segunda-feira, março 31, 2014

Um comentário no Facebook sobre uma postagem


Em defesa de uma leitura superficial do texto? A "demonização" do processo de análise intelectual? Do "professor". Mais um processo de "desautorização" do profissional em benefício do fácil? O autor sempre esta com a razão? (olha que até Rosa e Clarice se disseram surpreendidos com leituras que lhes revelaram elementos até então insuspeitados por que inconscientes de seus próprios trabalhos). A ideia rasa num tempo de leituras rasas e visões rasas? Não sei se concordo. Às vezes o azul é também blue ou blues. Tristeza.


Sobre racismo no México.

sexta-feira, março 28, 2014

NYMPHOMANIAC, de Lars Von Trier - Um filme sem tesão


Artigo publicado no Soul Art sobre a primeira parte do filme do diretor Lars Von Trier, Nymphomaniac. Para ler, clique AQUI.

Terror em um minuto



Com trechos do curta que dirigi o pessoal: NA ESCURIDÃO.

BR Brasil


Protestar não é crime



Amanhã, pela primeira vez, o governo brasileiro terá de explicar à OEA mais de 200 casos de violência policial, repressão a jornalistas e utilização de leis de exceção em protestos. Terá que se manifestar, também sobre uma lei criada durante a Ditadura Militar.

Com a chamada Suspensão de Segurança, o Estado descumpre decisões judiciais que defendem os interesses da população em casos como o da Estrada de Ferro Carajás, no Pará e no Maranhão, e o da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.
Acompanhe a transmissão ao vivo a partir das 12h30 (salão Rubén Darío): http://www.oas.org/es/cidh/


Pra não ficar dúvidas este é o Comandante do Destacamento de Santa Teresa do 5o. Batalhão da PM, TEN BITTERCOURT que não deve ter seus 30 anos aplicando um "mata leão" (estrangulamento) COVARDE no morador Sr. Luiz de 61 anos cercado por 3 PMs armados q são seus subordinados.
Adivinha quem foi preso após ser atendido pelo SAMU? 
O morador agredido por ter se deitado no chão pra impedir o avanço do trator.
ABSURDO É POUCO!

Foto e texto: C. Lobo

Como se preparam as crianças para a Copa.


Revistas de estudantes no Complexo da Maré.

Máxima genial.


Bebêbado


Pois sobrinho a gente começa a "trolar" é logo cedo.

Laerte em tira sobre a Ditadura


Os quadrinhos como arte de se discutir o momento.

Minha tão querida amiga Susana Ventura


Linda, linda, linda. Ventura.

Vittorino


Está não é tão nova. Ele praticamente já dobrou de tamanho. Atualmente é um big-baby. Mas adoro esta linguinha pra fora. 

Lucas modelo da Way Model Management





Está é da agência em que o sobrinho Lucas está trabalhando - Way Model Management. Para ver mais fotos do moçoilo, clicar AQUI.



quinta-feira, março 27, 2014

Frida Kahlo


A função da Literatura



"A função da literatura está ligada à complexidade de sua natureza, 
que explica inclusive o seu papel contraditório mas humanizador 
(talvez humanizador porque contraditório). 
Analisando-a, podemos distinguir pelo menos três faces: 
ela é uma construção de objetos autônomos como estrutura e significado; 
ela é uma forma de expressão, 
isto é, manifesta emoções e a visão de mundo dos indivíduos e dos grupos; 
ela é uma forma de conhecimento,
inclusive como incorporação difusa e inconsciente.
 (...)  
Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, 
e a fruição da arte e da literatura em todas 
as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável."



Antonio Candido, "O direito à literatura"




















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Clipe de "Desfado", de Ana Moura



Letra genial, clipe delicioso.

