terça-feira, fevereiro 18, 2014

O azul é a cor mais quente


Juro que não entendi a polêmica sobre as cenas de sexo de O azul é a cor mais quente (La Vie D'Adèle é um título absolutamente sem graça).  A câmera obviamente lambe o corpo da Adele, cena a cena, mostrando nos lábios, na curva dos seios, da bunda, tudo o que está represado e preste a explodir. 

E lá vem, propriamente dita, as tais cenas polêmicas (pois longas, e quase explicitas) que não só pontuam o despertar sexual de Adele (começando pela masturbação), como mostram que a atração sexual é um dos principais pontos a fundamentar sua relação com Emma. O que não é pouca coisa, pois sendo uma relação entre mulheres, a tendência comum é achar que "o sentimento" e não "o desejo" faz a liga. A razão do rompimento é uma traição sexual, os quadros são de exposição sexual, a cena final no bar é de natureza sexual. 

O desejo é a questão, mesmo que depois ele vire amor e implique em todas aquelas coisas que todos nós "sexualmente praticantes" sabemos o bem e o mal que este tal de "sexo" causa numa "relação afetiva".

O azul é a cor mais quente vai nos deixando rastros da leitura que o diretor quer que façamos - das referência literárias, a questão da formação escolar e do grupo, da família, até o existencialismo de Sartre, a arte de Egon Schiele e Gustave Klint. 

E os menos pudicos vão logo sacar que a questão do amor homossexual é o que menos pesa, pois as questões que apontam é de compatibilidade sexual, de idade, de formação intelectual, julgamento. social (por parte dos amigos), e fidelidade - essa vilãzinha amaldiçoada, a destruir, egoistamente, o que parecia ideal.

Além do tema necessário, o despertar do desejo, o filme é bem filmado, as imagens dão conta dos silêncios, e tudo parece verossímil como um documentário (as cenas na escola são ótimas). Mas o aplauso é para interpretação visceral de belíssima Adèle Exarchopoulos, tudo cabendo nos seus olhos, sua face, seus silêncios e explosões emocionais. Léa Seydoux apropria-se deste caminho e constrói sua sedutora, talentosa e irredutível Emma. 

Belíssimo filme, que provavelmente não ganhará melhor filme estrangeiro, pois os americanos são sexualmente travados.

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