No Viaduto de ferro.


Oswald de Andrade



quinta-feira, agosto 21, 2014

Billy Wilder, na edição do Sesc


Adoro Billy Wilder, quase tanto quanto Hitchcock e Almodóvar. Achei este livro naquela loja do Cine Estação, no Rio de Janeiro. Não comprei. O preço absurdo. Semana passada, zapeando em sebos da Sé dou de cara com este livro por 20 mangos. Leio na contracapa que foi lançado por ocasião de uma mostra que houve em 2013 no Cine Sesc. O livro com este título anódino (o nome do autor) reune ensaios nos quais vários críticos estrangeiros (em ótimas traduções) analisam os filmes de Billy Wilder. Em sucessivos textos, alternam-se temas variados: reflexões sobre influências (do Expressionismo Alemão, de Lubisch etc), da reelaboração de gêneros (o noir, a screwball comedy, o filme de guerra), seu conteúdo transgressor (no que tange a ousadia com que aborda o sexo e temas amargos), no modo como lê e sutilmente critica a sociedade estadunidense e seus valores. Também, traça as conexões entre filmes e sua biografia, quando não relaciona-os com determinado momento político/histórico que Wilder cifra/comenta nas entrelinhas de sua obra. Portanto, mais que um livro: uma estimulante aula sobre o autor judeu-austríaco-alemão e a forma de se ver/ler um filme. Dentro do livro, imagens dos seus magníficos trabalhos. Um livro tão estimulante que parei no computador e pus para baixar todos os filmes - agora disponíveis em blu ray - para ver e rever. E olha que tenho vários livros sobre Wilder que não chegam aos pés deste. Só um questão a se pontuar: quem foi o responsável por uma capa tão ruim, vazia, inexpressiva quanto esta? Que ideia tola esta de colocar os títulos dos filmes como aparecem na abertura dos filmes na cama. O chocante é que a diagramação, as cores e as fotos internas são estupendas.

Ernest Hemingway


Sim, eu me dou ao luxo de no metrô, no trem e no ônibus ler os contos limpos, precisos e comoventes (nas nuances e emoções que ele escamoteia nas entrelinhas) de Ernest Hemingway. Achei que iria odiar por causa do "peso" do nome e da marca "autor norte-americano". Caí do cavalo. Gênios como este sobrevivem ao tempo e nem a tradução esconde o brilho do estilo.




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Da visita ao apartamento do Marcos


 Então nesta segunda (18.8.14), depois de sucessivos adiamentos, tomei vergonha e fui lá no Marcos. Ou melhor, ele baixou aqui de carro e fomos almoçar num restaurante ótimo, quase na porta de casa. Depois fui conhecer o incrível apartamento dele, no Cambuci. Ficamos conversando sobre a vida, sobre os amigos, sobre trabalho, filmes, conquistas, decepções com amigos etc etc. A câmera e lente igualzinhas que ambos possuímos, e que eu levei para mostrar a ele (das coincidências que insistem em acontecer) à taça de vinho, café nespresso, a sala com cores claras, os jogos novos incríveis, seu home theater espetacular. Ele é um construtor de atmosferas. Um autodidata em computação gráfica. Um amigo sincero e generoso. Marcos/Paranex é dos meus amigos mais próximos, amizade que vem do colégio que fizemos juntos, em Mauá; e depois, mais velhos, dos tempos da ELCV onde ele dirigiu e editou roteiros e curtas meus. Agora ele embarca em novíssima aventura. Ele está às vésperas de ser pai de Valentina, e está me falando como vai mudar o escritório, de algumas espectativas, mas naquela calma toda que é dele. Na saída, chegou a Rose, esposa, a bonita barriga de grávida. Digo para ela que de resto não engordou uma grama, e ela ri. E eu lembro que eu gostei dela de supetão, desde a primeira vez que a vi, quando o Marcos a apresentou, há uns nove anos. Estão felizes. Eu, que vibro com as conquistas das pessoas amadas como se fossem minhas, fiquei num orgulho grande daquela amizade que sobrevive sem que precisemos fazer esforço algum, anos e anos. Pois há sempre em nós, novos assuntos, objetivos que se renovam, pautas que não se esgotam. Antes de sair, ele fingidamente me vendeu aquele celular caríssimo (por um preço inacreditável), coisa que ele faz sempre com os amigos, forma de nos presentear sem dar muito na vista. Modo muito Marcos de ser. Sem sentimentalismo. Sem angustia existencial. E, no entanto, o mais humano, ético e admirável cara que conheço. E encerro aqui para não ser ainda mais sentimental.

Brincando com as novas lentes em Mauá








Disneyhell ou Da transgressão e fim da inocência


 

Da ironia absoluta da vida

Parece mentira, mas naquele exato instante, enquanto corria na esteira, era isso que estava ouvindo:












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segunda-feira, agosto 18, 2014

O mercado de notícias, doc de Jorge Furtado


Estando aqui em casa neste domingo frio, resolvi ir ver O mercado de notícias, documentário de Jorge Furtado sobre a imprensa, no Cine Itaú da Augusta. Filme brasileiro, se não for pernambucano, não me mobiliza a ir ao cinema. Jorge Furtado é uma excessão e sempre vale, mais por sua inteligência fervilhante, do que sua capacidade de surpreender na forma.

Neste documentário que flerta com o teatro, entrevistas com jornalistas/repórteres brasileiros alternam-se com fragmentos de uma peça de Ben Jonson (contemporâneo de Shakespeare, o fetiche de Jorge Furtado). O filme traça uma reflexão inteligente sobre o sentido do Jornalismo e a crise ética, política e econômica desta "instituição" que insiste em escamotear seu posicionamento, sua influência e poder. Objeto dissecado, naquele estilo vertiginoso, irônico e jogos metalinguísticos - marca do estilo do diretor gaúcho - tem uma edição inteligente, gostosamente dinâmica (pelo menos em 2/3 do filme) feita pelo Giba Assis Brasil. Lembra aquelas Comédias da Vida Privada feitas para o núcleo do Guel Arrais (da Globo!!!), mas vai agudizando problemas, mostrando com humor a incompetência investigativa, o ridículo dos métodos, a perversão e a manipulação desenfreada à serviço de interesses (nunca da sociedade). Das famílias detentoras do controle da grande mídias brasileiras, das inclinações político-partidárias escamoteadas ou explícitas, da injeção do dinheiro público governamental nos jornais locais, à crise desencadeada pelo advento da internet, um documentário engenhoso, imperdível àqueles que querem alcançar, nestes tempos de desordem crítica, boa informação para refletir.     


Agora, brilhante mesmo, foi o fato da Casa de Cinema de Porto Alegre (produtora de Jorge Furtado), disponibilizar integralmente, várias entrevistas apresentadas em fragmentos no documentário, assim como os cinco atos da peça Mercado de notícias, de Ben Jonson, via Youtube. Há também fotos, making off e trabalho de mesa. Maravilhoso àqueles - como eu - que querem entender o processo de criação de filmes/documentários. Para ver, CLIQUE.


http://www.omercadodenoticias.com.br/

Grafiti


Chico Buarque, esse lindo


Androides sonham com ovelhas elétricas, de Philip K. Dick


Linda capa para o livro que resultou em Blade Runner.