domingo, março 23, 2014

A bela despertada



Quando a princesa despertou, foi aquele susto. Uma aranha com muitos olhos estava aninhada em seu peito. Deu no salto, um grito.

O grito de fato tomou todo o quarto da princesa (que era imenso) e o efeito foi um eco imenso-imenso e um rasgão na teia sob a qual a princesa dormia. Foi tanto surpresa quanto enojada que a princesa afastou do corpo os incômodos fios, assim que abriu a janela deu com a bagunça. Teias de aranhas desciam compridas do maravilhoso dossel, substituíam com igual beleza os véus roídos por traças gordas que agora atacavam as cortinas. Um pó espesso cobria os quadros e outras teias muravam as mil bonequinhas das estantes. Uma aranha mais atrevida fizera brotar do fuso um longo fio que ia até o lustre. O quarto era essa miséria, não havia canto que não houvesse pó e mesmo o real espelho tinha perdido o dom de replicar princesas.



A porta rangeu quando a donzela puxo a maçaneta. Tão indignada ia que nem pensou em tirar da gaveta seu lindo vestido de aniversário, que na noite anterior - tinha certeza - ali guardara. Atravessou o escuro e corredor. Sentiu que a madeira rangia com seus passos. No longo tapete vermelho, seus passos deixavam rubras marcas.

Chegou à sala de reuniões, mas era uma ruína. Seria possível que já todos os homens tivessem ido à caçada? Provavelmente, disse para si, pois desde o fim da guerra não havia coisa outra a se fazer. Mas como tivesse fome, uma fome antiga, fez o que jamais fizera, penetrou a cozinha. Contudo, as caçarolas solitárias estavam baças sobre o balcão, e nenhum fogo saía da fornalha quieta.



A princesa, com uma indignação de alumínio, foi até o jardim. Tinha sede, entretanto, não levou bilha, somente um cálice, que solitário ocupava um canto da mesa. Porém, novo pesar, as abas da fonte tinham ruído e um fino fio de água, muito tímido, escorria por entre a rachadura e ganhava o chão. A princesa perdeu toda a sede, e descuidou da taça que rolou num canto. Agora não queria nada, estava emburrada - embora não fosse burra, um pouco tola, mas nada burra.


De fato, e ela logo pensou, que por certo as amigas bordassem na torre alta. Era isso, compunham no bastidor seu presente. Subiu correndo as escadas, que tremiam, entusiasmada desprendendo pregos enferrujados. Mas rangidos, traques, estalos, soavam à princesa como o riso longínquo de donzelas, de aias felizes, guizos saliente do bobo da corte. Foi assim entusiasmada, que se chocando na porta, a viu desprender-se do batente. Mas nem o pó desceu, constatou que não havia ninguém na torre, só um silêncio de morte. 

Descendo as escadarias em caracol, teve que sentar-se no último, pela vertigem e pelas lágrimas que lhe caiam dos olhos. Se seguisse outro caminho, as sete pilastras, as janelas, iria ter nos estábulos. Esperaria por ela seu cavalo Azul? A donzela já não acreditava. Seria possível que todos tinham se esquecido de acordá-la. Nessa hora sentiu grande falta dos berros do calabouço.

A noite ia caindo, breve, teria que subir e, de novo, adormecer na puída seda da cama. Pensou em dar voltas no jardim, perder-se no labirinto de teixos, colher framboesas para a avó, mas nada a animava. Vez enquanto berrava um "Uh-ru! Tem alguém aí? Para ter de resposta sempre o mesmo lamento: ai, ai, ai. Ao menos tivesse tranças, ela as enrolaria em infinitos caracóis. Mas sua mãe odiava rabanetes e já nascera princesa. Soubesse onde estavam todos e não tinha que ficar naquela angústia terrível, de quem espera há cem anos. 

A princesa já se preparava para uma noite de inquietante desentendimento com as aranhas quando ouviu as badaladas. Eram curtas, depois foram se alongando, alargando-se em prolongados estampidos, como círculos que se vão formando na água, quando no lago se atira uma pedra. A princesa pôs-se de pé, neste instante lembrou-se do dedo e o meteu na boca, como se ainda estivesse ferido, mas não estava. Somente a pequena cicatriz denunciava o desastre do fuso.


A princesa subiu as escadas e seguiu para o real salão do relógio. Como era possível que o tivesse esquecido? Por trás da fuligem e das teias, os retratos de família seguiam com olhos severos. Mas a princesa não estava nem um pouco interessada, contava as badaladas insistentes do relógio, sete ou oito? Se bem que se lembrava o relógio ia até as doze. Como era possível dormir assim, com todo esse barulho?! Chegou nas duas armaduras que defendiam a entrada do salão. Mas elas não intimidavam a princesa, antes a deixavam tímida por aquela nudez que traziam dentro. Girou a maçaneta e empurrou a porta. Mas a porta não abriu. Meu Deus, estava fechada! Mas a princesa não tinha chave. Bateu a décima badalada. A princesa abaladíssima quase caiu de susto. Estivesse a porta trancada, e era só virar a tranca. Por que tinha que ter chave? Chave ela não tinha. Procurou nos bolsos, embaixo do carpete da entrada onde se lia Wellcome. Mas se era bem-vinda, por que estava fechada? Então, com raiva, ela esmurrou a porta. Abre-te, Sésamo! Gritou. Mas a porta não abriu. Pensou assim: agora o que falta é me cantarem o Parabéns. Neste instante soou a décima segunda badalada. 

Puf. Desapareceu porta. Puf. Desapareceu vigias. Puf. Desapareceu castelo. Puf. Desapareceu princesa. Só a moça, metida até o joelhos de borralho dentro de um quarto miserável. "Que bom", disse ela, "tinha sido um sonho." E com muito cuidado, antes de cair no sono, guardou a sua chave na gaveta.


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