terça-feira, novembro 26, 2013

Hamlet, uma dúvida


Luta vã essa de ser Hamlet.  Não existindo, ele é mais ser que o ser, por isso, no palco será sempre alguém fazendo-se de Hamlet. Por isso, seu intérprete está sempre sub judice: a caveira de Yorick na mão e o olhar crítico e impiedoso do espectador. Explico: Hamlet (cujo nome é legião, ou seja: William Shakespeare) há muito deixou de ser personagem para ser um porta-voz do humano. Pouco interessa as suas peripécias, mas sim a capacidade do ator em nos fazer crer naquelas dúvidas, angústias, indagações filosóficas, e na sua loucura fingida: a verdade de sua dor. E o que lhe dói? O ciúme da mãe edipianamente convertido em obsessivo amor pelo pai? A vacilação em punir um crime que ele próprio poderia ter cometido? E o que nos mostra? A morte em série dos pais? A ação vindicatória de filhos passionais? Uma sequência de loucuras simuladas e sinceras? Um lusco-fusco em que a verdade fica bem além? E como se compõe? De lutas de espadas entremeadas de solilóquios grandiloquentes sobre o não sentido da existência? Seria isso?
Hamlet supera qualquer encenação. Talvez, por isso, sigam tentando e não chegando lá: tudo morre comezinho, quando sua grandeza está em reverberar sempre, em transcender seu silêncio final.

[Tirada de uma crítica a peça Hamlet, antes postada no Soul Art, aqui reconfigurada, revista/revidada]

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