Pablo Alborán e Carminho


O cantor é desinteressante (há mil iguais a ele) e a letra da música não quer dizer nada e o vídeo é brega. But... Carminho brilha quando aparece, com a emissão sempre surpreendente de sua voz. 

segunda-feira, março 24, 2014

Sobre sexo, casamento e família a partir de um post no FACEBOOK


Curtir ·  ·  · há 3 horas · 
  • Eduardo Arau Acho preconceituoso, em alguns pontos pontos: 1) Como se afeto e sexo entre pessoas adultas fosse algo condenável e negativo que precisasse ser mediado/oficializado por uma igreja/religião. Não precisa, simplesmente porque não se precisa de uma "igreja" para estar com Deus; 2) A gravidez vista como algo sempre negativo e fosse uma punição, aliás, como se necessariamente fosse resultar em gravidez; 3) Como se os "namorados castos" fossem superiores aos outros, não são. Se essa é uma opção do casal ela é legítima, o que não significa que eles são melhores ou que estejam com a razão; ou ainda pior, como se julgassem "sexo algo indigno" e não natural, algo que precisasse ser "autorizado" por uma instituição encarregada de gerenciar suas vidas e dizer se tal coisa é certa ou errada. 4) casamento não é o ápice da relação, e não é garantia alguma de FELICIDADE conjugal. Se fosse assim, não haveria tanta gente casada infeliz e acorrentada por dogmas. Casamento é quando duas pessoas (observe que vou mais longe, falo "pessoas") se acham conectadas e com o desejo de compartilhar suas vidas e suas experiências, e não é Igreja que determina isso, mas afeto. E sexo é um componente fundamental da relação. Deixar para entender se há compatibilidade sexual entre o casal para "depois", é um tiro no escuro; o que não condena quem queira assumir o risco (pois sim, é um risco), nem o torna um herói. AGORA O QUE PENSO PARTICULARMENTE: "casamento" é sim passível de ser dissolvido, - não a torto e a direito pois assim é imaturidade - MAS casamento não é uma "condenação" para toda eternidade. Seres humanos mudam ao longo da vida - físico, moral e emocionalmente - e o pior que há para duas pessoas (e os filhos dessas) é estarem presos a alguém que já não corresponde as mesmas vontades e ideais quando não há Amor/respeito etc. É o AFETO que une o casal, não é o documento oficial nem o ritual religioso, portanto, sem afeto não faz sentido o "casamento". O que une duas pessoas são o seu afeto (bem, há os que vão por dinheiro, poder e outras questões, mas aqui não se trata disso). E se não há mais afeto, não é a imposição, nem a interferência externa de alguém tentando "salvar" a relação que dará jeito. Portanto, namoro (com sexo) - como ficou subentendido ou namoro casto tem o mesmo valor, pois visam formar pares por afeição/compatibilidade/respeito/companheirismo etc etc, seja oficial ou não para criação daquilo que chamamos família. O resto todo, PARA MIM é mistificação.
Sábado, eu gravei em Diadema/Eldorado, o curta "No escuro" com a equipe do JAMAC. Foi uma maratona de um dia para realizar quatro curtas de terror. Disposição, empenho, alegria, vontade, tudo que se misturou com uma boa dose de técnica e improviso. Preciso agradecer todos os dias essas pessoas fantásticas que Deus pôs no meu caminho. A vida é mais. 

domingo, março 23, 2014

A bela despertada



Quando a princesa despertou, foi aquele susto. Uma aranha com muitos olhos estava aninhada em seu peito. Deu no salto, um grito.

O grito de fato tomou todo o quarto da princesa (que era imenso) e o efeito foi um eco imenso-imenso e um rasgão na teia sob a qual a princesa dormia. Foi tanto surpresa quanto enojada que a princesa afastou do corpo os incômodos fios, assim que abriu a janela deu com a bagunça. Teias de aranhas desciam compridas do maravilhoso dossel, substituíam com igual beleza os véus roídos por traças gordas que agora atacavam as cortinas. Um pó espesso cobria os quadros e outras teias muravam as mil bonequinhas das estantes. Uma aranha mais atrevida fizera brotar do fuso um longo fio que ia até o lustre. O quarto era essa miséria, não havia canto que não houvesse pó e mesmo o real espelho tinha perdido o dom de replicar princesas.



A porta rangeu quando a donzela puxo a maçaneta. Tão indignada ia que nem pensou em tirar da gaveta seu lindo vestido de aniversário, que na noite anterior - tinha certeza - ali guardara. Atravessou o escuro e corredor. Sentiu que a madeira rangia com seus passos. No longo tapete vermelho, seus passos deixavam rubras marcas.

