quinta-feira, abril 17, 2014

De como não vemos a Arte de Ron Mueck.



Está em cartaz no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, até primeiro de junho de 2014, a exposição composta de sete esculturas do canadense Ron Mueck. Recém chegada de Buenos Aires, repete aqui o sucesso de público que conquistou não somente na Argentina, mas que segue fazendo no mundo por onde aporta.



Mas antes mesmo de ser sucesso em exposição, Ron Mueck já se consagrou na internet como um dos artistas mais vistos, acessados (via Google), curtido e replicados em mil postagens no Facebook. Ou seja, sua escultura chapada em pixels já seduziu uma massa de expectadores que jamais qualquer exposição sua poderá reunir. Ron Mueck é um fenômeno, ainda mais se pensarmos na arte escultória que só consegue mobilizar grandes hordas tão somente quando um artista é hiper consagrado (pensemos em Rodin, ). A arte da escultura é seara para poucos, e menos ainda se contemporâneos. O que faz de Ron Mueck atrativo à um público composto de gente de toda idade, sexo, credo e nível social; ou seja, não-expertos, a dita "gente comum que raramente/ou nunca vai à exposições, ainda mais em espaços elitizados como galerias e museus cada vez mais carentes de atenção?



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Especulo que vão pelo fato de Ron Mueck ser o Paulo Coelho da escultura.

Se Paulo Coelho, assim como os demais autores de best sellers, fazem uma literatura para um público que normalmente não lê, também Ron Mueck parece fazer uma arte para quem a arte não exija mais do que olhos saudáveis.

A arte de Ron Mueck impacta por ser acessível, imediata, não carecer de decodificação. Seduz, em grande parte pelo primor da técnica, o que espanta o público é a "perfeição", a destreza do artista em reproduzir seres humanos tal qual "eles são". Sua arte reside, aos olhos ingênuos, na reprodução meticulosa do humano, a fidelidade com que reproduz e expõe o real; tanto é, que o que mais se ouve são interjeições seguidas das palavras: perfeito, perfeição.



Outro fato que não se pode desprezar, é que a mostra/exposição se faz, igualmente, como espetáculo. Este espetáculo, começa pela escala das obras: da histérica monumentalidade de algumas peças, da inacreditável miniaturização de outras. Cada obra se propõe ao extasiamento. Elas espantam pelo detalhamento, e contraditoriamente, por "mostrarem-se" como reprodução da figura em si, sem metáforas, sem necessidade de mediação de um conhecedor. Também o modo como são dispostas no museu, - já que exige espaços amplos para maior circulação, - permite ao público aproximação e distanciamento, uma mobilidade maior para "admirar" a obra em todas as suas dimensões visíveis. Some-se a isso, o fato de o público estar liberado para fotografar livremente as obras (sem flash) e, não só, interagir (sem no entanto tocar, embora este seja seu desejo) com a obra.



Como a sanar uma angustia causada diante da irrealidade da perfeição das obras, uma sala apresenta um vídeo-documentário sem narração em que mostra o artista com sua equipe trabalhando na criação das peças. Trata-se de um vídeo sem off, um tanto enfadonho, pois "limita-se" a mostrar a "rotina" do grupo, o exausto e monótono trabalho - nada glamoroso - de pintar ou de aplicar fios de "cabelo" às esculturas. Sem grande destaque, há na exposição, um monitor plano a exibir de modo randômico um vídeo de poucos minutos, no estilo powerpoint, com frases curtas/fragmentas em que críticos comentam superficialmente a Arte de Ron Mueck. O texto oficial da exposição trata do interesse do MAM em aproveitar a primeira vinda da exposição para América e trazê-la ao Brasil, e alguns parcos dados biográficos sobre Ron Mueck, agradecimentoe e créditos da montagem. Nenhum outro dado  educacional, artísticos, que amplie ou proponha alguma reflexão sobre o que se vê, como tudo, até mesmo o folder, resume-se a uma expressão meramente ilustrativa.



