domingo, junho 22, 2014

A rainha e o esquecimento



Um dia a rainha esqueceu. Esqueceu assim, sem mais nem menos, que é como a gente esquece. Deu o branco, seus cabelos ao vento, tudo era esquecimento diante da gente desconhecida ou não lembrada. Neste lugar que não era o dela, que era para ela um lugar algum. Ofereceram-lhe um casaco, que ela olhava como quem vê um bicho morto que antes estava em fuga. Nenhuma familiaridade nos rostos, nos gestos, na voz zelosa da gente, como se fosse ela uma menina. Perguntaram: onde ia ou aonde, quando se esquecera.  Não sabia, ou encontrava as palavras com que dizer.

Se se de dentro vinha alguma lembrança, sabia-a de longe muito longe, vaga e inexata: de uma caçada, de um baile, de um moço, de uma roca e uma rosa, de um sapato não servindo, e de abóboras ou rabanetes. De sete anões (tinha certeza), e de um espelho que dizia. O que dizia o espelho? Que queria o sapo? E as ervilhas, qual a causa de terem sido plantadas sob tantos colchões?

Quis chorar. Trouxeram-lhe um lenço bordado. Não conhecia aquela floresta, aquele lobo, aquele moinho. Conhecia o avesso do bordado. As linhas lhe eram familiares: longos fios de cabelo formando cachos, tranças a tombar em cachoeiras. Mas tudo era vago, impreciso. Tudo fora-se de uma vez.

No castelo, aflito estava o rei. Reunira em torno da távola os cavaleiros para buscar a rainha. Precavidos, de armadura, arco, flecha, falcão, espada, todos ávidos por mil dragões. Ela que fora e não voltara de levar pote e doce à floresta. 

O rei pensou lobos, casas de doces, feras, maçãs envenenadas. O rei pensou labirintos, unicórnios, duendes de nomes imensos e impronunciáveis. O rei pensou abismos, areia movediça, a escuridão profunda da floresta. E desencantou-se, tão soberana pesando-lhe, na cabeça, a coroa. As amas desamparadas choravam. Não bordavam donzelas no bastidor. Não caçavam os moços nem riam os bobos apalermados.

Passaram-se dias, semanas. Passaram-se meses, anos. Por fim, voltaram ao castelo com a não notícia: a rainha perdida no vermelho e negro dos quatro cantos. O rei menos o reino, desolados. Ele mais que todos, triste-triste-tristíssimo. Assim, meio que pela metade, feito rei de baralho, no leito real deposto, esquecido da dama, descartado. Então o rei mergulhou em profundo sono . E sonhou.

O rei sonhou a rainha, porém a rainha antes do resgate, da morte do dragão, antes da madrasta perversa, das irmãs postiças invejosas. Sonhou-a loura, sonhou-a donzela, sonhou-a quase menina de longos cabelos dourados, sem a prata do tempo: a pele lisa, sem as dobras do tempo. E a voz no veludo, extinta caverna do tempo. Enfim, o rei sonhou-a como antes fora, como já não era, e não seria deveras. E amou-a mais, presa na outra, sabendo-se também distinto do príncipe que fora: o príncipe perdido.

A rainha, ainda mais perdida, sem saber que buscava-o, lembravo-o moço no adormecido da memória. Vagou, esquecida, no labirinto sereno e triste do passado, onde corredores cada dia mais estreitos, replicavam seus passos. Ignorou o riso congelado das caras dos quadros nas paredes, um tal e qual a cara do outro, não fosse a fina camada de pó na superfície, o tear cortinado das aranhas. Quando deu por si, viu-se diante da fonte dágua arrebentada. Assim a encontrou o rei ao chegar no jardim onde a floresta estendera seus tentáculos de ramas. E tudo era ruína e espinho, não fosse a rosa reclinada à fonte.

Ele a chamou pelo nome, mas ela não se virou. Entretinha-se com a imagem represada no reflexo, o refluxo tremembundo da água. Ia dizer: espelho espelho meu... Mas ele arrebatou-a num abraço antiquíssimo que ela também, velhíssima, correspondeu, reconhecendo-o num flácido gesto de amor. Beijaram-se. Ela era todas as princesas sonhadas, e era única, sua, a mais amada. Nuvem nova no céu, sua noiva. Predestinavam-se. E infinitamente foram felizes, outra e mais outra, como se fora uma única vez.



12 09 2013

[ conto de fada ]

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