Chegou à sala de reuniões, mas era uma ruína. Seria possível que já todos os homens tivessem ido à caçada? Provavelmente, disse para si, pois desde o fim da guerra não havia coisa outra a se fazer. Mas como tivesse fome, uma fome antiga, fez o que jamais fizera, penetrou a cozinha. Contudo, as caçarolas solitárias estavam baças sobre o balcão, e nenhum fogo saía da fornalha quieta.



A princesa, com uma indignação de alumínio, foi até o jardim. Tinha sede, entretanto, não levou bilha, somente um cálice, que solitário ocupava um canto da mesa. Porém, novo pesar, as abas da fonte tinham ruído e um fino fio de água, muito tímido, escorria por entre a rachadura e ganhava o chão. A princesa perdeu toda a sede, e descuidou da taça que rolou num canto. Agora não queria nada, estava emburrada - embora não fosse burra, um pouco tola, mas nada burra.


De fato, e ela logo pensou, que por certo as amigas bordassem na torre alta. Era isso, compunham no bastidor seu presente. Subiu correndo as escadas, que tremiam, entusiasmada desprendendo pregos enferrujados. Mas rangidos, traques, estalos, soavam à princesa como o riso longínquo de donzelas, de aias felizes, guizos saliente do bobo da corte. Foi assim entusiasmada, que se chocando na porta, a viu desprender-se do batente. Mas nem o pó desceu, constatou que não havia ninguém na torre, só um silêncio de morte. 

Descendo as escadarias em caracol, teve que sentar-se no último, pela vertigem e pelas lágrimas que lhe caiam dos olhos. Se seguisse outro caminho, as sete pilastras, as janelas, iria ter nos estábulos. Esperaria por ela seu cavalo Azul? A donzela já não acreditava. Seria possível que todos tinham se esquecido de acordá-la. Nessa hora sentiu grande falta dos berros do calabouço.

A noite ia caindo, breve, teria que subir e, de novo, adormecer na puída seda da cama. Pensou em dar voltas no jardim, perder-se no labirinto de teixos, colher framboesas para a avó, mas nada a animava. Vez enquanto berrava um "Uh-ru! Tem alguém aí? Para ter de resposta sempre o mesmo lamento: ai, ai, ai. Ao menos tivesse tranças, ela as enrolaria em infinitos caracóis. Mas sua mãe odiava rabanetes e já nascera princesa. Soubesse onde estavam todos e não tinha que ficar naquela angústia terrível, de quem espera há cem anos. 

A princesa já se preparava para uma noite de inquietante desentendimento com as aranhas quando ouviu as badaladas. Eram curtas, depois foram se alongando, alargando-se em prolongados estampidos, como círculos que se vão formando na água, quando no lago se atira uma pedra. A princesa pôs-se de pé, neste instante lembrou-se do dedo e o meteu na boca, como se ainda estivesse ferido, mas não estava. Somente a pequena cicatriz denunciava o desastre do fuso.


A princesa subiu as escadas e seguiu para o real salão do relógio. Como era possível que o tivesse esquecido? Por trás da fuligem e das teias, os retratos de família seguiam com olhos severos. Mas a princesa não estava nem um pouco interessada, contava as badaladas insistentes do relógio, sete ou oito? Se bem que se lembrava o relógio ia até as doze. Como era possível dormir assim, com todo esse barulho?! Chegou nas duas armaduras que defendiam a entrada do salão. Mas elas não intimidavam a princesa, antes a deixavam tímida por aquela nudez que traziam dentro. Girou a maçaneta e empurrou a porta. Mas a porta não abriu. Meu Deus, estava fechada! Mas a princesa não tinha chave. Bateu a décima badalada. A princesa abaladíssima quase caiu de susto. Estivesse a porta trancada, e era só virar a tranca. Por que tinha que ter chave? Chave ela não tinha. Procurou nos bolsos, embaixo do carpete da entrada onde se lia Wellcome. Mas se era bem-vinda, por que estava fechada? Então, com raiva, ela esmurrou a porta. Abre-te, Sésamo! Gritou. Mas a porta não abriu. Pensou assim: agora o que falta é me cantarem o Parabéns. Neste instante soou a décima segunda badalada. 

Puf. Desapareceu porta. Puf. Desapareceu vigias. Puf. Desapareceu castelo. Puf. Desapareceu princesa. Só a moça, metida até o joelhos de borralho dentro de um quarto miserável. "Que bom", disse ela, "tinha sido um sonho." E com muito cuidado, antes de cair no sono, guardou a sua chave na gaveta.


Das máximas ambivalentes







Quem nunca atirou pedras,
que atire a primeira pedra.










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quarta-feira, março 19, 2014

A donzela nua (conto)

Como naqueles contos de fada, o bosque em que cavalgava era infinito. E por serem mortais, cavalo e cavaleiro, mais que necessário era encontrar um lugar seguro para descansar. Despertou assim, entre árvores dispostas em fila indiana, ao som de uma voz que o guiou, sem dificuldade, até imenso lago de águas azuis. A voz era da moça, que cantava distraidamente, submersa até pescoço.

Oh!”, assustou-se ao vê-lo, em sua armadura.
Não tenha medo”, ele se apressou a dizer, “nenhum mal lhe farei, linda donzela”.
Ela enrubeceu, ligeiramente.
Como pode me chamar de linda, cavaleiro, se de mim mal enxerga o rosto?”
É que sendo ele tão belo, impossível que tivesse um corpo inferior.”
O cavaleiro não teme se enganar?”, disse maliciosa, “E se eu dissesse, que debaixo desta água sou horrível?”
Direi que mente, pois isso me parece impossível”.
Então me julga mentirosa?!
O cavaleiro pensou um minuto, e então disse:
Impossivel que seja: um rosto como seu jamais poderia resguardar uma alma feia.”
"Oh! - ela sorriu, - pelo meu rosto adivinha meu corpo. Adivinha, mesmo, a minha alma. Se é assim, tem que acreditar quando digo que por baixo sou um monstro."
"Não, não posso!"
Ora”, instou-o com um riso atrevido, “é preciso que se decida, ou como explicar que eu minto?”
Direi que não mente. Direi que de tanto se ver, acabou se acostumando com sua beleza. Não acha a orquídea mais bela, aquele que cultiva rosas?”
A moça cerrou os olhos.
Não me fale de rosas, que as rosas têm espinhos”.
Espinhos para se defender”, ele disse enquanto caminhava para beira do lago”.
Espinhos para ferir, para fazer sangrar!”
Mas a dor e o sangue são recompensados pela beleza”.
Porém a beleza acaba, caem as pétalas e da rosa morta só resta a seta!”
Noto”, disse o moço, agora com o metal das luvas metidas na água, “que tem realmente uma alma nobre.”
Não julgue a alma de ninguém pelas palavras! Quem pode saber o que pensa uma pessoa mesmo que a conheça toda vida?”
O cavaleiro a fitou muito sério:
Lábios como os seus jamais vi em dama alguma. Voz que silencia a ave mais atrevida e gestos tão suaves que mantém intacta até mesmo a água!”
Cavaleiro, não me fale desse jeito! Saiba que se eu for mesmo uma donzela, por certo terei um coração que pode facilmente magoar. Compreende que posso muito bem decepcioná-lo quando me vir fora da água.
Bato o pé! Confio na minha certeza!”
A dama afundou a cabeça na água, um, dois, dez, trinta segundos. O cavaleiro já estava sem ar, quando a viu se erguer, os lábios vermelhos entreabrindo-se em úmido sorriso.
Triste, que os cavaleiros só busquem nas donzelas a beleza; e elas, que eles tenham olhos, para ver além dos olhos!
Então, nada de perder tempo. Ponha fim às minhas dúvidas”, pediu num gesto brusco, que saisse do lago.
A moça enrubeceu:
Não posso sair. Nem passou por sua cabeça que estou nua?”
Que importa a sua nudez? Entre nós não deve haver segredos. Acha justo que me conheça inteiro enquanto de você só me vejo o rosto?
Bem, disse a moça, está certo, mas pense: caso eu seja um monstro, não me revelarei assim para que você fuja. Caso seja um monstro, eu o envolverei numa teia de palavras. Não é com uma teia que a aranha pacientemente apanha os seus insetos?”
O cavaleiro a olhou com algum temor.
Faço assim, prosseguiu a bela, - como gostei de você e me será penoso devorá-lo, vou lhe dar a chance de fugir. Chance para que parta rumo à vida para nela encontrar a felicidade.”
Nada disso. Pensa que me engana? É você a felicidade e me coloca assim, à prova. Já fui fisgado tal peixe numa rede, tal folha na corrente, tal tempo no relógio. Assim, tudo o que me disser, se não for o que desejo ouvir, já não escuto. Pronto, estou surdo: creio só no que desejo. Isto se chama paixão.”
Pobre de você, ela disse: os apaixonados são todos cegos!”
Sim, agora compreendo. E sem ter que olhar para você, eu a sinto, e por sentir, já não preciso ver para crer.”
E que loucuras fará se eu rejeitá-lo?”
Todas. Sairei pelo mundo feito um cavaleiro andante empreendendo árdua luta contra moinhos de ventos. Aprenderei a arte da lira e do bandolim para cantar a sua janela cantigas de amor desesperadas.
Cada defeito não será mais defeito. Cada derrota, por vitória. E as sonhos serão todos como que verdades. E vai me querer próxima, mesmo depois que perca todo viço. Oh, eu temo, cavaleiro, que isto seja amor”
Amor!” Ele disse, erguendo-se à margem do lago. “Amor é o que sinto e por ser sincero, o meu amor já não lhe pede provas. Não quero que me prove se é mulher ou fera. Nem me importa que tenha havido outros cavaleiros, melhores ou piores, todos devorados. O meu amor é tão puro que nada exige.”
Se for sincero o seu amor” disse ela, as lágrimas correndo pelo rosto, “então mesmo que seja fera encontrarei forças no seu amor que me transforme. Bastando para isso, para que sejamos inteiros, que me beije.”


