quinta-feira, julho 03, 2014

"Mensagem" e "Todas as cartas de amor são ridículas"



Quando o carteiro chegou
E o meu nome gritou
Com uma carta na mão
Ante a surpresa tão rude
Nem sei como pude
Chegar ao portão

Vendo o envelope bonito
E no seu sobrescrito
Eu reconheci
A mesma caligrafia
Que disse-me um dia
Estou farto de ti

Porém não tive coragem
De abrir a mensagem
Porque na incerteza
Eu meditava e dizia
Será de alegria?
Será de tristeza?

Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha
Uma carta nos traz
E assim pensando rasguei
Tua carta e queimei
Para não sofrer mais

Porém não tive coragem
De abrir a mensagem
Porque na incerteza
Eu meditava e dizia
Será de alegria?
Será de tristeza?

Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha
Uma carta nos traz
E assim pensando rasguei
Tua carta e queimei
Para não sofrer mais

E assim pensando rasguei
Tua carta e queimei
Para não sofrer mais

[Aldo Cabral e Cícero Nunes - 1946]

*

[Todas as cartas de amor são ridículas
Não seriam cartas de amor, se não fossem ridículas
Também escrevi, no meu tempo, cartas de amor como as outras, ridículas
As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas
Quem me dera o tempo em que eu escrevia, sem dar por isso, cartas de amor ridículas
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas

Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: "será de alegria, será de tristeza?"
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais.]

[Álvaro de Campos/Fernando Pessoa]

*

Quanto a mim o amor passou...
Eu só lhe peço que não faça... Como gente vulgar...
E não me volte à cara quando passa por si...
Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor...
Fiquemos um perante o outro...
Como dois conhecidos desde a infância...
Que se amaram por quando meninos...
Embora na vida adulta sigam outras afeições...
Conservam nos caminhos da alma...
A memória de seu amor antigo...
E inútil...

[Fernando Pessoa]




[Li há alguns meses um conto magnífico - "Mientras el mundo desaparece", de Alejandra Laurencich -  que me remeteu imediatamente a essa canção chamada "Mensagem". Está no livro Lo que dicen cuando callan, da Alfaguara, edição argentina.. Infelizmente, ainda não traduzido no Brasil.]

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