terça-feira, abril 08, 2014

São Francisco Xavier dormindo (Padre Antônio Vieira)



Temos a S. Francisco Xavier dormindo, e não só dormindo, mas sonhando. E se o sono é imagem da morte, os sonhos de que serão imagem? Agora e amanhã o veremos, e também ao outro dia, e no mesmo santo de que havemos de falar. O sono é imagem da morte, e os sonhos são imagem da vida. Cada um sonha como vive: Ea maxime somniamus quae agimus, aut acturi sumus, aut volumus —disse Aristóteles: Os sonhos são uma pintura muda, em que a imaginação, a portas fechadas e às escuras, retrata a vida e a alma de cada um, com as cores das suas ações, dos seus propósitos, e dos seus desejos. — Faraó, como providente príncipe, sonhava com a fome e com a fartura do povo: o seu copeiro-mor, e o outro ministro da mesa real — que não tem nome nem ofício nas nossas cortes — um sonhava com a taça, outro com as iguarias; o soldado madianita sonhava com a espada de Gedeão; Nabucodonosor sonhava com impérios e monarquias; cada um, enfim, sonhava de noite com o que exercitava de dia. Galeno, para conhecer os humores do enfermo, manda observar os sonhos; e também se podem observar para conhecer os afetos, que são os humores da alma. O melancólico sonha coisas tristes e trágicas, o sanguinho sonha felicidade e festas, o colérico sonha guerras e batalhas, o fleumático creio que não sonha, porque não vive. Até no estado da inocência reconheceu Santo Agostinho que havia sonhos, mas logo advertiu que eram semelhantes à vida: Tam felicia erant somnia dormientium, quam vigilantium: Eram tão felizes os sonhos quando dormiam, como era feliz a vida quando vigiavam. — Porque o dormir é conseqüência do viver, e o sonhar, do modo com que se vive. O vicioso sonha como vicioso, o santo como santo. Bem, seguro vai logo o nosso discurso sobre o Evangelho e as vigias que ele pede sobre os sonhos de Xavier, pois veremos que tam felicia erant somnia dormi entis quam vita vigilantis[12].

A razão desta filosofia é porque os sonhos são filhos dos cuidados, como muitos cuidados filhos dos sonhos: (...)

Aqui comecei a reparar; torno ao livro com mais cuidado, passei muitas folhas e muitos capítulos, leio, e dizia desta maneira: Estando o santo em Lisboa, para partir para a índia, ofereceu-se-lhe em sonhos uma representação menos decente do que sua virginal pureza permitia, e foi tanto o horror, tanta a aversão, e tão extraordinária a força do espírito com que o valoroso soldado de Cristo rebateu e lançou de si aquele pensamento, que se lhe abriram as veias violentamente de puro resistir, e acordou com o rosto todo banhado em sangue! Raro caso! Estranha e inaudita maravilha! Mas também aqui sonhava Xavier, também aqui terceira vez estava dormindo. Que vos parece, senhores, que faria neste passo tão repetidamente apurada, senão a paciência, a diligência? Por uma parte o Evangelho a pedir vigilâncias em cada regra, por outra o santo a mostrar-se dormindo em cada página: que é o que havia de fazer? Resolvi-me enfim em seguir a aventura, fosse caso ou fosse mistério, e a fazer da dificuldade resolução, respondendo a um acinte com outro acinte. Já que o Evangelho manda vigiar, e Xavier se nos representa sempre dormindo, o sono e os sonhos de Xavier sejam a prova da sua vigilância. Querendo, pois, reduzir toda esta grande matéria a uma só proposição, como costumo, a empresa ou o assunto que se me ofereceu era este: que S. Francisco Xavier foi tão grande santo dormindo, como os maiores santos acordados. Tão grande, disse, e ainda me vinha ao pensamento dizer maior. Os outros santos, para serem santos, é-lhes necessário que vigiem; S. Francisco Xavier, para ser maior que os maiores, basta-lhe que durma. Esta é a proposta que se me oferecia à fantasia, como se eu também sonhasse; mas nem a minha devoção se atreve a tanto, nem se contenta com menos. Direi o que puder provar, e então saberei eu, e julgarão os que me ouvirem, o que hei de dizer.

[]]Eram tão felizes os sonhos quando dormiam, como era feliz a vida quando vigiavam. — Porque o dormir é conseqüência do viver, e o sonhar, do modo com que se vive].

XAVIER DORMINDO E XAVIER ACORDADO, 
Sermão de Padre Antônio Vieira. 


2 comentários:

marcio_LG disse...

Acho que o tipo é sanguíneo e não "sanguinho". ;)

Eduardo Araújo disse...

Sim, tenho certeza. Mas mantive como esta publicado no original.