sábado, junho 28, 2014

Vida longa e próspera (crítica sobre o filme Star Trek, de JJ Abrams)



Star Trek não cansa porque o diretor J.J. Abrams é um craque. Em Além da Escuridão, seu golpe de gênio é entregar ao estupendo Benedict Cumberbatch o papel de – vilão seria pouco – encarnação de todas as ameaças

Uma explicação simples para o fato de J.J. Abrams ter sido escolhido para comandar a nova fase de Star Wars, agora que George Lucas vendeu a marca à Disney: ele sabe o que faz. Sua ressurreição de Star Trek, que ele iniciou em 2009 e que nesta sexta-feira prossegue com Além da Escuridão – Star Trek (Star Trek Into Darkness, Estados Unidos, 2013), ilustra as múltiplas capacidades do diretor, notáveis individualmente e mais ainda em conjunto. Primeiro, J.J. equilibra o instinto para a inovação com o respeito à tradição, de forma que saiam todos alegres do cinema, os fãs e os não fãs, os meninos e as meninas. É um craque em casar os personagens aos seus intérpretes; Chris Pine não é o melhor ator do mundo, mas é impecável como o impulsivo Jim Kirk, capitão da Enterprise, e o complemento ideal a Zachary Quinto, o racional sr. Spock. Depois, J.J. tem uma visão e um plano para a série: começou retomando o otimismo do seriado original de 1966, e pouco a pouco o vai substituindo por algo mais próximo do mundo em que seus espectadores vivem hoje. Vale dizer, um mundo em que branco e preto se fundem num sem número de tonalidades de cinza – em que não há propriamente vilões, e sim ameaças, e no qual não mais se sabe de onde elas vão surgir. Por último, e mais importante, J.J. compreende que as ameaças de dominação mundial (ou supragaláctica, no caso de StarTrek) dos velhos vilões não mais fazem sentido. Hoje não há impérios querendo dominar, mas loucos buscando destruir. Tudo é pessoal; tudo nasce do ressentimento, do rancor, do sentimento de que injustiças foram cometidas e devem ser vingadas. Escolher um adversário para a tripulação da Enterprise, hoje, é portanto uma tarefa que requer fineza. No primeiro filme, Eric Bana, cegado pelo luto, movia literalmente céus e terras para punir Spock por uma perda familiar. Em Além da Escuridão, estes três conceitos – adversário, família e perda – ganham novo caráter, e máxima potência, na escolha de uma figura espetacular: Benedict Cumberbatch, o Sherlock Holmes da série da BBC, só rivaliza na galeria dos vilões pop contemporâneos com o Coringa de Heath Ledger.



Não que algo além do magnetismo os assemelhe. O Coringa ansiava o caos pelo caos; John Harrison, o agente rebelde da Federação que bombardeia a sede da Tropa Estelar e massacra vários de seus colegas, dá sinais de que está cumprindo uma agenda terrorista cuidadosamente estabelecida: ataca alvos simbólicos do poder da Federação e então foge para uma zona periférica do império klingon. Conta não apenas com a inevitável retaliação, mas com o fato de que qualquer invasão federativa nesse espaço será considerada pelos klingons um ato de guerra. Em fúria com a morte no atentado de seu mentor, o almirante Pike (Bruce Greenwood), o capitão Kirk se oferece para a missão ao almirante Marcus (Peter Weller). Marcus quer guerra; Kirk quer vingança; e Spock quer dissuadi-lo de executar o inimigo sem julgamento, já que há algo fora de esquadro nesse cenário: urna sugestão difusa de que a tripulação da Enterprise ignora alguns dos elementos que estão em jogo e não passa de um peão no tabuleiro. O indício mais urgente de que a Enterprise é uma peça a ser sacrificada é o próprio John Harrison. (E, se alguém escapou até aqui de saber qual sua identidade verdadeira, que permaneça na ignorância.) Guerreiro de habilidades excepcionais, mente de brilhantismo incalculável e personalidade de força incomum, Harrison é, também, um homem que parece ter uma reserva apenas perceptível, mas intrigante, de compaixão: algo íntimo e profundo o move – e comove o espectador e o envolve. Cumberbatch traz para o gênero, assim, uma excelência infrequente nele. E, se notou que seriedade absoluta não é comum neste território pulp, finge muito bem não tê-lo notado.

É improvável, claro, que qualquer coisa passe despercebida a um arar desse calibre. Desde o nome, um acorde atonal que quase exige partitura para ser pronunciado com o estrondo necessário, Benedict Cumberbatch carrega suas muitas singularidades – abraça-as, na verdade – como se elas fossem trivialidades. (No início da carreira, inclusive, cogitou brevemente usar o sobrenome do meio, Carlton; descartou a ideia e foi em frente, e não é de todo improvável que isso tenha contribuído para torná-lo um arar mais destemido.) É tão único que, em pouco mais de quatro horas em cena, virou objeto de um culto global. Educado numa das escolas mais exclusivas da Inglaterra e em duas universidades, e formado no teatro (e também em casa: seu pai e sua mãe são atores), Cumberbatch, de 36 anos, já havia feito trabalhos superlativos (como o físico Stephen Hawking em Hawking; como o primeiro-ministro William Pitt em Jornada pela Liberdade; como um esnobe sem escrúpulos em Desejo e Reparação) antes de, em 2010, aparecer como uma versão contemporânea do detetive Sherlock Holmes numa série da BBC. A matéria-prima é mais do que conhecida e vem sendo explorada também por outros dois ótimos atores, Robert Downey Jr. no cinema e Jonny Lee MilIer no seriado Elementary. Mas aqueles três episódios inaugurais de uma hora e meia cada (uma terceira temporada já está em produção) deflagraram uma verdadeira mania mundial pelo ator alto, de cabelo byroniano, fisionomia estranha e barítono reverberante. A especialidade de Cumberbarch, até aqui, era uma espécie de versão aristocrática e mais desenvolta do Sheldon de The Big Bang Theory: o sujeito tornado socialmente deslocado, e algo assexuado, pela inteligência feroz e impaciente. Só esse último traço é preservado em Star Trek. Cumberbatch alarga aqui os limites da sua presença, e está pronto para saltar do culto mundial ao interplanetário. Identificar o ator que pode sozinho transformar um filme é o lance de mestre de J.J. Abrams em Além da Escuridão. Superar essa escolha, ou ao menos igualá-la, é o desafio que ele tem pela freme no próximo capítulo da série.



ISABELA BOSCOV
Publicado na VEJA - 12.06.2013

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