domingo, fevereiro 16, 2014

Nebraska, de Alexander Payne

O preto e branco de Nebraska, que vai se degradando com os amplos horizontes abertos das autoestradas polvilhadas de neve, refletem o esmaecer da memória do pai quase senil, que o filho guia por longas estradas para sacar um prêmio da loteria que não existe. 


O "núcleo familiar" segue sendo o foco dos filmes/narrativas de Alexander Payne, principalmente a relação entre pais e filhos. Mas é o universo masculino, os fracassos dos que pareciam fortes que lhe interessam.


No road movie "Nebraska", o esmiuçar da crise que se abateu sobre a economia e que fez de toda gente um tanto zumbi em frente a seus televisores, ganha forma de drama humano e não terror. Como no recentíssimo "Álbum de família", o passado de sacrifícios gloriosos para produzir aquele famoso "american way of life" se revela fonte de dor, angustia e sofrimento; ele não passando de uma grande balela.



Tanto em um quanto noutro filme, as famílias são frutos de relações longas e apodrecidas, mantidas tanto por conveniência (econômica/moral) quanto por tédio. Frustrados todos, as vidas vazias terminam afogadas em álcool ou num longo dardejar verbal de rancores.




As paixões possíveis, quando há, terminam abdicadas em nome da "família" e da "lei". No transcorrer do tempo, todo o rancor ou indiferença são dadas como herança aos filhos, bonecos ocos a perambular, ou remoendo o passado ou sem poder de decisão futura. 


Em "Nebrasca", o vazio existencial cria homens calados, tolos, balofos; mulheres agressivas, manipuladoras e/ou rancorosas. A hipocrisia nas relações impera, e um cem número de segredos/ocultações sobre desvios morais (das traições à exploração oportunista de um a outro) vão se evidenciando na trajetória infecunda do velho pai em direção ao que é decrepitude e morte. 


Ainda assim, num lance de gênio, o que poderia ser um longo rame rame lacrimoso, pessimista  e de tom melodramático - e enfadonho, como a maioria dos dramas familiares do cinema americano atual - abre espaço para uma possibilidade de aprendizagem e alegria. Do exame que faz da falência das aspirações de grandeza americana, em que todos terminam menos belos e mais losers, não advém grandes discursos e considerações. É a tomada de consciência do próprio fracasso que se converte em ganho. E o filme se torna menos banal, pois subjacente ao local, o que reverbera no espectador é a universal fragilidade física e emocional de todos nós seres humanos. 


No filme de Payne, as pequenas epifanias  tanto surgem de mentiras ou simbólicos pontos de superação (suplências mínimas): um boné, um carro semi usado, um compressor para pintura, um momento de liberdade para se dirigir um carro. 


[ E qual melhor metáfora do que o carro como símbolo de felicidade e autonomia para um país que elegeu-o (e o gas e as estradas) como símile da uma ideia de avanço/progresso, capacidade de alargar fronteiras. Não por acaso o velho pai senil é um antigo mecânico e ex-proprietário de oficina (no filme, atualmente comandada por imigrantes latinos). E não esqueçamos que a carteira de motorista é a identidade do americano.].



E de repente, o crescente menos de Payne, o melancólico e o patético das cenas alcançam uma delicada poesia que se faz pelo olhar humanista do diretor, que chuta sem cessar esse país arrogante, oportunista e meio senil que se converteu os EUA, mas que mostra amor pelos personagens fracos e imperfeitos. E então podemos nos solidarizar com eles, sentir piedade, e desejar que tudo - feito o Miss Sunshine - brilhe intenso e colorido num desfecho para além dos créditos finais.


[Obs. Minha completa paixão pela mãe pequenininha (mais homem que qualquer outro em cena), personagem vivida pela extraordinária atriz June Squibb]. 

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