Com o risco de falhar...”
Com o risco de não corresponder ao que criou em pensamento. Com risco de ser absurdamente nociva e levar você ao fundo. Com risco...”
E o cavaleiro ergueu a mão e tirou o elmo. E o cavaleiro arrancou a sua luva de ferro. E desprendeu da cintura espada, ignorando todo perigo. Pôs de lado o metal que lacrava o peito. Metal que deixava as pernas firmes. Largou num canto as escamas prateadas. Botou fora a vestimenta. os cabelos desgrenhados, corpo e membros. Frágil feito um menino, ele lentamente entrou na água, cada parte do corpo um tanto impaciente.”
Porque amor, disse: é risco, crença e entrega!”
Seguiu, assim, indefeso para a bela que tão indefesa quanto ele parecia. Receberam-se.
Uma brisa revolveu as folhas das árvores, depois desceu macia sobre os cabelos do casal. O cavalo bateu os cascos na margem. Relinchou, como se risse; ria talvez das duas cabeças quase submersas, dos dois lábios que se aproximavam.
O cavaleiro disse à bela antes de beijarem-se, que se lembrava vagamente de ter se recostado a uma árvore e adormecido.

A bela, quando o envolveu num abraço, disse tão somente que se aquilo era um sonho, precisava, urgentemente, ser sonhado.



Rumo ao infinito, uma sambinha de curto alcance

Considerações sobre Maria Rita



Foi lançada no vácuo da mãe com um disco que muitos chamaram de o cd-póstumo-de-Elis. Mas ali havia coisas interessantes, alguma sofisticação, músicas que até hoje dão um prazer enorme de ouvir. Anos se passaram, e ela virou talvez o que sempre tenha sido: "uma cantora sem ambição". 


Transita hoje numa linha que não é popularesca, mas que contempla os pouco exigentes. Faz música sentimental e dramática para compor abertura e trilha de novelas, pagodinhos travestidos de samba com letras que martelam rimas e sentimentos fáceis. Vez ou outra faz uma participação mais interessante num disco de alguém, mostrando que poderia ser maior, se quisesse. Não quer. Sua voz parece cada vez mais fraca, rouca, sem nuance, ainda que caprichada na emissão. Mas a repetição dos mesmos caminhos fáceis, - no som, no canto, nos temas - termina por produzir discos monótonos, que mais surpreendem.



