sábado, setembro 20, 2014

Je suis nostalgique?



Não tenho memória, então fotografo. Antes da febre de fotografar atual, já tinha a febre. Aos 30, percebi que não tinha registro do passado, pois não gostava de me ver. Para piorar, sem registro de imagem, misturavam-se os passeios. Já não sabia onde, quando, com quem. Comprei uma máquina, antes das digitais. Outras, depois delas. Tenho hoje uma Sony, que empresto, mas não vendo; uma Canon que adoro; recursos no celular. Fiz finalmente meu Instagram, mas tenho feito do Facebook e do Revide um verdadeiro fotolog. Não sei se isso é bom. Mas vou fazendo.



Gosto da permanência. Me apego ao registro presente, que me escapa, breve, é passado, mas o instante único, materializado na imagem, fica. E olhando, recupero a memória desse tempo. E as emoções. Às vezes, por uma perversão do sentido, a memória passa a ser a da foto. Lembro-me da foto, antes do acontecimento, como coisa admirável, bela, possuída. Com o advento do digital quintupliquei a quantidade de registros, guardei-os em mídias de cds e dvds. Com a promessa de fazer uma pasta de retratos familiares para presentear minha mãe em seu aniversário fui atrás. Descobri que muitos cds estão imprestáveis, não permitem leituras. Fiquei puto. Decidi pôr no computador tudo o que podia, e gravar num hd externo esses registros fotográficos e em vídeo restantes. Tenho feito isso, nas horas em que posso, entremeando trabalhos urgentes. Dia desses, resolvi postar no Facebook várias dessas imagens passadas.



Começou o problema.



Recebi em inbox várias mensagens perguntando se eu estava bem. Afirmando que eu estava nostálgico. Depressão ou câncer parecem ter por princípio a nostalgia, segundo alguns. Já as fotos do presente, alguns diagnosticam como narcisismo, que é sintoma, contraditoriamente, de autoestima baixa. Minhas fotos viraram um caso clínico. Por isso escrevo agora. É bom, ando sem tesão para fazer post para o Revide. Isto é uma justificativa, parece cinismo, mas é reflexão e afeto. Ok. É cinismo também.



Não, não me sentia em nada nostálgico, tenho um presente extraordinário, mas gosto dos meus amigos, sinto "saudades deles" e resolvi homenageá-los, e ao mesmo tempo, lembrar-lhes que eu estou aqui, presente, e muitas vezes ciente de seus movimentos. Então descobri que nostalgia é um mal. 



Segundo o Dr. Houaiss: a palavra provém do francês  nostalgie , e significa "estado de tristeza causado pela distância do país natal". Aí vem a Psicologia e diz: "distúrbios comportamentais e/ou sintomas somáticos provocados pelo afastamento do país natal, do seio da família e pelo anseio extremo de a eles retornar. Ou, apenas: "saudades de algo, de um estado, de uma forma de existência que se deixou de ter; desejo de voltar ao passado. Estado melancólico devido a aspirações, desejos nunca realizados. Estado de tristeza sem causa aparente." Umas coisas até que batem, não tudo. Desejo de voltar ao passado, por exemplo, não confere. O passado foi uma merda. Mas queria ter mais tempo para aproveitar aspectos da vida que só aos 20 parecem pertinente, ainda mais por que aos 20, ou não foram vividos, ou foram vividos pessimamente. 



Ou seja: não, não era de fato nostalgia. Vejo que minha intensão - e perscrutando este inconsciente - era me reconectar com pessoas, já que estou me sentindo isolado de tanto que este trabalho (tese) atual tem me consumido. Vontade/desejo talvez da presença fortuita dos demais, se bem que esteja semanalmente conectado com várias pessoas, alunos, mãe, irmãos, amigos. E tem o lance do fim de relacionamento, que bota a gente em crise e faz a gente se reavaliar, ver o caminho a se seguir, já que o vivido - mesmo que se queira - não admite resgate. Já que o que é líquido, se desmancha no ar.


Olho as fotos e vejo que estou mais bonito agora, mas que o prazo de validade da gente é curto. Evitei postar imagens de pessoas que já morreram. Cilene é uma exceção, pela alegria da foto, tão viva. Essas fotos mobilizaram muitas pessoas, recebi também mensagens bonitas, ligações, pedidos. Percebi que outros amigos já se foram para sempre, no seu Ok fingido de amizade. Não vou atrás. A gente está reescrevendo é no agora algo que pode, nem mesmo, ser lido depois. Mas gosto de narrativas. Componho as minhas. Enquadro bem. Tenho olho para luz e para palavra. E sigo com meus registros, querendo que eles sejam cada vez melhores, capazes de captar - não de reter - a efemeridade das experiências, dos lugares, dos encontros e dos amores.  



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