Soube que para "crianças", há uma funcionária que circula com "pedaços" da matéria com que a esculturas são confeccionadas, para que possam sentir fisicamente, já que não é permitido toca-las para comprovar sua textura e, semelhança, presumível à carne humana.

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Num primeiro momento a exposição de Ron Mueck reafirma a sua natureza de "evento". O público que vai ao MAM, chega armado de câmeras. Este público não está lá para contemplar, não se posiciona como expectador, está ali, menos para contemplar, mas para testemunhar o próprio espanto. Como evento - e o termo já indica uma quebra do prosaico, do banal - a promessa, que se cumpre é preciso dizer, é que o público estará diante do extraordinário. Este, num primeiro momento capta o olhar, mas num salto, elide a visão, e já não se vê a escultura, contempla-a, admira-a e, neste admirar, esvai-se de imediato todo senso crítico. E como o extraordinário flagrado deve ser exposto, a reação do público é justamente documentar o que veem.



O propósito - explicitado por todos - é reproduzi-la no facebook e outras mídias eletrônicas. Como um acidente de trânsito vislumbrado por detrás da janela,o decúbito de corpo coberto após um crime, as pedras retiradas da vesícula pós-cirurgia, é preciso a materialidade da imagem como confirmação da sua natureza real.


O público, portanto, converte-se em testemunha, e como isto depois de um momento se torna insuficiente, passa a se posicionar entre o aparelho e a obra, inserindo-se no registro. Não bastasse isso, posteriormente, passa a interagir - tanto inconsciente quanto conscientemente com a obra.



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A percepção e a sensibilidade humana alternam-se conforme as mudanças sociais, econômicas, histórias. Não foi a tecnologia que levou as câmeras aos celulares, e estes a toda parte responsáveis pelo modo como "vemos" a arte ou, melhor, como "interagimos" com a arte. Já não toleramos a distância entre nós e o objeto artístico, precisamos nos apropriar dele do mesmo modo como fazemos diante da nuvem que se abre diante dos nossos aparatos midiáticos. Dos games, aos chats, aos blogs, aos 3ds, queremos penetrar e possuir lugar nesses espaços aparentemente abstratos, para tanto, frequentemente nos reinventamos em avatares. Mas isto já não é suficiente. A obra de Ron Mueck, quando "vista" de fato, nos devolve a nossa natureza concreta e limitada. Neste ponto, o hiper realismo do estilo se contradiz a percepção de sua obra.



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Se observados meticulosamente, o que faz a perfeição das esculturas de Ron Mueck é justamente a imperfeição das formas. Renegando a tradição grega, o artista recusa a simetria e a perfeição das formas. Não lhe interessa a perfeição, a exemplaridade que os antigos reproduziram por meio de deuses, heróis, atletas, poetas, filósofos, generais, notáveis.

Todas as nove obras expostas de Mueck reafirmam a fragilidade humana. Com exceção do franco exposto como natureza morta, como carne (e é de fato àquele que poucos dão atenção), a figura humana se impõe. São homens e mulheres flagrados em ações prosaicas, eles próprios tipos comuns. Seu hiper realismo é, contudo, falacioso, pois Mueck reforça as imperfeições decorrentes do tempo sobre os corpos. Rugas, inchaços, feridas, sobrepeso, desproporções, muitas vezes à tangenciar - em muitos aspectos - ao grotesco (O frango, a mãe com o bebê preso ao pescoço e Mask trazem isto mais evidentemente).



Das nove, pelo menos cinco trazem tipos solitários, há dois casais. Os velhos sobre o guarda-sol, parecem expostos com intensidade, e o olhar de afeto da "esposa" para o companheiro parece contrário à tensão que há no casal de adolescente. Num primeiro momento parece-nos uma cena terna, mas às costas, o rapaz prende e força com violência o braço da moça extremamente frágil.



O homem solitário numa imensa canoa sem remos, expõe nudez e impotência com seus braços cruzados e olhar vago. O jovem negro contempla um tanto estarrecido, a ferida fruto de um golpe de faca.



A mulher obesa carrega com alguma impaciência, feixes de gravetos finos e pontiagudos que se contrapõem com sua brandura e nudez feérica.


