terça-feira, janeiro 07, 2014

Álbum de família//August: Osage County


Assisti no Rio, no Unibanco que fica ali no Aterro do Flamengo (ou já será em Botafogo?). O título em português roubaram de uma peça do Nelson Rodrigues, Álbum de família. Elenco estelar. Peça de teatro adaptada. Pai alcoólatra some e filhas crescidas vem para casa para dar suporte à mãe com câncer de boca viciada em analgésicos e outras drogas. Meryl é a mãe megera que tortura psicologicamente a todos, e tem prazer especial em humilhar e chantagear emocionalmente as três filhas. Juliete Lewis faz a piriguetezinha meio sonsa feliz por estar prestes a casar com um canalha com tendências pedófilas, e viver na Flórida. A outra irmã é (não me lembro a atriz) é frágil e vulnerável, apaixonada por um primo com deficit de QI, que a própria mãe (irmã de Meryl) despreza e zomba continuamente. Ao encontrar o corpo do pai num barco (onde se suicidou), a encontro se converte em velório. A crise e autoacusações acirra os ânimos. O embate principal fica entre Meryl e Julia Roberts, que faz a filha predileta do pai, hoje mulher irrascível e amarga, que já não tolera a loucura da casa e da mãe. Ela, contudo, espelha a desordem familiar, com seu casamento desfeito e sua filha pré-adolescente indiferente/insensível (a menininha de Pequena Miss Sunshine) com a qual não sabe lidar. Seu autoritarismo e mau humor se deve em parte ao divórcio recente, de um marido que a trocou por outra mais jovem e com quem tem alguma esperança de reatar. Completa o quadro o genro descente -  mas simplório - que não é poupado do ódio generalizado, mas é o único a se voltar contra sua esposa para defender o filho. Na mesa, rancores atávicos passados de mães para filhas geração a geração, em processos contínuos de humilhação, desprezo, violência física, traição. O veneno corre solto e ninguém se safa. Serve à mesa uma empregada indígena, recém contratada, e que mal fala. Ela e Meryl encerram o filme numa citação berguimaniana à clássica cena do seio/morte/maternidade de Gritos e sussurros. Como teatro filmado, os diálogos e os confrontos são o que sustentam o filme. Há boas atuações, mas predomina certa canastrice americana: aquela coisa de todo mundo dizer a verdade na cara, com revelações bombásticas na berlinda, e relações podres correndo solta nos corredores. Não há sutileza pois o diretor não parece acreditar no poder do silêncio e da interpretação das suas atrizes. Tudo que deveria ser respiro é preenchido com música dramática seguido de travellings cafonas/manjados e desfoques. O tom do filme é propositadamente histérico/desmedido desde a primeira cena. É um filme sobre aniquilamento, sobre desesperanças e morte. Ouso dizer que é um filme sobre mulheres e para mulheres, sobre o quanto elas são figuras poderosas no universo da família, sobre o quanto podem ser passivo-agressivas e intolerantes entre si, e até permitindo que seus homens lhes sejam igualmente cruéis. Acho a vida mais complexa, por isso prefiro ler os contos de Laços de família, de Clarice Lispector. Esta vai fundo, na carne e para além dela, deixando que a gente complete os significados com nossa própria experiência vivencial. O que mais se pode aspirar da verdadeira arte?

Nenhum comentário: