quarta-feira, março 12, 2014

A morte e a donzela (o conto)


Era uma vez, num reino muito distante, um castelo onde vivia uma linda princesa. O quarto da bela ficava numa alta torre e, para passar o tempo, a donzela bordava a paisagem do lado de fora da janela.

Um dia, vinha o jardineiro pela estrada quando encontrou uma mulher vestida inteiramente de preto. Tinha a pele tão branca que dava para ver, no rosto e nas mãos, finas veias azuis. O jardineiro percebeu que tudo que ela tocava ressecava imediatamente e morria. Era a Morte e seguia para o castelo.

Tremendo de medo, o jardineiro perguntou-lhe.

- Quem levarás do castelo, Destino de todos?

A Morte sorriu; e sua boca era tão vermelha que o jardineiro sentiu um grande desejo de beija-la.

- Hoje eu verei a princesa! - respondeu-lhe, vivaz, a Morte.

O jardineiro correu o mais rápido que pode e, quase sem voz, falou ao rei e à rainha que a Morte estava vindo levar-lhes a filha.

A rainha gritou desesperada, tiveram que conduzi-la ao leito para repousar. O rei imediatamente mandou que fossem recolhidos sete condenados, e que estes fossem oferecidos à Morte, em lugar da donzela. Mas a morte disse:

- Ainda hoje, eu verei a princesa.

O rei mandou oferecer joias, as mais belas e mais caras; mas a Morte não aceitou. Então o rei, vendo que nada dera certo, ordenou que derrubassem as pontes, espalhassem cacos de vidro, brasas incandescentes nas estradas, para que a Morte não pudesse chegar ao castelo.

A Morte, porém, seguia tranquila. Pisava as brasas sem se queimar; os cacos de vidro, sem se cortar; impassível, cruzava pontes que não estavam lá.

A princesa, quando soube da notícia, pôs-se muito aflita, menos pela irremediável sentença, um tanto mais pelos choros desesperados. Reuniu a todos e pediu que não sofressem, para que seu último dia fosse, por fim, um dia feliz. Chamou a costureira, para fazer-lhe um lindo vestido branco. Respondeu às cartas, que há muito deveria remeter. E mandou baixarem a ponte, para que a Morte não tivesse dificuldade em entrar. Assim preparada, arrematou o bordado com escuro e tenso fio de lã, pois já avistava da janela o ponto negro a mover-se pela pela estrada.

A princesa, então, deixou-se no leito real e cruzou os braços, esperando a Morte chegar. Mas, de repente, precipitou-se num salto: “como morrer sem uma rosa azul?”

As pessoas trancadas nos quartos punham o ouvido junto à porta para ouvir o último suspiro da donzela. Mas esta desceu correndo as escadarias, cruzou o salão de bailes, três rampas estreitas, sem saber que, nesta mesma hora, a Morte já atravessara a ponte e se aproximara do quarto real. A princesa, depois de percorrer o corredor até o átrio, desceu o último degrau à esquerda e chegou ao jardim.

No canteiro central, a linda rosa azul desabrochara e seu perfume era tão doce quanto a própria princesa. A donzela esticou a mão tentando arrancar a flor do galho. Ia puxá-la, quando voltou-se, ouvindo passos as suas costas. Era a Morte.


Impassível, ela perguntou se a princesa queria ajuda. A princesa sorriu, assentindo com um gesto sutil. A morte então esticou a mão, e com muita delicadeza, arrebatou a rosa e a entregou à princesa. 

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