segunda-feira, agosto 25, 2014

Resenha de Isabela Boscov para o filme Star Trek - Além da Escuridão



J.J.Abrams começou retomando o otimismo do seriado original de 1966, e pouco a pouco o vai substituindo por algo mais próximo do mundo em que seus espectadores vivem hoje. Vale dizer, um mundo em que branco e preto se fundem num sem-número de tonalidades de cinza - em que não há propriamente vilões, e sim ameaças, e no qual não mais se sabe de onde elas vão surgir. Por último, e mais importante, J.J. compreende que as ameaças de dominação mundial (ou supragaláctica, no caso de Star Trek) dos velhos vilões não mais fazem sentido. Hoje não há impérios querendo dominar, mas loucos buscando destruir. Tudo é pessoal; tudo nasce do ressentimento, do rancor, do sentimento de que injustiças foram cometidas e devem ser vingadas. Escolher um adversário para a tripulação da Enterprise, hoje, é portanto uma tarefa que requer fineza. No primeiro filme, Eric Bana, cegado pelo luto, movia literalmente céus e terras para punir Spock por uma perda familiar. Em Além da Escuridão, estes três conceitos - adversário, família e perda - ganham novo caráter, e máxima potência, na escolha de uma figura espectacular: Benedict Cumberbatch (...) John Harrison, o agente rebelde da Federação que bombardeia a sede da Tropa Estelar e massacra vários de seus colegas, dá sinais de que está cumprindo uma agenda terrorista cuidadosamente estabelecida: ataca alvos simbólicos do poder da Federação e então foge para uma zona periférica do império Klingon. Conta não apenas com a inevitável retaliação, mas com o fato de que qualquer invasão federativa nesse espaço será considerada pelos klingons um ato de guerra. Em fúria com a morte no atentado de seu mentor, o almirante Pine, o capitão Kirk se oferece para a missão ao almirante Marcus. Marcus quer guerra; Kirk quer vingança; e Spock quer dissuadi-lo de executar o inimigo sem julgamento, já que há algo fora de esquadro neste cenário:  uma sugestão difusa de que a tripulação da Enterprise ignora alguns dos elementos que estão em jogo e nao passa de um peão no tabuleiro. 


[Fragmento de uma crítica de Isabela Boscov, para o filme Além da Escuridão, de J. J. Abrams. Provando que há muito mais a se "ler" num filme de aparente entretenimento, e de que uma boa resenha pode ser sim, um exercício de inteligência. ]

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