Perder peso talvez tenha colaborado para sua coisificação. Surge constantemente linda e sarada em cena,  muito preocupada em sensualizar nos microvestidos agitando-se de lá para cá, exibindo tatuagens cada vez mais vulgares. A Maria Rita cool (ou do tipo funcionária pública, que aparecia nas entrevistas) não há mais, em seu lugar a "diva arrastão" parece em tudo se contrapor àquela da música de Rita Lee que dizia que seu "buraco era mais em cima". Não é. 


Dividida entre a cantora e a gostosa-periguete, caiu na armadilha de segunda, mas ainda não aprendeu a sambar. Sempre mega produzida, nela nenhum gesto parece realmente natural, nem mesmo a emoção simulada em lágrimas nos palcos, ou nos discursos artificiais que pronuncia (o público grita: cala a boca, e canta! - isso eu ouvi no show da Nívea!!!!). 


Mesmo assim, há algo de bonito a ressoar em suas canções, talvez algum desejo de alegria ou de libertação, que o pagodinho fraco parece permiti-lhe, já que a afasta de ser o simulacro de quem já não está aqui, e que sua voz, com cálculo, reitera e reverbera. E ainda que não queira, Maria Rita ainda soa como o eco de uma ausência: de si, da outra, de uma cantora-maior, que não chegará a ser. 

segunda-feira, março 17, 2014

Por que não há tempo

Você tem que se conformar que não haverá tempo para seus filmes, suas séries, seus livros, sua criação, seus escritos, sua fé, seu lazer e seu ócio. Você tem que espremer no tempo diário, com empenho e jogo de cintura, algum espaço para seus afetos (seu amor, sua família, suas amizades). Mas a sua vida será absorvida (boa parcela dela) pela necessidade de sustento, de trabalho para garantir um mínimo de conforto. É um esforço necessário, mas em grande parte surrupiado, pois você nunca vai ser honestamente gratificado por abrir mão de coisas tão importantes. Cabe o dom de saber dosar, e a consciência necessária desta perda, que decorre provavelmente do fato de você viver num país injusto e desigual que tira e não o recompensa com justiça, fazendo com que você tenha que se garantir todo tempo. 

É um esquema de sobrevivência esse que atualmente chamamos viver.

Copacabana



Após almoço na casa do Fred, descemos para caminhar - Eu, Jocelene e Janete - pela orla de Copacabana e molhar os pés para espantar a urucubaca que nos ameaça todo tempo. Deus esteja.






Contos de fadas


Mil coisas "sérias" para desenvolver, e retomo a produção de contos de fada almejando publicação futura. 

Por que ninguém me acusa de ostentação


Quando posto o #rolezim em São Paulo? Aqui, na estação Tietê do metrô, às 7h após problemas na Liberdade. 

PACC/UFRJ - Reunião em 3.2014


Apresentação do escritor/pesquisador João Anzanelo Carrascoza.

Eu e Janete no Leblon


Como numa novela do Manuel Carlos.

quarta-feira, março 12, 2014

A morte e a donzela (o conto)


Era uma vez, num reino muito distante, um castelo onde vivia uma linda princesa. O quarto da bela ficava numa alta torre e, para passar o tempo, a donzela bordava a paisagem do lado de fora da janela.

Um dia, vinha o jardineiro pela estrada quando encontrou uma mulher vestida inteiramente de preto. Tinha a pele tão branca que dava para ver, no rosto e nas mãos, finas veias azuis. O jardineiro percebeu que tudo que ela tocava ressecava imediatamente e morria. Era a Morte e seguia para o castelo.

Tremendo de medo, o jardineiro perguntou-lhe.

- Quem levarás do castelo, Destino de todos?

A Morte sorriu; e sua boca era tão vermelha que o jardineiro sentiu um grande desejo de beija-la.

- Hoje eu verei a princesa! - respondeu-lhe, vivaz, a Morte.

O jardineiro correu o mais rápido que pode e, quase sem voz, falou ao rei e à rainha que a Morte estava vindo levar-lhes a filha.

A rainha gritou desesperada, tiveram que conduzi-la ao leito para repousar. O rei imediatamente mandou que fossem recolhidos sete condenados, e que estes fossem oferecidos à Morte, em lugar da donzela. Mas a morte disse:

- Ainda hoje, eu verei a princesa.

