terça-feira, agosto 26, 2014

A ausência das fadas



Então as fadas sumiram, assim, como num passe de mágica. Desapareceram no ar. Sem sino, sem varinha de condão, nem um rastro de pó. Eram uma vez. Foram. Foram-se dali.

Em todo reino, sentiram a grande falta. Sem fadas, uma abóbora era só uma abóbora e toda roca, uma ameaça de sono e sangue. Tristes de fato ficaram as moças, já de si tão infelizes, na escassez de príncipes, sem a esperança de um destino de bailes, casamentos; sem ao menos o consolo de anões.

Então o rei mandou buscar seus sete filhos. Que viessem logo, que o caso era urgente. Chegaram num galope, altivos e belos. Eram robustos aqueles moços e fizeram as moças tremer. Mas não estavam ali para festa. Demandados, partiram velozes em seus corcéis para os quatro cantos do mundo. Tudo, para nada. Com seus falcões suspensos no braço, com suas espadas de cortar feras e abrir caminhos, perderam-se entre espinhos, foram devorados por lobos, incinerados por dragões. Muitos tombaram das torres mais altas, presos aos cabelos quebradiços das donzelas, ou de enormes pés de feijão. Uns foram aprisionados, morreram congelados. Outros, viraram sapos, ficaram cegos, doentes, feito duendes. Nenhuma fada os salvou.

Quando soube da noticia, caiu em pranto o reino, uma tristeza de dar dó. Sem filhos e fadas, tudo desencantara-se. Mas o rei, que tinha sido valente, não se deixou abater. Convocou os conselheiros, que vieram. Contudo, estavam mudados, confusos de gagás, os olhos esbugalhados, tortos sorrisos sem dentes, tartamudos e meio surdos. Pareciam nada escutar. Tão Tantãs, que não demoraram a vestir losangos, guizos, puseram bobos até mesmo os bobos.


Mas ninguém riu. O reino não riu. O rei mais que só, ilhado na nota de rodapé.

Alheias a tudo, só umas poucas moças acamadas. Dormiam já seu sono sem fim, sem sonho ou fadas. Eram reais os dias monotonamente cinzentos. Se ao menos houvesse um cavalo, decapitado que fosse, cuja cabeça falante indicasse, com tristeza, o paradeiro das fadas. Não havia, só esses a pastar e ruminar indiferentemente, o pasto comido. Não havia beijos de final feliz.

Mas o rei, que gostava das alturas, subiu na torre mais alta, pois tudo é pequeno quando se pode bem ver. Que faziam falta, as fadas, não havia dúvida. Sem elas, nenhum desejo a mudar este reino. Por certo que se escondiam. Mas por que do sumiço? Presas na torre, raptadas, botadas para dormir? Onde estariam? Nunca contara com isso. Mesmo quando invisíveis, sabia fingirem-se ausentes, mas sempre vigilantes do destinos das moças, dos príncipes, dos reis, muito de olho nos finais felizes. O rei chegou a dizer psiu, bater palmas, queria acreditar que estavam ali. Não estavam. Que inimigos fatais poderiam ter dado cabo das fadas? Então o rei se lembrou da bruxa, sua velha, má, e terrível, inimiga.

Partiu ao cair da tarde, o reino afundando em sombras. Todos dormiam. O cavalo batendo os cascos nas pedras do chão, onde os miolos de pão brilhavam à luz da lua indicando o caminho. Apeou do cavalo. Devagar, feito lenhador diante do lobo. A casa era de doce. A bruxa estava a cozinhar, pensou. Bateu três vezes. “Quem é?”, perguntou. “Sou eu, João.”, respondeu o rei, lembrando-se. “Entre”. Entrou. Ele tinha perdido o medo da escuridão.

A porta rangeu quando o rei entrou. A velha estava de costas, no fogão. Estava cozinhando feijão. Você aceita? “Estou sem fome”, ele disse. Ela virou, assustando-o: as orelhas pontudas, o longo e peludo focinho. “Desculpe, disse, tirando a pele do lobo e vestindo um capuz vermelho. “Não é melhor assim? Não pareço, uma menina? e riu. João também. Ou o rei, como quiserem chamar. E se olharam.

Ela achou-o envelhecido, ele também, velhíssima, e linda. “O tempo fez muito bem a você”, disse. E voltaram a ficar calados, mudos, um silêncio de morte. Um corvo crocitou nas sombras.

“Mostre-me sua mão”, ela pediu, para quebrar o gelo. Ele estendeu-a, mas com receio. A dela era fria e branca, como a neve. Ela se concentrou no dedo indicador. “Está gordinho, finalmente.”

Assustado, ele puxou a mão. El riu alto, maléfica ou encantada, sabe-se la.

A casa era pequena, escura. O olho esperto dele descobriu um gato preto (ou pardo), na sombras, sem miar. Na fruteira, maçãs vermelhas, lustrosas; rabanetes murchos. Escorando a porta, uma vassora gasta e no caldeirão, um vazio infinito, de cobre. Ela vivia só, andava com dificuldade, ninguém mais a vinha visitar, pedir desejos. Por certo mal enxergava. O espelho atrás, coberto por um trapo. João teve pena dela.

“Pegue. Prove este mingal”, disse, estendendo-lhe um pratinho.
“Está muito frio”, comentou, mal pondo na boca.
“E este outro?”, o prato era maior.
“Quente demais”, quase me queima a língua.
“Veja este, se não está melhor.”
E ele pousou a colher no fundo, e parou olhando para ela, antes de levar à boca.
“Não é a primeira vez que lhe mato a fome.”
Ele assentiu e comeu, as colheres cheias.
“Estava uma delícia, obrigado. É tarde”
“Não tenha pressa. Venha, deite-se na cama”.
Ele deitou. Ela cobriu-lhe os pés, para que não entrasse friagem. O corpo mole, sentiu que encolhia naquela altura.
O colchão largo, o cobertor pesado, de urso. Ele não tinha cachinhos dourados. O que viera fazer a essas horas da noite tão longe? Não lembrava. Ou... Apertou os olhos, reconhecendo-a. Estava bem diferente de quando o deixara perder-se solitário na grande floresta do mundo, onde tudo era obscuro, amargo, lupino. Onde não havia fadas. Então lembrou. Era isso que viera perguntar a ela, a grande gansa, a guardadora, a maior de todas.
“As fadas...” - sussurrou – Sabe onde estão as fadas, mãe?
“Sim, sei onde estão. Quer que lhe conte?”
“Por favor, disse o rei, disse João, ou disseram ambos, já metidos na névoa do sono.”
“Ela arrastou-se até o fundo da casa e o trouxe consigo. Era grande, largo, finas lâminas brancas de papel.”
Um minuto, disse, abrindo-o, a voz antiquíssima, de avó e de mãe.

Ela então disse “era uma vez”. E houve fadas.  


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