sexta-feira, julho 11, 2014

A dona do capuz vermelho





Para além do moinho, vinha, aos saltos, com cesto e pote. Gostava da floresta, da liberdade e não lhe importava o capuz vermelho recobrindo tudo, dando-lhe um nome que não era o seu. A mãe da menina ficara lá atrás, metida entre os trastes da cozinha, expelindo ordens, conselhos, cuidados. Ia só.

A floresta alongando-se aqui e ali, com seus mil caminhos de se perder, com seus perigos, com seus pássaros, devoradores de rastros de pão. Por isso cantava, mas baixinho, pois tinha um inconfessável medo de lenhadores, de machados, de anões. Baixinho, também, porque a cabeça doía. Por que doía a cabeça? Não lembrava. Por certo tropeçara. Tinha um galo na testa. Então não ia só, mas com esse galo na cabeça. 

A casa da avó, além do alcance dos seus olhos espertos, além do moinho, bem depois da ponte e da curva. Sabia doente, a avó; de cama; velhíssima, sempre a demandar cuidados da filha, da netinha, do lenhador. Ia.

Ia, mas por qual caminho? Por esse ou por aquele, mais curto e pedregoso? Que pressa que tinha para não escolher o outro, longo, se já comera? Lá havia flores, as framboesas eram muitas, fartas, e na cesta havia pão ainda quente, para avó que, por certo, não comia muito. E estava fraca, frágil, pálida, a coitadinha. E riu pensando na surpresa de ver de volta o velho chapeuzinho vermelho, que tinha sido dela, depois, da filha e, então, da neta. Todas: Chapeuzinho Vermelho.

Chegou. A casa parecia feita de doce. Errara o endereço? Aproximou-se. Pôs o cesto no chão, as flores colhidas de presente. Bateu. Ninguém respondeu. Bateu novamente. Silêncio. Encostou o ouvido na porta. Achou que ouvia um ruído lá no fundo. Estranho! Bateu outra vez; e já estava preste a dar meia volta quando escutou, finalmente, agagada, a voz rouca cavernosa a perguntar:

“Quemmmmmmmm é?”

“Sou eu, sua linda netinha!” - disse com convicção. 

“A porta está destrancada, abre e entra. Deus te abençoe.”

Num sopro, a porta se abrira. O forno estava desligado, e a casa, um pouco fria. A avó não estava tão mal. Vinha de pé, arcada, passos curtos e pesados, apesar da voz trêmula. Tateava, na penumbra, armários, potes, panelas. “Não tinha ouvido, disse, pois estava a fiar”. A roca num canto, com suas agulhas de furar. Queria um doce? Um ocinho de franco? Havia maçãs, ela aceitava?

Com o galo rubro, meneou a cabeça, no espanto que agora era seu. Esperava a avó enferma, tímida e peluda, olhos famintos, braços de agarrar de ternura; ouvidos, só de ouvir. E a avó, que era toda mel sem veneno, curvada sobre si, pareceu-lhe uma interrogação. Quis chorar, pela primeira vez, sem saber como se portar diante da avó que lhe parecia agora grande e terrível, sua avó lupina, encarquilhada e má. Nesta hora pensou no caçador e tremeu sob o lindo capuz vermelho. Não tinha o direito de usar essa capa de boa menina.

“Vem!”, ordenou a avó. “Você está estranha!”, disse, arrastando-a para cama, com a dúbia meiguice das velhas que habitam doces lares.

O colchão alto, o cobertor pesado, quente e áspero, como o pelo de um lobo. Sentiu sono na cama da avó, um sono antigo, de quem está há mil anos, atravessando florestas; de quem, há mil anos, tem que escolher o caminho certo; de quem, há mil anos, carrega pedras. 

Ágil, a avó deitou-se ao seu lado, na cama. “Para aquecê-la”, disse, aproximando-se mais e mais. O hálito quente, forte, espremendo os olhos. “Para te ver melhor. Estou quase cega, netinha”, disse, prendendo-lhe com força num feroz abraço.

“Que olhos arregalados você tem!” - admirou-se, a avó.

“É de tanto susto que tenho levado, no caminho.”

“E que mãos longas, ásperas, calosas, minha netinha!”

“É de carregar cestas, colher framboesas, vovózinha.”

“E que nariz tão comprido, você tem!”

“De cheirar flores, farejar lobos predadores, vovózinha.”

“E orelhas, tão longas, finas e pontudas!”

“Ficaram assim, avó, dos puxões por não ouvir os conselhos da mamãe.”

“E essa boca, tão grand...” ia dizer, mas o lobo, lembrando que era mau, despiu o capuz, e num salto, devorou sem piedade, a pobre velhinha.


11.7.2014. 

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