sábado, maio 24, 2014

Elles, de Malgoska Szumowska.



Binoche não erra. Elles é uma prova disso. Uma jornalista de origem burguesa, Anne, escreve para revista Elle uma matéria sobre jovens que se prostituem. Da imigrante polonesa Alicja à francesinha de origem suburbana, Lola/Charlotte, o choque entre ideias pré-concebidas sobre a relação entre as moças e os clientes, sobre origens, motivações e tabus. No encontro, a jornalista sente aflorar suas próprias frustrações (sexuais, em grande parte), tangendo também questões sobre valores morais, maternidade e envelhecimento. Interessante observar como a rica e sofisticada Anne termina por reproduzir os clichês das próprias revistas femininas (Elles). É uma mãe amorosa e atenta, uma bem sucedida e contumaz jornalista dentro e fora de casa (fazendo pesquisa de campo, enfrentando adversidades, lutando e galgando sucesso para fazer publicar sua matéria), uma mulher com o dom de bem cozinhar, de nunca descuidar da alimentação (da geladeira), uma filha amorosa/carinhosa com o pai idoso, uma mulher com tempo para ginástica (com exercicios feitos com videoaulas), anfitriã de bons jantares, bela, sofisticada e sensual ao se vestir, e sexualmente desejável com seu casamento estável com um homem de negócios bem sucedido. Isto tudo, ao longo do filme vai sendo desarmado, até perceber o quão pouco de controle ela tem sobre a própria vida. A crise reside neste desarmar gradual da personagem em contato com o empenho das moças (que se prostituem galgando uma ascensão que lhes é vetada pela origem pobre e poucas oportunidades de crescer via carreira/estudo) e do próprio exercício, feminino, complexo, da própria sexualidade. As tensões familiares perpassam as personagens - mulheres lindíssimas - mas o que há de mais interessante, é que ao se desnudarem revelam igualmente os anseios, frustrações e perversidades masculinas. Anne radicalmente se acha tentada a sair do mundo arregimentado/organizado que insiste em se desencaixar (a metáfora da geladeira que não fecha é ótima) e provar o gosto pleno da feminilidade (o extrair das ostras da concha e saboreá-las). Um brinde à exuberância sexual feminina (intensa e agressiva) que o filme expõe e manifesta com aquelas contradições que envolve intensamente castração e desejo. Mais feminino, impossível. Salve a diretora Malgoska!!!!. Salve Binoche. Salve a bela entrega de  Anaïs Demoustier e Joanna Kulg.














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