terça-feira, abril 22, 2014

Vanessa da Mata - Segue o som


Lentamente ela vai perdendo o fôlego como artista que trazia algum frescor à música brasileira. O ar de diva tropical segue interessante, mas a música que modernizava ritmos tradicionais perdeu para um pop urbano de mero divertimento. "Segue o som" é um disco cheio de letras de aconselhamento, umas a beirar a autoajuda, com letras falastronas e um feminismo tolo. Interessante se fosse de fato politizado. Tanto aconteceu/acontece no Brasil, e a mpb imiscuiu-se do debate, não sei se para preservar patrocínios ou garantir ganho/espaço no oba-oba da onda COPA. O que acontece é que Segue o som traz críticas genéricas à banalização de tudo (consumismo, egocentrismo etc), contra a poluição do meio ambiente (comum em seus trabalhos) e "denunciando" injustiças e o desiquilíbrio de poder no "mundo". Vago, genérico mesmo.

Sub-repticiamente há a ideia de que tudo tem que passar pela consciência de si e pelo coração. Não há política, problema social, história, conjuntura: todos os problemas se solucionarão com base no nirvana do amor. Daí o tom de exaltação à metafísica, ao sagrado, um sagrado de viés animista. Ou seja, a conexão com as pedras, as árvores, as flores: a adesão ao o amor e ao divino na construção de mundo melhor. Um animismo (religião e ecologia refundida) como resposta a todas as carências. E quem pode ser contra o discurso de fraternidade, amor, respeito à natureza à lá SandyJr?

O cd é bom no que traz de dançante, no seu reggae singular, mas ali no fim pegando onda no tecnobrega de Amaranto. Segue o som com coisas do anterior, mas perdeu o que aquele trabalho tinha de bacana: tropicalista, erótico, jocoso, festivo sem ser vazio, fazendo menos discursos e trazendo crônicas bonitas do Brasil.

Essa mudanças de rumo parece espelho de certo ar de "já ganhei" da própria artista, um tanto mais poser/fashion/produzida. Segue o caminho de Marisa Monte: um crescente ar arrogante que soterrou a moça meio brejeira, algo tímida, com menos certeza sobre o talento. O que havia de interior nela só ficou nos tons florais da roupa, mas tudo nela parece imagem e produção. Por isso o recado que canta (de autoridade) mais pelo conteúdo do que pela forma, contradiz com o que apresenta.

Achei que Jobim lhe traria maturidade para melodia e letras mais complexas, mas a experiência não rendeu frutos visíveis/audíveis. Mas ela segue sendo interessante, e há ganho naquilo que faz dançar. Como o de Maria Rita, valerá bem na esteira da academia.



Nenhum comentário: