sexta-feira, março 07, 2014

Maria Silene, Marisa Monte e o Pequeno Príncipe



Silene, ouvindo no princípio "Enquanto isso" na voz de Marisa Monte (cantora da qual ela acabou por se desencantar posteriormente, mais ou menos no mesmo tempo em que eu), comparou a canção àquela cena do Pequeno Príncipe. Ele caminhava de um lado para o outro, em seu pequeno planeta, para cuidar de sua rosa. (A rosa que tornara-se singular, porque ele a cativara, como lhe tinha ensinado a raposa). 



A gente conversou sobre essa coisa que a tecnologia fez, tornar possível estar em dois lugares e dois tempos simultaneamente. A gente conversava muito -- e longamente, -- sobre quase tudo, nem sempre concordando: uma grande amizade como deve ser, cheia também de divergências, desencontros e sustentada pela admiração mútua, sem hipocrisia, que é como devem ser as amizades que queremos levar para vida afora.

Minha amiga Cilene morreu num acidente de carro uns anos atrás. Fizemos uma viagem linda e inesquecível para o Ceará e para Pernambuco. Ela me apresentou amigos muito especiais, alguns com os quais ainda me correspondo. Pessoas que ela conhecera a distância, em comunidade de música pela internet e que ela só veio a estar em presença muito depois. Mas os encontros de Silene com esses amigos virtuais eram encontros de velhos camaradas, como se não houvesse contrangimento, como se já fossem amizades calejadas.
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Silene gostava de Fernando Pessoa e Maria Bethânia, gostava especialmente de Maria Bethânia recitando Fernando Pessoa. Gostava das cantigas de trovador de Elomar, das Estampas de Eucalol de Xangai, dos dois olhos negros Lenine. Me apresentou a "lata d'água na cabeça" de Vanessa da Mata, quando Vanessa da Mata não era Vanessa da Mata. Era assídua freqüentadora dos SESCs, shows, amava festas populares, viagens. Amava seus amigos, seus parentes, as crianças Fausto, Flora e Gil, tinha uma enorme preocupação com as amigas Sueli, Eva. Vivia em pé de guerra com a irmã Francisca, que talvez fosse uma das pessoas que ela mais amava. E Gabi e o pai. E eu estive uns dias com a família dela no Ceará, pessoas que me receberam com uma ternura incrível, os corações enormes. Ela fez Letras quase no mesmo ano que eu, e estudamos espanhol na USP. Para lá íamos eu, ela, Eva e Magdinha. E de um dia para o outro ela morreu indo para o casa no Ceará. E nada se alterou no mundo, como se fosse uma passagem sem significação alguma, talvez porque as vidas se consomem nelas mesmas.
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Mas eu não consigo ouvir nada mais de novos cantores ou compositores sem pensar nela. Eu ainda busco saber sua impressão sobre o que estou ouvindo. E se falo com amigos comuns ou parentes dela, é sempre em Silene que estou pensando, como se ela não tivesse partido, mas consciente do que se partiu, que girou e está outro.
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Maria Cilene jamais terá 40  anos, a sua idade congelou-se no tempo. Vai ser sempre uma menina. E vai se afastar da realidade a cada dia, ficará intacta nas fotografias e será memória viva dos que as conheceram. O fato de eu poder envelhecer e poder experimentar e ver tantas outras coisas é aflitivo, pois não me acho suficientemente capaz de sentir tudo devidamente. Quando lembro dos que partiram, acho injusto o tempo que lhes foi roubado. Então às vezes eu os resgato deste passado comum para revivê-los no presente. É vã tentativa, na verdade, de ser um pouco o que fui e quase se perdeu, resgatar a pessoa que eu era e pensava. Eles (e ela) que me ensinaram a pensar tudo de uma maneira tão feliz e melhor.

[Hoje eu encontrei perdido no computador este texto de 18.2.2008, foi postado em POLAROIDES PANORÂMICAS, um blog que não há mais. E resolvi postar com memória da saudade de Silene.]



Enquanto isso


Intro: G C G C


   G
Enquanto isso
anoitece em certas regiões
E se pudéssemos
                  C       
ter a velocidade para ver tudo
               G
assistiríamos tudo
A madrugada perto
da noite escurecendo
ao lado do entardecer

a tarde inteira
      C
logo após o almoço
G
O meio-dia acontecendo em pleno sol
                          
seguido pela manhã que correu
desde muito cedo
e que só viram
        C
os que levantaram para trabalhar
                  G
no alvorecer que foi surgindo.

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