quinta-feira, julho 03, 2014

Eu não entendo nada de futebol, mas meu coração entende tudo (crônica de Susana Ventura)


Por Susana Ventura

Eis-me de volta após prolongado resfriado e muita emoção causada pela Copa do Mundo. Eu não entendo nada de futebol, mas meu coração entende tudo e gosta. Tenho visto muitos jogos, sofrido demais em alguns. Minha torcida é pelo Brasil, é claro, e depois anda em função da minha geografia pessoal: Portugal em segundo lugar e depois lá vou eu com minha cartografia emocional – times de países latino-americanos e, dentre eles, privilegio todos os da América do Sul (incluída a Argentina).

Contradizendo o que acabei de afirmar, torci alucinadamente para a Argélia, prevendo o embate que gostaria de ver: Argélia e França, com Argélia dando um banho na França. Quase deu, mas não deu. Baixei a cabeça e voltei para meu eixo: Brasil, na cabeça e no coração.

Boas alegrias, muita apreensão, o lado épico que aflora nos hinos berrados a plenos pulmões, em que se promete lutar pela pátria até a vitória ou a morte.

A infinita possibilidade em 90 ou 120 minutos: o fraco pode vencer o forte; o favorito pode perder; David e Golias redivivos espreitam por cima do meu ombro vestido num casaco amarelo...

Em época de mundial, minha vida não tem sido só futebol. Comecei um novo trabalho e estive visitando alguns CEUs (CEU - Centro de Educação Unificada).

Ônibus e lotações (as ‘peruas’) me levaram a regiões diferentes da cidade, para bem longe da linha do metrô.

Uma das ‘peruas’ rumou Paraisópolis adentro. Desci no meio da comunidade, caminhei um pouco pelas ruas cheias de bandeiras do Brasil, algumas delas ‘customizadas’ a gosto dos donos. Numa, de pano, o escudo central fora substituído pelo emblema do time de futebol preferido. Noutra, pintada numa parede, o escudo estava mantido, e na faixa, no lugar de ‘Ordem e Progresso’ estavam escritos, em caligrafia infantil, os nomes Lu, Alê, Jr. e Beto.

Uma senhora, passageira do primeiro transporte, ao saber que eu iria ao CEU pela primeira vez para trabalhar, se preocupou comigo.

Ela ia descer antes de mim, mas ‘me recomendou’ a uma outra passageira, porque seria preciso andar um pouco para tomar o segundo transporte  e eu poderia me perder.

Gol do Brasil da vida real! Agradeço.

Gentileza atrás de gentileza, caminhei pelas ruas da comunidade ao lado da minha segunda guia, que atravessara a cidade para levar o irmão doente, para tratamento médico. Passava da uma da tarde e ela disse: ‘não almocei nem vou almoçar, tenho que deixar ele em casa e tomar dois ônibus para meu emprego que é em Osasco. Tudo é tão longe e difícil’.

Gooool, da adversidade...

Despedi-me deles, agradecendo, desejando as melhoras.

Tomei outra lotação, na frente do cabeleireiro que anunciava fazer cortes ‘da Copa’. Crianças andavam de mãos dadas com os pais, um homem passou usando uma camisa de Portugal. Número 7, Cristiano Ronaldo.  Embarco. Um menino passou correndo numa rua lateral. Camisa 7 também, roxa, não consegui ler o nome do jogador, e assim, não saberei que país vestia os sonhos de craque daquele menino que possivelmente não tornarei a ver.

Chego às imediações do CEU, desço no ponto indicado, pergunto a um senhor onde fica o CEU.

(Paro e sorrio acanhada ao me flagrar adulta perguntando a outro adulto onde fica o céu...)

 Ladeira abaixo está o belo complexo, lado a lado com o terreno baldio em que um sofá de tecido vermelho abandonado compõe o cenário com o chão de terra vermelha de onde parecem pular duas traves brancas. No meio do ‘campinho’, meninos correm atrás de uma bola verde amarela.

Chego ao CEU, entro na biblioteca decorada com bandeiras de papel de todos os países participantes da Copa, arte assinada  pelas crianças. Sobre a mesa da biblioteca os jornais com notícias do futebol.

Gol, do Brasil, goool, da alegria!

Os jornais, estes, naquele e nos outros dois CEUs que visitei na semana, são comprados pelos funcionários, com dinheiro próprio, para não privar os leitores, especialmente crianças, de terem notícias do mundial. Meu coração fica apertado. Conversamos sobre a formação de um Clube de Leitura. Sugiro livros, mas há três anos não chega um só livro novo ali, salvo aqueles comprados com o dinheiro dos próprios funcionários...

Gooooool, da adversidade!

Damos um jeito, driblamos isso, buscamos alternativas e, numa finalização difícil sai o gol.

Gooooool, nosso!

Para acompanhar a Copa tenho uma tabela, oferta de um supermercado.

Vamos lá em casa preenchendo aos poucos, ora um ora outro membro da família, caligrafias diferentes, com a caneta que estiver por perto.

Grudamos na tela da TV e assistimos a todos os jogos que podemos. Estamos felizes, estamos vivendo a grande emoção da Copa do Mundo, desta vez no Brasil.

Para acompanhar a vida que encontro não tenho tabela própria e nem mantenho contabilidade, que é para não colocar mais em risco meu já abalado coração.

Mas acho, mesmo,  que estamos ganhando, porque as pessoas comuns estão fazendo o possível e o que não é possível também para tornarem a Copa inesquecível para elas e para os outros. A bondade e a dedicação, a doçura e a boa vontade de tanta gente me levam adiante, me ajudam, me permitem fazer o pouco que me cabe de uma maneira melhor.

Não sou artilheira, não vestiria a camisa 7, mas sigo com uma sacola de livros andando por aí, falando e, às vezes, também ajudo a fazer gol para o ‘nosso lado’.

Link para fonte deste texto/crônica AQUI.


[Então entro no facebook e me deparo com essa maravilha de crônica da minha tão amada amiga Susana Ventura. Li, fiquei emocionado, não pensei duas vezes em postar no REVIDE para os que vem aqui de passagem, conhecer essa maravilha que é Susana.]

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