O rei mandou oferecer joias, as mais belas e mais caras; mas a Morte não aceitou. Então o rei, vendo que nada dera certo, ordenou que derrubassem as pontes, espalhassem cacos de vidro, brasas incandescentes nas estradas, para que a Morte não pudesse chegar ao castelo.

A Morte, porém, seguia tranquila. Pisava as brasas sem se queimar; os cacos de vidro, sem se cortar; impassível, cruzava pontes que não estavam lá.

A princesa, quando soube da notícia, pôs-se muito aflita, menos pela irremediável sentença, um tanto mais pelos choros desesperados. Reuniu a todos e pediu que não sofressem, para que seu último dia fosse, por fim, um dia feliz. Chamou a costureira, para fazer-lhe um lindo vestido branco. Respondeu às cartas, que há muito deveria remeter. E mandou baixarem a ponte, para que a Morte não tivesse dificuldade em entrar. Assim preparada, arrematou o bordado com escuro e tenso fio de lã, pois já avistava da janela o ponto negro a mover-se pela pela estrada.

A princesa, então, deixou-se no leito real e cruzou os braços, esperando a Morte chegar. Mas, de repente, precipitou-se num salto: “como morrer sem uma rosa azul?”

As pessoas trancadas nos quartos punham o ouvido junto à porta para ouvir o último suspiro da donzela. Mas esta desceu correndo as escadarias, cruzou o salão de bailes, três rampas estreitas, sem saber que, nesta mesma hora, a Morte já atravessara a ponte e se aproximara do quarto real. A princesa, depois de percorrer o corredor até o átrio, desceu o último degrau à esquerda e chegou ao jardim.

No canteiro central, a linda rosa azul desabrochara e seu perfume era tão doce quanto a própria princesa. A donzela esticou a mão tentando arrancar a flor do galho. Ia puxá-la, quando voltou-se, ouvindo passos as suas costas. Era a Morte.


Impassível, ela perguntou se a princesa queria ajuda. A princesa sorriu, assentindo com um gesto sutil. A morte então esticou a mão, e com muita delicadeza, arrebatou a rosa e a entregou à princesa. 

terça-feira, março 11, 2014

A morte e a donzela, de Roman Polanski


Peça latinoamericana de sucesso que Roman Polanski adaptou, sem grande brilho, para o cinema. Mas o texto do chileno Ariel Dorfman é tão ambíguo e instigante que acaba compensando inadequações. 


“Chove. Uma mulher está só numa casa afastada de tudo. Ela prepara o jantar, apanha uma garrafa de vinho e um pedaço de franco e depois se tranca no armário. Ali, bastante encolhida, come.” Assim começa A morte e a donzela, um filme tenso, estrelado por Sigourney Waver, eterna tenente Ripley, heroína de Alien e um sempre eficiente Ben GANDHI Kingsley. 


Fundamentado no embate da palavra, o filme é dilatado, mas a trama exígua fascina: a mulher trancada no armário escuta a voz do homem que deu carona ao seu marido, ela tem certeza que conhece aquela voz; que aquele homem a torturou. Ela sabe que foi ele que a violentara ao som da sinfonia A morte e a donzela para que denunciasse os outros companheiros. Mas ela não denunciou, - nem mesmo o guerrilheiro (atual esposo) que tornou-se um importante político - por isso, passado tantos anos ainda tem medo e não confia em ninguém. Por isso, às vezes confunde pessoas normais com assassinos. Porém agora ela sabe (sabe?) que está diante do torturador, mas tem consciência de que ele não confessará seu crime. O que você faria? A donzela (ou a morte) resolve amarrar o suspeito numa cadeira e para, digamos, estimulá-lo a falar, o submete a seções de tortura. 



Cabe ao espectador julgar: será que ele é culpado? Será que ela não enlouqueceu? Será que só através do olho por olho, dente por dente é possível expurgar a dor?

sábado, março 08, 2014

Dia da mulher.



História do 8 de março

No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.

Por Gilson Ribas de Campos

sexta-feira, março 07, 2014

Maria Silene, Marisa Monte e o Pequeno Príncipe



Silene, ouvindo no princípio "Enquanto isso" na voz de Marisa Monte (cantora da qual ela acabou por se desencantar posteriormente, mais ou menos no mesmo tempo em que eu), comparou a canção àquela cena do Pequeno Príncipe. Ele caminhava de um lado para o outro, em seu pequeno planeta, para cuidar de sua rosa. (A rosa que tornara-se singular, porque ele a cativara, como lhe tinha ensinado a raposa). 



