quarta-feira, março 19, 2014

Considerações sobre Maria Rita



Foi lançada no vácuo da mãe com um disco que muitos chamaram de o cd-póstumo-de-Elis. Mas ali havia coisas interessantes, alguma sofisticação, músicas que até hoje dão um prazer enorme de ouvir. Anos se passaram, e ela virou talvez o que sempre tenha sido: "uma cantora sem ambição". 


Transita hoje numa linha que não é popularesca, mas que contempla os pouco exigentes. Faz música sentimental e dramática para compor abertura e trilha de novelas, pagodinhos travestidos de samba com letras que martelam rimas e sentimentos fáceis. Vez ou outra faz uma participação mais interessante num disco de alguém, mostrando que poderia ser maior, se quisesse. Não quer. Sua voz parece cada vez mais fraca, rouca, sem nuance, ainda que caprichada na emissão. Mas a repetição dos mesmos caminhos fáceis, - no som, no canto, nos temas - termina por produzir discos monótonos, que mais surpreendem.



Perder peso talvez tenha colaborado para sua coisificação. Surge constantemente linda e sarada em cena,  muito preocupada em sensualizar nos microvestidos agitando-se de lá para cá, exibindo tatuagens cada vez mais vulgares. A Maria Rita cool (ou do tipo funcionária pública, que aparecia nas entrevistas) não há mais, em seu lugar a "diva arrastão" parece em tudo se contrapor àquela da música de Rita Lee que dizia que seu "buraco era mais em cima". Não é. 


Dividida entre a cantora e a gostosa-periguete, caiu na armadilha de segunda, mas ainda não aprendeu a sambar. Sempre mega produzida, nela nenhum gesto parece realmente natural, nem mesmo a emoção simulada em lágrimas nos palcos, ou nos discursos artificiais que pronuncia (o público grita: cala a boca, e canta! - isso eu ouvi no show da Nívea!!!!). 


Mesmo assim, há algo de bonito a ressoar em suas canções, talvez algum desejo de alegria ou de libertação, que o pagodinho fraco parece permiti-lhe, já que a afasta de ser o simulacro de quem já não está aqui, e que sua voz, com cálculo, reitera e reverbera. E ainda que não queira, Maria Rita ainda soa como o eco de uma ausência: de si, da outra, de uma cantora-maior, que não chegará a ser. 

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