terça-feira, setembro 02, 2014

A culpa é das estrelas


Drama mulherzinha. 80% do tempo fala-se sobre sentimentos, 15% sofre-se sob o impacto de uma música dramática, 5% alguma ação, beijo e sexo. Adaptado de um romance best seller que virou fenômeno global. O personagem masculino só existe em função da "heroína", para favorecer seu desabrochar, destravá-la para o amor, possibilitar que realize seus sonhos românticos, para ouvi-la, segui-la, ter paciência de santo, compartilhar seu livro preferido, vigiar seu sono, cortejá-la intermitentemente (sem pressioná-la, com a doçura de uma moça), levá-la para viajar, e resolver o problema da virgindade (por iniciativa dela, desde o beijo, já que na cama, o frágil e virginal é ele). O rapazinho não tem existência própria (mas que homem em todo filme tem? todos estão ali para amar, ser companheirão das amadas e falar de sentimentos). As mulheres não fiéis são más (a namorada o amigo ceguinho), e os homens que não compartilham os sentimentos são maus e vilanescos (o crápula autor do livro preferido da moça). Aliás, as mulheres guiam e norteiam o filme (a mãe abnegada, compreensiva, doce; a assistente/esposa do escritor que tentar libertá-lo, a médica, a mãe do falecidinho). O próprio mocinho carece de existência própria, já que os pais só surgem no velório, e ele só está ali para morrer no final para intensificar a dor da protagonista. É tão inóculo e sem sabor quanto o cigarro (que o politicamente correto) transforma em metáfora para uma vida bem sem sal.  Começa até que bem, como filme romântico com autores belos e carismáticos. Não falta os clichês do melodrama para meninas: o amor à primeira vista, a viagem (internacional), o vestido pefeito (a surpreender o mocinho), o jantar no restaurante chique (com champagne), a suave noite de amor/perda da virgindade. Nada demais, porém, lentamente vai degringolando para uma sádica valorização da morte repleta de discusos-do-coração. Dois momentos morte/amor são significativos, o primeiro beijo do casal acontece no quarto onde Anne Frank ficou presa e morreu de fome, o segundo, é a mocinha e o amigo simularem numa igreja diante do moribundo o discurso que farão em seu velório. Ok que esse negócio de o amor perfeito é justamente aquele que nunca se realiza plenamente e que sucumbe/e sobrevive para além da morte no coração de quem fica. Mas não deixa de me estarrecer, sempre que vejo esses filmes-fenômenos (com mocinhas suspirando), que psicologicamente algo vai muito mal na cabecinha das novas gerações.

Um comentário:

marcio_LG disse...

Curioso como uma obra cinematográfica necessita de nosso olhar, da nossa compreensão para ser muito mais (ou muito menos) do que pretendia ser. E tudo isso que vc viu de fato está lá, mas não há saldo negativo na concepção dessa "love story ", acho que cada geração merece a sua. O filme pede um mergulho, um permitir-se sentir o amor, que é amor desde o início dos tempos, que é clichê, mas peça crucial de nossas vidas. E o amor, aqui, se realiza plenamente.