A gente conversou sobre essa coisa que a tecnologia fez, tornar possível estar em dois lugares e dois tempos simultaneamente. A gente conversava muito -- e longamente, -- sobre quase tudo, nem sempre concordando: uma grande amizade como deve ser, cheia também de divergências, desencontros e sustentada pela admiração mútua, sem hipocrisia, que é como devem ser as amizades que queremos levar para vida afora.

Minha amiga Cilene morreu num acidente de carro uns anos atrás. Fizemos uma viagem linda e inesquecível para o Ceará e para Pernambuco. Ela me apresentou amigos muito especiais, alguns com os quais ainda me correspondo. Pessoas que ela conhecera a distância, em comunidade de música pela internet e que ela só veio a estar em presença muito depois. Mas os encontros de Silene com esses amigos virtuais eram encontros de velhos camaradas, como se não houvesse contrangimento, como se já fossem amizades calejadas.
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Silene gostava de Fernando Pessoa e Maria Bethânia, gostava especialmente de Maria Bethânia recitando Fernando Pessoa. Gostava das cantigas de trovador de Elomar, das Estampas de Eucalol de Xangai, dos dois olhos negros Lenine. Me apresentou a "lata d'água na cabeça" de Vanessa da Mata, quando Vanessa da Mata não era Vanessa da Mata. Era assídua freqüentadora dos SESCs, shows, amava festas populares, viagens. Amava seus amigos, seus parentes, as crianças Fausto, Flora e Gil, tinha uma enorme preocupação com as amigas Sueli, Eva. Vivia em pé de guerra com a irmã Francisca, que talvez fosse uma das pessoas que ela mais amava. E Gabi e o pai. E eu estive uns dias com a família dela no Ceará, pessoas que me receberam com uma ternura incrível, os corações enormes. Ela fez Letras quase no mesmo ano que eu, e estudamos espanhol na USP. Para lá íamos eu, ela, Eva e Magdinha. E de um dia para o outro ela morreu indo para o casa no Ceará. E nada se alterou no mundo, como se fosse uma passagem sem significação alguma, talvez porque as vidas se consomem nelas mesmas.
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Mas eu não consigo ouvir nada mais de novos cantores ou compositores sem pensar nela. Eu ainda busco saber sua impressão sobre o que estou ouvindo. E se falo com amigos comuns ou parentes dela, é sempre em Silene que estou pensando, como se ela não tivesse partido, mas consciente do que se partiu, que girou e está outro.
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Maria Cilene jamais terá 40  anos, a sua idade congelou-se no tempo. Vai ser sempre uma menina. E vai se afastar da realidade a cada dia, ficará intacta nas fotografias e será memória viva dos que as conheceram. O fato de eu poder envelhecer e poder experimentar e ver tantas outras coisas é aflitivo, pois não me acho suficientemente capaz de sentir tudo devidamente. Quando lembro dos que partiram, acho injusto o tempo que lhes foi roubado. Então às vezes eu os resgato deste passado comum para revivê-los no presente. É vã tentativa, na verdade, de ser um pouco o que fui e quase se perdeu, resgatar a pessoa que eu era e pensava. Eles (e ela) que me ensinaram a pensar tudo de uma maneira tão feliz e melhor.

[Hoje eu encontrei perdido no computador este texto de 18.2.2008, foi postado em POLAROIDES PANORÂMICAS, um blog que não há mais. E resolvi postar com memória da saudade de Silene.]



Enquanto isso


Intro: G C G C


   G
Enquanto isso
anoitece em certas regiões
E se pudéssemos
                  C       
ter a velocidade para ver tudo
               G
assistiríamos tudo
A madrugada perto
da noite escurecendo
ao lado do entardecer

a tarde inteira
      C
logo após o almoço
G
O meio-dia acontecendo em pleno sol
                          
seguido pela manhã que correu
desde muito cedo
e que só viram
        C
os que levantaram para trabalhar
                  G
no alvorecer que foi surgindo.