domingo, dezembro 28, 2014

RESÍDUO

De tudo ficou um pouco

Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

[Eu, que já fui muito melancólico, solitário e introspectivo, ao descobrir Drummond, me senti abarcado por uma perspectiva ao mesmo tempo angustiada, pessimista e até cínica, do mundo. Com Drummond, eu descobri que eu pertencia a uma classe de pessoa que padece de inquietação existencial.  Eu já tinha em mim essa descrença no próximo, e esse sentimento premente de perda. O tempo foi suavizando tudo que havia de mais melancólico em mim, e que me engessava. Cresci, ganhei coragem de fazer muitos movimentos abruptos para vida e adquiri um apreço ainda maior pela minha liberdade de ser e de sentir. Nunca consegui estar 100% confortável com a pessoa que sou, mas sinto que estou no caminho. Mas algo que sempre ocorre é esse meu retorno a Drummond. 

Sempre rezo em igrejas. Agradeço. Peço. Sempre me recolho. Me repenso nos fins de ano. Me renovo no amor aos meus sobrinhos, aos meus irmãos, minha mãe e amigos. Cada dia reforça e comprova a minha vocação para a solidão. Não há dor nisso (mas já houve). Tudo isto está em mim, é um modo de ser, que não exclui encontros e esperanças. Aproveitei o fim do ano e vasculhei todos os fins do ano no meu Revide. E descobri a grande fidelidade que tenho aos meus pensamentos. E ler/apresentar Drummond para o Gabriel me fez um bem enorme]. 

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