domingo, dezembro 15, 2013

Caixa de Areia, Jô Bilac

O dramaturgo Jô Bilac segue profundamente influenciado por Nelson Rodrigues, e nesta peça mais recente suas conexões com Vestido de Noiva são nítidas. Plano da memória, do sonho, passado (ou fantasmas do passado) se entrecruzam num apartamento de classe média. Inicia de forma estranhíssima (e por isso interessante), com "personagens de sonhos" analisando a sonhadora, - Ana (Cris Larin) - uma mulher que está sempre de preto.


Está presente, como não poderia deixar de ser, aquele humor - um tanto nonsense - que traz a dramaturgia de Bilac, mas um humor que escamoteia o drama, as angústias interiores. Ele segue brincando com aqueles caracteres expressionistas e juntando-os ao prosaico, aos desejos banais e mesquinhos. Em Caixa de areia, contudo, acrescenta/radicaliza a fragmentação da trama, misturando tempos que torna a fruição mais difícil, elucidando-se gradativamente os "mistérios" que se constroem no vácuo, nos não-ditos. Esse respiro fica ancorado nas costas de Tais Araújo, que faz uma mãe de família tagarela, obsessiva no seu desejo de ocupar o apartamento de Samantha, a vizinha solitária que lançara da janela na caixa de areia do playground do prédio.



Um tanto simplória, desfere numa metralhadora de palavras sua obsessão comezinha (assim sempre são os desejos das mulheres de Bilac), para uma misteriosa personagem de preto. Posteriormente saberemos tratar-se de Ana, sua própria filha, - o diálogo passando-se, portanto, no inconsciente da própria Ana. Traumatizada, esta divide a vida entre três enterros.


O primeiro da citada vizinha, Samantha, (amante do pai, que as abandonou posteriormente e que talvez tenha assassinado a moça); o segundo, do filho (na "caixa de areia"), rememorando seu retorno ao mesmo apartamento, para viver com o marido e o filho bebê. O terceiro, do ex-marido (que permaneceu no apartamento desde então, quando esta o abandonou) e que, igualmente, se suicidara. Neste retorno, "a velha que se tornou" se encontra com a "jovem que foi", repleta de culpa. Crítica teatral, em determinado momento, Ana ocupa lugar na plateia para comentar as próprias cenas da peça.



O cenário é um apartamento atulhado de gavetas, móveis empilhados, vãos, portas. Em determinado momento, areia (a memória) passa a escorrer de várias gavetas (mesmo do teto), tornando mais obscura e desoladora a angústia da mulher, que ao abandonar de vez o apartamento, deixa suas figuras de sonho/pesadelo para trás, mas sem ter resposta para os mistérios.


Diálogos divertidos e afiados se alternam a monólogos tensos e poéticos, de autorreflexão (e até metateatro, posto ser a protagonista uma crítica). Abundam, também grandes silêncios que reforçam uma angústia materializada na luz pesada, no cenário carregado, na interpretação ora contida ora expansiva dos atores.



Tudo contribui para o clima de estranhamento, de exasperação e asfixia retratado na peça. Simbólico, o apartamento é mais "vão da memória" que lugar de fato - a caixa de areia revela ser, espaço menos lúdico, mas casa dos mortos. Humor/nonsense está mais para despistar da imersão que Bilac propõe, neste que considera o fechamento de uma trilogia [com "Savana Glacial" (2009) e "Popcorn - Qualquer semelhança não é mera coincidência" (2011)]. Segundo Bilac, na primeira estava em cena "o criador", na segunda "a criação" e nesta terceira "o crítico". 


Caixa de Areia (2013). Peça de Jô Bilac. Direção de Sandro Pamponet. Sexta-feira (13.12.13), às 21h, fomos no Teatro CIT-Ecum, Rua da Consolação (n. 1623). Taís Araújo, Luiz Henrique Nogueira, Cris Larin, Jaderson Fialho e Júlia Marini

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