sábado, outubro 05, 2013

Um movimento subversivo - Rio de Janeiro, 1973



Transcorria o ano da graça (e da desgraça) de 1973. Portanto, o que vou narrar tem 40 anos. Se você tem essa idade, devo lhe dizer que, em 1973, corria solta a guerrilha do Araguaia, Salvador Allende foi derrubado, terminava a guerra do Vietnã, fizeram a primeira ligação pelo celular, inventaram a ethernet e ergueu-se o fatídico World Trade Center.

Aqui havia o governo Médici. E havia a censura. E havia a tortura. E havia a poesia.

Os exilados só iriam começar a retornar em 1979/1980. A coisa aqui era braba! O poeta Moacyr Felix chegou a publicar o poema: "O Exílio É Aqui".

A poesia é outro exílio. Então, nesse duplo exílio, eu, que na adolescência havia publicado "O Desemprego do Poeta"(1962), encarei, de novo, esse desencontro.

Acontece que eu era diretor do departamento de letras e arte da PUC-RJ. Acontece que havíamos criado ali uma pós-graduação que estava mexendo com o estatuto da teoria literária e, por isto, trouxe ao Brasil Michel Foucault. Acontece que, desafiando a repressão, propus aos alunos um curso muito doido, um curso sem bibliografia, um curso que não sabia como ia se desenrolar ou terminar.

Então lhes disse: "Este semestre vamos estudar a poesia que se está fazendo no país. O detalhe é que ninguém sabe, nem eu nem vocês, qual a poesia que se está fazendo no país. E isto não apenas por causa do regime que nos atordoa, mas porque o sistema literário também é repressivo. Pode ser que tal poesia esteja sendo gerada fora do eixo acadêmico e editorial, fora do controle de certos grupos. Vamos estudar o que não conhecemos, o que vai aparecer e que pode ser muito bom ou muito ruim. É um risco. Quem for brasileiro siga-me!". Seguiram.

E o imprevisível ocorreu. Quando pelos jornais os poetas do país souberam dessa "abertura poética" que antecedeu em cerca de dez anos a "abertura política", começaram a mandar seus poemas. E eu estimulava: já basta a censura dizendo o que se pode e não se pode fazer.

"Mandem poemas visuais, poemas corporais, poemas em super-8, poemas orais, escritos, dramáticos, enfim, o que estão produzindo sob o nome de poesia." Resultado: mais de 600 poetas saíram de suas tocas.

O projeto acabou se chamando Expoesia. Vários significados: exposição do que é, do que não é (ex) e do pretende ser poesia.

Além de "happenings" e imensos pôsteres, foi elaborado um programa que consistia numa exposição didática dos movimentos que marcaram a poesia brasileira neste século : modernismo de 1922, Geração de 45, vanguardas (1956-1967), tropicalismo (1968), poesia marginal (1968-1973).

Naquele tempo a poesia brasileira era um estranho entredevorar-se de grupos que se hostilizavam: Geração de 45, concretismo, neoconcretismo, Práxis etc. Botar esse pessoal junto era uma temeridade. Cada grupo era dono da verdade e da poesia.

Havia um AI-5 não só na política mas na poesia. Cada movimento poético tinha (militarmente) suas "palavras de ordem".

Talvez cansados disso, os poetas atenderam milagrosamente ao chamado, exceto os concretistas paulistas. Esse movimento foi representado por uma bela exposição de poesia concreta alemã.

Durante uns dez dias, em outubro de 1973, para espanto dos padres e dos poetas, a universidade abriu-se ao inesperado. Faculdades e escolas programaram visitas de alunos.

E foi histórico o debate entre João Cabral de Melo Neto, Chico Buarque, Gilberto Gil, Ronaldo Bastos e Jards Macalé: um diálogo entre música popular e poesia erudita no auditório apinhado de jovens.

Foi aí que João Cabral disse: "Eu não posso hoje ler nenhuma sequência de 'Morte e Vida Severina' sem que a música me fique soando no ouvido. Hoje, estou resignado a tirar das minhas 'Poesias Completas' o auto de Natal 'Morte e Vida Severina', pois creio que ele pertence mais ao Chico do que a mim".

A ideia proliferou: Curitiba realizou a Expoesia 2, Friburgo, a Expoesia 3, e havia pedidos para que se fizessem outras expoesias em Brasília, Belo Horizonte, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul.

O SNI (Serviço Nacional de Informações) considerou a Expoesia o movimento mais subversivo daquele ano.

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA, 76, é poeta e escritor, autor de "Sísifo Desce a Montanha" (Rocco).

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