quinta-feira, julho 03, 2014

Greta Garbo, segundo Ingmar Bergman


Houve um silêncio. De repente, ela tirou os enormes óculos de sol e disse: "Assim sou eu, senhor Bergman". O sorriso foi rápido, ofuscante e malicioso. 

É difícil dizer se os grandes mitos são sempre mágicos porque são mitos ou se a magia é uma ilusão, criada por nós, consumidores. No momento, não houve dúvida. Na semiobscuridade do apertado gabinete, sua beleza era imortal. Se eu encontrasse um anjo saído de algum evangelho, teria dito que sua beleza emoldurava a beleza dela. Era como se houvesse uma força vital ao redor dos traços grandes e limpos do rosto, da testa, dos olhos, com aquele queixo nobremente formado, a sensibilidade das narinas. Ela logo percebeu minha reação, tornou-se afetada, começou a contar sobre o trabalho com A saga de Gösta Beling. 


Subimos ao pequeno estúdio e fomos ao canto esquerdo. Lá ainda havia um buraco no chão deixado pelo incêndio de Ekeby. Ela nomeou todos os assistentes e eletricistas; todos, menos um, tinham desaparecido. 
(...) 

Greta Garbo riu seu riso estridente, limpo. Lembrava-se de que ele a alimentava com biscoitos de gengibre caseiros. Ela nunca ousou recusá-los.



Demos uma rápida volta pela área. Ela estava vestida com calças compridas e um casaco elegante, movia-se energicamente, seu corpo era vigoroso, atraente. 


Ela se inclinou na direção da escrivaninha de modo que a parte inferior do rosto ficasse iluminada pela luz da mesa. 

Então vi algo em que não tinha reparado: sua boca era feia! Um corte pálido cercado de rugas transversais. Era estranho e perturbador. Toda aquela beleza e no meio um acorde destoante. A boca, ou o que contava, nenhum cirurgião plástico nem maquiador podia fazer desaparecer. De imediato, ela leu meus pensamentos e calou-se, entediada. Alguns minutos depois nos despedimos.



Estudei-a em seu último filme, ela tinha 36 anos. O rosto é bonito, mas tenso, a boca, sem suavidade, o olhar é em geral desconcentrado e triste, apesar das situações cômicas. Seu público talvez suspeitasse do que o espelho diante do qual se maquiava já lhe contava. 


in Lanterna mágica - autobiografia de Ingmar Bergman. Cosac Naif. São Paulo. SP. p. 254



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