Preso à parede, com luz direcional, um homem de óculos escuro toma sol sobre uma boia transparente, recoberto de bens de consumo mas sem esboçar qualquer senso de satisfação ou prazer.



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A inquietude das figuras de Ron Mueck está na eleição de figuras prosaicas, típicas, imperfeitas, não modelares. Nunca estão no gozo pleno da vida. Seus olhares são vagos ou intranquilos. Não posam, são captadas normalmente numa ação sutil, mas quase estanques, nada transcendentes ou espetaculares. Oprimidas pelo espaço circundantes: uma mãe trazendo compras no inverno, e que em sua solidão é obrigada a levar o bebe recém nascido preso ao casaco na altura do peito. A violência presumida entre o casal, demarcada na ferida do rapaz negro, e no olhar furioso da guardadora de feixes. Esta intranquilidade esta na tendência  insular das figuras do homem flutuando na boia, do barqueiro à deriva, e mesmo do casal cuja felicidade parece ancorada e defendida sob o guarda-sol colorido. A tentativa de quebra da representação (pensemos no teatro de Brecht, sua teoria sobre distanciamento) em Ron Mueck, se faz pela escala, uma forma de rejeitar a mera reprodução - como se fosse ele um dos artesãos de celebridade de franquias de museus de cera - e forçar o espectador a contemplar detalhes, aspectos físicos e emocionais da figura. O fato de fazer Mask seu autorretrato cuja cabeça é vazada, reafirmando a ideia de representação, parece não ser suficiente para fazer o espectador/público entender essa quebra com a realidade, um ruído no seu hiper realismo. A sedução de sua técnica, parece sufocar qualquer tentativa de discurso já que os olhares vidrados e/ou empenhados na representação não permitem o reconhecimento daquilo em que cada poro, fio, ruga, cicatriz das esculturas de Ron Mueck reafirmam: a  fugaz existência da criatura, sua frágil humanidade, sua impotência diante do mundo. 

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Se o espetáculo se impõe sobre entendimento, ou seja, não se converte numa experiência capaz de re-sensibilizar o sujeito para aspectos de sua vida, ou seja, para lançá-lo para fora do seu olhar viciado; julgar tal experiência mero "entretenimento vazio" não me parece ser o saldo final. Os visitantes da exposição de Ron Mueck apreendem a sua arte um tanto mais pelos sentidos, intuitivamente, mas ao saírem da exposição não duvidam que estiveram diante de um artista e não de um embusteiro. 



As fotos que fazem das esculturas de Ron Mueck não apenas documentam, mas reafirmam a natureza real de um sujeito capaz de recriar a perfeição de que só ao divino pareceria possível. A este espectador atônito, obnubilado pelo encantamento - talvez não apenas para ele - a natureza demiúrgica de Ron Mueck é que torna um artista. Ou seja, ainda que a técnica impere, a fé/as ideías/e o transcendente vivam um atual desprestígio, artista é ainda um termo que muito associam - quase teologicamente - ao sentido de criador. E criadores, hoje, mais que nunca, parecem necessários. Embora ingênuo essa visão meio turva sobre a realidade, não deixa de comprovar que este mundo, como se mostra, parece não bastar a ninguém.












Um comentário:

Bete Lima disse...

Viva a arte de Ron Mueck, que pode ser experienciada e apreciada também pelas pessoas comuns. A arte é isso, para ser apreciada, seja pela elite seja pelo cara mais simples da rua. Quando cheguei no Rio, sou de São Paulo, ao perguntar a um frentista como chegar no MAM ele já soltou: "Nossa, as obras de cera do cara são lindas, vale mesmo a pena!" Essa foi a forma mais significativa e expressiva que retrataram a obra desse magnífico artista. Suas obras representam seu estado de espírito, que pode ser crítico ou não, mas o que importa é que ele fez uma obra para o mundo e não apenas para poucos que se dizem "apreciador das artes". O importante é saber valorizar as pessoas que prestigiam os artistas enquanto eles estão vivos...