terça-feira, janeiro 07, 2014

Vida secreta de Walter Mitty, Ben Stiller



Então, quando a gente não esperava, surge essa delícia de filme, cheio de humor, nonsense, um filme que é puro encantamento. 


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O filme tem um ritmo estranho para as recentes produções hollywoodianas. 
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É contemplativo, e muito gráfico, muito apoiado na arquitetura e na geografia das metrópoles e longos campos ermos e sinuosos. 


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Trata do desabrochar do protagonista, algo que se processa com enorme delicadeza, embora não se processe de todo e seja interrompido, aqui e lá, por uma piadas meio toscas e banais.

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Ben Stiller está jogando com um "arquétipo" do cinema americano: o loser, mas o loser que de repente desencanta.


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O melhor (loser já) realizado foi Forrest Gump.
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Esse loser se conecta com o americano mediano, culturalmente aleijado, ensimesmado no seu country-umbigo, com seu emprego medíocre, sua fé no consumo, no trabalho árduo como meio de chegar à felicidade.


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O loser de Stiller vai para vida, mas segue no fim sendo sujeito mediano: cruza entre Indiana Jones e um dos Strockes.



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A realização se processa, claro, através do amor, da mulher inspiração que o apoia e o completa, seu porto seguro.
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É um filme, obviamente fabular, então o mundo adquire uma luz não natural, e quase todos os personagens se tornam um tanto caricaturas. 


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Mas é da fábula não exigir psicologização (embora tudo num roteiro americano tenha que ser explicado como um trauma, na base mais rudimentar freudiana), no caso, a perda do pai e enquadramento do filho.
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Mas a fábula permite a fantasia e que nela se atrele elementos fantásticos, tanto no plano das fantasias do protagonista, como suas próprias ações "reais".


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E é na entrega a ingenuidade da fábula que o filme se torna objeto de encantamento
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Stiller é um acanhado e metódico Gerente da Seção de Negativos da Time. Mas a empresa irá fechar, pois a revista passara apenas a ser digital. O responsável pela transição surge como antagonista, zombando de seu ar sonâmbulo e exigindo eficiência. Como complicador, um importante fotógrafo o tem como parceiro (embora jamais tenham se visto), pelo cuidado com que trata/publica todas as suas fotos. Numa carta endereçada à direção, comunica ter enviado uma foto especial para última capa - que descreve como portando a quintessência da vida - e deixa a cargo de Stiller prepará-la. Mas a foto do excêntrico fotógrafo (ele é nômade, solitário, com a áurea de um ermitão místico) se perde, e o pequeno funcionário se vê à casa de pistas (por meio de fotos soltas), para encontrar o sujeito, chegando a empreender longas viagens por terra, água e ar à procura do fotógrafo Sean Pen. 


Paralelamente, ele precisa tomar coragem para declarar-se a uma nova funcionária, com quem tenta "se comunicar" via internet, já que é tímido demais. Como no perfil ela diz adorar viajantes/aventureiros, ele procura mudar para corresponder ao seu modelo, e ter o que pôr como dados no site de relacionamento que paga. Torna-se por isso confidente (via celular) do funcionário do cadastro, para quem descreve suas crescentes aventuras, motivado, pelo desejo de encontrar o fotógrafo, cumprir sua "função profissional"  (da qual sistematicamente se dedica) e conquistar a garota. 



Junte-se a isso, o fato dele sofrer contínuos apagões no qual mistura realidade e fantasia, numa espécie de universo paralelo em que ele é arrojado, heroico, sedutor. A busca pela foto será o estopim de sua mudança de comportamento e reconexão com o adolescente eskatista de moicano que fora, antes do infarto e morte súbita de seu pai. 
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O filme se dilata, contaminado pelas paisagens exuberantes de montanhas nevadas que gritam/exigem contemplação.

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 Mas filme contemplativo não vende ingressos para uma geração desconcentrada e hiper-ativa interativa. 
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A estratégia de Ben Stiller para vender o filme, e pegar os adolescente comedores de pipocas é materializar gritantemente as fantasias do protagonistas, ora em efeitos pirotécnicos milionários ora com tolices envolvendo bebidas, arrotos e tosqueiras, unica forma de fazer com que os adolescente de até 30 anos não durmam na plateia.



Quero crer que este foi o motivo da corrida desenfreada em que o asfalto se torna skate e tudo parece simular aqueles insuportáveis filmes pirotécnicos de heróis, com tudo que o pacote traz: humor (com  frases tolas de divertimento intercaladas), destruição urbana em escala épica; violência entre machos, histeria pirotécnica com efeitos envolvendo estradas, carros, desabamentos e explosões. 
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Mas à maneira do jogos de videogame, ninguém se fere ou morre, passa-se a uma nova fase. 
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Objetos conquistados garantem pontos e viram elementos mágicos para vencer novos desafios.


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A "trajetória do herói" é meticulosamente seguida passo a passo.
Retorno final à la Doroty: as respostas estão no lar, onde sempre estiveram, e dentro do sujeito, mas a viagem foi necessário para transformação e o retorno triunfal.


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Tire o ranço, e o que se conseguiu foi um filme delicado (apesar de caro) que reverbera uma crença na superação do trauma, transformação do sujeito e integração final.
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Palmas para o uso da canção de David Bowie, "Space Oddity" como tema do protagonista. Perfeita.
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E há entremeada em Mitty, uma crítica a essa obsessão de tudo fotografar sem viver o momento. O fato dele usar a palavra e nunca fotografar para provar onde está, reforça esse afastamento da ideia de "imagem como verdade" - quase uma negação à propria trama. Tudo irá convergir - dando sentido a "mensagem" -  na aparição do tigre fantasma que será um fotograma compartilhado entre ele e o Sean Pean. Foto congelada no olhar, nunca clicada, - o momento mágico bressoniano pelo revés.

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Podia acabar aí, a "quintessência da vida" está na vida em si, no que não pode ser captado, mas visto e sentido. Mas é um filme americano, e tudo tem que fechar de outro modo, ser solucionado, selado, e servir para o epílogo glorioso do herói.

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Isso vai se dar quando sair na revista a foto esperada. Ele estiver com a mocinha. For "aprovado" pelo filho dela. Ou seja, infelizmente, o movimento para transcender a vida medíocre, ganha um recuo, e termina por mesmerizar a experiência para cair na existência inolvidável e banal. Na valorização do trabalho cotidiano, metódico, onde "estaria a quintessência da vida": no cotidiano, na rotina, no dia a dia do trabalho árduo.

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Acho que não concordo com esse sentido "moral" de trabalho como único "valor" a engrandecer o homem.

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Mas até aí já gozamos da alegria de tudo que foi bom, e que nós espectadores entendemos e crescemos mais que o personagem que parece esticar e voltar - boneco - para o mesmo ponto.

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Eu prefiro a sequência da vida. O poético do olhar do fantasma. A vida para mim que vence está no prazer dos encontros emoldurados pelo belo da vida, como naquele lance de jogar futebol com os guias das montanhas ao lado do sujeito extraordinário que ele mais admira. 



2 comentários:

railer disse...

este filme é sensacional!!

wair de paula disse...

É um filme muito bom, e que deve crescer numa segunda vez. E tem uma trilha sonora deliciosa, além de uma fotografia linda' abraços!